No dia em que os capítulos fazem sentido

 

 

Quando as palavras não conseguirem descrever o que penso, procurarei olhar para você. É que olhando eu posso adicionar mais detalhes que ajudarão compor meu discurso, construindo e desconstruindo algumas convicções quase inquebrantáveis. Mesmo que, no fim, eu não fale, quero frutear minhas teorias.

Quando brigar comigo, ficarei lhe olhando. Reunirei seu bramido, trejeito, tom e disposição. Assim, conseguirei entender a intensidade das suas limitações e, ao mesmo tempo, responder suas ansiedades. Além das observações, as quais muito me acrescentarão, o outro benefício será me divertir com essa zanga. Os efeitos de sua braveza mostram belezas, aí, escondidas.

Quando a tristeza tomar destaque e comandar seu eu, olharei para você. Sentirei todo o seu pesar percorrendo os diversos pedaços seus. Compreenderei até onde consegue encarar e suportar isso. E partir desse instante, encontrarei planos que lhe livrarão de tal incômodo.

Quando sorrir para o mundo, adivinha… Os meus olhos firmarão em você. Isso será o meu recreio. Uma das forças que manterei guardadas em mim. Acreditarei, fielmente, que essa ação será uma das minúsculas coisas mais belas que o mundo tem para oferecer. Desculpe-me, mas preciso desse momento na minha vida. Permita-me, por favor!

Quando você quiser a solidão como companhia, olharei para o céu, e com os olhos firmes e atentos, desenharei seu rosto e o de tantos outros que poderiam formar o seu grupo, a sua base e alegria. Já que, no momento, prefere a solidão, eu, por outro lado, não prefiro, não. Quero, imaginariamente, me cobrir de relações, e que você “esteja” lá, para lhe observar.

Destaco a presença de outras pessoas no meio, também, porque não quero estudar (olhar), somente, você. Quero olhar para o mundo. Quero entender como ele funciona. Tenho preferido à profundidade, e nada mais justo que escolher o “olhar” como meio para tantas aprendizagens. Desse modo, auxílio, penetro na vida dos outros e, de certo modo, entendo e invento uma cidade. A nossa cidade. Aquela em que rabiscaremos as nossas flores, casas, camas, cartas, diversões…

Essas relações farão com que cristalizemos as nossas características. Eu quero mais que lhe olhar. Quero entender como as pessoas se deslocam. Partindo desse entendimento, poderei, de tempos em tempos, atualizar essa cidade. Então, mais uma vez, permita-me olhar para você. Para os outros. Ver os mundos, as casas… e como chegar (se é que quero o fim dessa viagem).

Olha, eu não costumava olhar nos olhos. Distanciava-me da sensibilidade e ocupava mais de mim nos espaços da ignorância. Quando olho nos seus olhos, eu não invado sua intimidade. Fique tranquila com isso! Na verdade, é totalmente o oposto. Quando olho para você, eu descubro mais de mim. Vou passeando nos canteiros onde colhi as raízes do meu medo, do meu fracasso, do meu ressentimento, do meu nervosismo, da minha falta de instrução… Quando olho para você, recebo sua ajuda. Mesmo que, escancaradamente, invisível.

Entende, agora, por que preciso lhe olhar? Ao olhar, planto raízes melhores, mais cheirosas e vistosas. Essa temporada aguçou meus sentidos. Tudo porque passei a olhar. Pude sentir o verdadeiro cheiro podre de alguns lugares, tatear mais crostas que, a princípio, aparentavam ser de peles e paredes cuidadas. Os barulhões em meus ouvidos vinham, agora, de canções altas, porém de desordenamentos ordenados. Pude sentir o verdadeiro gosto dos cafés e chás. Alimentei-me bem. Foi tempo de revelações, entende? Imundície. Essa sensibilidade em descobrir se deve aos investimentos que fiz na visão. É preciso exercitar os olhos e alma. Agora sei olhar.

Quero que você me olhe, também. Estude-me. Estude-se mais. O mundo, se for bem olhado, mostra coisas lindas. Se não soubermos olhar, diariamente faremos desserviços para alma. Aproveito dessa descoberta para olhar um pouquinho melhor hoje. Se Deus me permitir, amanhã. E depois… Meus olhos são belos e imensos demais para permanecerem fechados, distraídos ou reprimidos. Fechar os olhos, agora, só se for para ficar espiando no meu outro plano (nos sonhos).

 

Rômulo Sousa
Acadêmico de Psicologia no CEULP/ULBRA; Estagiário no Serviço de Psicologia - SEPSI; Colaborador no (En)Cena - A Saúde Mental em Movimento.
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