‘Mamãe, eu quero meu todinho’

A pequena narrativa aqui comprova uma certa ou quase antipatia pelo tal “todinho”. Coisa de mãe de primeira viagem, penso eu.

Na verdade, não sei se é antipatia ou se não gosto mesmo do tal todinho. E já vou adiantando que evitarei as aspas por saber que elas se tornariam, no decorrer do texto, enfadonhas, repetitivas,irritantes, com um tom jocoso. Vamos por partes, ou melhor, pelo início.

Estávamos eu, minha irmã e a cunhada às compras no supermercado para a nossa jornada de curtas férias à beira do Araguaia. Enquanto estávamos no arroz, feijão, batatas, pães, reinava a paz. A discórdia surgiu quando, ao final das compras, olho para minha irmã e lá está ela com os braços lotados de todinhos [kits e mais kits de três, o danadinho vem de três em três, o que aumenta o risco de se tornar um vício entre a criançada, e, até mesmo, entre marmanjos], skinny´s [isto mesmo, skinny, aquele pacotinho ainda é nas cores amarelo e vermelho, cheio de um biscoitinho tipo isopor com cor amarela e com uma quantidade de sódio que pode garantiro aumento da pressão e o aparecimento de outros males para a saúde] e fandangos [muitos pacotinhos de fandangos de todas as cores e sabores: pizza, frango, carne, queijo, assados e fritos]. Ah, detalhe: está escrito, em letras bastão e de cor avermelhada, zero por cento de gordura trans. Detalhe sombrio para alguns, ensolarado como um dia sem nuvens para outros.

Uma crise de consciência me assola. Mas o que importa ser ou não ser 0% de gordura depois que todos se lambuzam destes petiscos: NADA. Há muito pouco o que se fazer diante de destas coisinhas que são muito mais prazerosas e gostosas para os pequenos do que frutinhas em pedaços ou amassadinhas, arroz com feijão e carne, leite puro, sucos de frutas, e segue tudo o mais que é natureba.

Enfim, a cartilha da boa saúde desaparece diante de uma prateleira como esta em qualquer supermercado. Após a tempestade de medo, um dilúvio de pragas que joguei em minha irmã por causa dos “malditinhos prazeres”, ela ainda me alertou: simples, muito simples, meus filhos irão comer, todos os filhos de todas as mães irão comer e se deliciar e a sua vai ficar olhando, chorando, escandalizando a todos porque a mamãe dela é do tipo politicamente correta, e não vai comprar nada disto para a coitadinha da filha que é apenas uma criança. E mais veneno: se o meu filho acordar no meio da noite, chorando, pedindo por mamadeira, você acha que eu vou me levantar, abrir a barraca com aquele ventinho frio do Araguaia para fazer uma mamadeira no meio da noite? Não. Abro o todinho e pronto. Simples, assim…

Oh, Meu Deus! E agora! Quem vai me salvar? Ninguém, óbvio. A briga é injusta, fria e real.

Meu mundinho por uma alimentação saudável caiu.

E foi ai que me vi diante daquela prateleira com os braços cheios de bolachas de água e sal, estarrecida, perplexa. E ela continuou a jorrar mais veneninho para a mamãezinha que acha que está protegendo a sua cria de pessoas como a sua irmã. Ah, tá: “bolachinhas de água e sal”. Quem gosta, você ou ela? E olha aqui: integral, natural. Presta atenção. A vida não é esta casinha cor de rosa que você está montando a cada dia para a sua filhinha. Qual a criança que gosta de comer apenas bolacha de água e sal? Coisa mais sem graça: farinha, água e sal. Não pode exagerar, mas tem de comprar umas coisinhas mais gostosinhas e coloridas para a criança. Ela vai virar um etezinho na escola, e, também, quando estiver com os amiguinhos e família.

Pasma, não tive como retrucar. E ai cedi ao todinho, skinny e  aos fandangos, estes dois do tipo assado. Menos pior. E ai fomos ao passeio. E, sem sombra de dúvidas, teria sido uma catástrofe ver todas as crianças com seus pacotinhos multicoloridos e salgados, e minha filha com um pacotinho de bolacha de água e sal ali na praia. Outro detalhe sórdido: todos acompanhados, claro, de refrigerante. As caixinhas de suco ficaram por ali, desamparadas, à espera de alguém. Na minha cabeça, suco de caixinha é bem natural. E, como não podia ser diferente, eu também cedi aos prazeres da boca. Ufa!!

Agora, sem muito peso na consciência. Bem, excluir minha criança do mundo real é quase impossível.

Dosar, equilibrar: é um caminho!

A Catarse é necessária para aprendermos a viver um pouco melhor.

 

Karylleila Andrade Klinger
Graduação em Letras pela Universidade do Tocantins (1993), mestrado (2000) e doutorado (2006) em Linguística pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora adjunta do curso de Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Letras, Mestrado e Doutorado em Ensino de Língua e Literatura, da Universidade Federal do Tocantins. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase no ensino do Léxico e em Onomástica/Toponímia.
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