Até o silêncio gritava nos corredores do PA Sul

Novo semestre, novas possibilidades…

Em 2007/2 não seria diferente. Cursava o meu último ano de Psicologia e o maior desafio era o Estágio em Psicologia e Processos Clínicos I que, no meu caso, seria realizado aos domingos das 8h às 20h, no Pronto Atendimento Sul (PA SUL), localizado no bairro Aureny I em Palmas – TO. O funcionamento do PA SUL é de 24 horas, dividido em duas equipes de trabalho, que prestam serviços no plantão diurno e no plantão noturno.

Recordo-me que na noite de sábado, anterior ao meu primeiro dia no PA SUL, eu lia e relia com muita atenção os autores que iriam nortear a minha conduta no estágio. Agarrei-me a essas leituras, pensando serem elas suficientes para orientar minha prática naquela noite. Quanta ingenuidade! Percebi assim que sai de casa que, todo o conhecimento que pensava ter, não era decisivo para a o sucesso da minha atuação.

Cheguei tímida e apreensiva em um novo território. Fui bem recebida.  A enfermeira chefe me apresentou toda a equipe e a rotina de trabalho. Atenta, observei cada passo dos profissionais que ali trabalhavam. Naquela manhã, aprendi que, quando o paciente chega ao PA SUL, informa os dados necessários para que a atendente preencha a Guia de Atendimento de Emergência (GAE); depois, aguarda na sala de recepção a sua vez de ser atendido pela equipe de enfermeiras que realizam a triagem no setor de classificação de risco. Enquanto uma enfermeira verifica os sinais vitais, outra preenche a ficha e, após a triagem, o paciente aguarda em um corredor a sua vez de ser atendido.

Nos corredores…

Gestos, expressões de dor e angústia marcavam as faces das pessoas que ali esperavam. O silêncio gritava… Clamava por socorro. Os pacientes, impacientes, esperavam a sua vez de serem atendidos. Percebi que o sofrimento que permeava a passagem do paciente pelo PA Sul poderia ser minimizado pela intervenção psicológica. Era preciso fazer algo, valorizar a subjetividade de cada pessoa que lá estava. Impressionou-me muito a história de uma senhora de 73 anos. Ela me confessou – com sorriso quase infantil – que sempre dava um jeito de, ao menos no domingo, ficar “doente”. Para ela, ficar sozinha e sem ter o que comer no domingo pela manhã era muito triste. Seus filhos não faziam questão de ir visitá-la, por isso ela preferia passar a manhã por ali. Ela me pediu segredo, pois não queria que a equipe de atendimento percebesse a sua “peraltice”. Fiquei muito comovida ao perceber a solidão nos olhos daquela senhora. Fiquei ali com ela a ouvir suas histórias que, naquele momento, não importavam se fossem verdades ou não. Que relevância isso tinha? Ela só queria atenção.

O domingo parecia interminável…

Tão pouco tempo para tantas emoções fortes! Um garoto de 17 anos chegou ao PA SUL às 18h50, algemado e imobilizado por quatro policiais. O pai e a mãe acompanhavam o menino. A mãe, descompensada, relatou que chamou os policiais porque ele estava com uma barra de ferro querendo agredir o pai. Segundo ela, o garoto há mais de duas semanas apresentava um comportamento agressivo. Ela procurou um psiquiatra, mas o filho se recusou a ser atendido e sequer aceitou medicação. A mãe relatou que ele sempre foi uma criança tranquila e que sempre foi bom aluno. Mas, ultimamente, estava faltando muita aula.  Ela não sabia onde e com quem ele estava. Segundo ela, o rapaz estava “fraco do juízo”, fantasiava que ia trabalhar no Palácio Araguaia, que ia trabalhar com os deputados. Cheguei para conversar com ele que, agressivo, verbalizou que os pais não o entendiam. Ele disse que passava o dia na rua procurando um trabalho. Começou a chorar compulsivamente e disse “eu só quero futuro!”. Ainda algemado ele se encolheu na cama, a mãe ficou próxima e, sem jeito, afagou os cabelos do menino. Essa cena é latente em minha memória! A enfermeira procurou acalmá-lo para que aceitasse a medicação. Conversei com a mãe que, chorando, relatou sofrer muito em casa por conta dessa “fragilidade” na qual que ele se encontrava. Enquanto isso, o menino gritava “eu não sou doido, não quero remédio”. Na tentativa de acalmá-lo fiquei junto da enfermeira que negociava com o menino sobre a injeção. Com um olhar triste e silencioso, entendemos que seria um sim. Após o procedimento ele virou para o lado e, chorando, murmurou palavras soltas que, naquele momento, soavam como um pedido de socorro.

Mergulhada naquele mar de emoções… Era chegada a hora de retornar para casa. Aquela noite foi angustiante: não conseguia dormir pensando nas histórias que ouvi, que vivenciei. Refleti sobre as minhas práticas profissionais e me senti despreparada para agir. Era preciso mais doação, mais sensibilidade para ir além da simples demanda de uma estagiária. Seria necessário ter mais responsabilidade para com as pessoas que cruzavam o meu caminho.

Diante de todas as dificuldades que passei, compreendi o quanto o trabalho do psicólogo é relevante em situações de vulnerabilidade de corpo e de mente. Em um Pronto Socorro, o psicólogo, bem como toda a equipe de saúde, não pode prever o seu dia de trabalho. A imprevisibilidade perpassa o contexto, pois nunca se sabe quantos pacientes procurarão ajuda e que tipo de atendimento eles vão precisar. Penso que, no caso do psicólogo, os atendimentos devem ser breves, focais, de forma a minimizar o sofrimento de pacientes e familiares. A escuta do psicólogo permite a explicitação do sofrimento e, a partir dessa escuta, discriminar entre a urgência médica e a subjetiva. A palavra tem o poder de “resgatar” o sujeito de seus abismos interiores.

Os domingos que seguiram foram dias de trabalho intenso, não apenas do ponto de vista técnico, mas, também, emocional. Descobri que, imersa naquele contexto, a minha prática seria pautada não apenas pelo conhecimento teórico e técnico, mas pela sensibilidade, por minha vontade de fazer diferença. A minha vivência no âmbito hospitalar me colocou em contato com situações e fatos que marcariam para sempre a minha vida. Quebrei paradigmas, enfrentei desafios, tive que ser flexível comigo mesma ao lidar com a minha ansiedade. Aprendi a interpretar atitudes, gestos, expressões e compreendi que o silêncio pode falar mais alto que gritos, choros, desabafos.

 

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com
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