Diário de Campo: Território Desconhecido

Querido diário acabei de chegar da ASCAMPA…

Entrando na Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis da Região Centro-Norte de Palmas/TO – ASCAMPA a visão era de um vasto território repleto de material reciclável, porém que necessita da coleta seletiva, grande parte do material que ali estava, ainda não tinha sido selecionado. O material chega ali por meio de pessoas que não realizam a seleção, dessa forma os catadores que ali trabalham tem que separar manualmente todo este material – que por sinal, já poderia vir separado por quem o produz (mas eu acho que as pessoas ainda não sabem disso).

Fui no horário de almoço, encontrei duas senhoras almoçando, a presidente da associação e outra senhora. Expliquei a elas o projeto que faço parte e me ofereci como trabalhador voluntário por alguns dias, irei quarta-feira e quinta-feira. Elas me contaram as dificuldades da obtenção do material e o grande desperdício, o dinheiro sendo jogado fora, literalmente, no lixo. Elas me explicaram que cada tonelada de lixo que vai para o aterro é cobrada uma taxa de R$ 80,00 reais. Para o aterro de Palmas/TO, só no mês de julho de 2013 foram coletados em média 223 toneladas/dia de lixo, fazendo uma conta rápida, só no mês de julho de 2013 foi jogado no lixo R$17.840,00 por dia. No mês foram pagos R$ 553.040,00 (meio milhão de reais em um mês) em taxas. Para mim e para muita gente isso é muito dinheiro. Tudo isso ainda poderia ser revertido, e esse dinheiro poderia ser utilizado para muita coisa, se houvesse uma simples coleta seletiva. Poxa vida, tanto dinheiro indo embora, vou continuar esperando alguma reação do governo? Bom, eu tenho 19 anos, acho que é um tempo suficiente de espera, então, querido diário, acho que tenho que começar a fazer algo.

A senhora que me atendeu na ASCAMPA, me explicava que posso fazer isso na minha casa, separar a “lata de leite do menino”, as garrafas de refrigerante, os papeis que jogo fora, tantos panfletos que ganho, tudo isso é dinheiro. Dinheiro que, como nós não sabemos utilizar, jogamos no lixo. A ASCAMPA sabe e tem o material necessário para revender esse material reciclado, “recuperando” assim todo esse dinheiro. Isso tudo sem contar nos danos ambientais que são amenizados.

Depois de toda essa conversa, fomos ao ponto do meu trabalho voluntário, irei dois dias, trabalharei na própria seleção do material na ASCAMPA. A senhora me pediu uma ajuda para escrever uma placa, dizendo que ali recicla material RECICLÁVEL, material que não é reciclável, não tem o que fazer. E muita gente deixa coisas inúteis ali, como se fosse um lixão, coisa que não é. Então, na quarta-feira, irei levar tinta e ajudarei a confeccionar essa placa junto com eles.

Querido diário, acho que um mundo novo me espera, só nesta pequena passagem por lá conheci um mundo que não me tinha sido apresentado.

Boa noite querido diário…

Terminei agora meu expediente voluntário na ASCAMPA. Tentarei te explicar o que vivenciei e como estão meus pensamentos. Adianto desde já te digo que não é uma tarefa fácil!
Minha manhã começou as 08:00 na ASCAMPA, ao entrar a visão era um caos, muito material, que até então para mim, era considerado lixo, ou melhor, era confundido com lixo, e pelo visto, não é sou o único que faz essa confusão. Ali, esse material que chamamos de lixo, se torna o sustento de várias famílias. Isso sem nem mesmo mencionar que todo esse resíduo – que antes iria ser prejudicial à natureza – agora vai ser reutilizado, seguindo todo um processo. Em média 30 pessoas trabalham ali, cada um com sua função.

Fui muito bem recebido por todos. Eram cinco senhoras e dois rapazes, ao início tomamos o café da manhã – que empresa dá café da manhã para os funcionários? Essa é uma das poucas que conheço – ali conversamos um pouco, cada um se apresentou para mim, e elas me deram roupa apropriada para vestir, bem como luvas, botas e algumas instruções. Ficou claro também que muita gente vai até a Associação com grandes promessas, e que por fim, não existe muito o retorno, ou melhor, as promessas nem sempre se cumprem. Eu não quero ser simplesmente mais uma promessa.

Passando o momento, começamos o trabalho, minha primeira tarefa era “limpar uma área”, é a expressão utilizada para dizer da coleta seletiva de uma área delimitada. Fomos à área que iriamos “limpar” e começamos a seleção do material. Ali tinha plástico, vidro, metal, papel, e outros materiais misturados e em desordem. Muita gente leva material para reciclagem mas não o separa. Apesar de todo esse material ser separado pelos catadores, seria bem mais prático, menos trabalhoso e mais lucrativo se o material já fosse separado por quem o produz. Enfim, separamos o material, um trabalho pesado, realizado por senhoras de 30 a 50 e tantos anos de idade, e eu.

A ASCAMPA, infelizmente não consegue reciclar todos os materiais. Funciona assim: os catadores que andam pela cidade e sócios levam até a ASCAMPA o material, os catadores fixos da ASCAMPA selecionam e separam o material. Outra pessoa prensa todo o material selecionado com uma prensa elétrica. Em seguida, esse resíduo é pesado e vendido a uma pessoa que o revende para as indústrias. A ASCAMPA ainda não pode vender seu material direto para as indústrias, pois elas indústrias só compram em média 100 toneladas, ou mais. A ASCAMPA produz atualmente uma média entre 5 a 15 toneladas de cada material. A pessoa que compra da ASCAMPA compra também de outras associações e cooperativas para revender.

Continuando meu trabalho… Como a ASCAMPA, por falta de maquinário não recicla todos os materiais, e por falta de quantidade mínima de material, separávamos ali os materiais que seriam prensados: papeis, plásticos e metais. Os outros materiais separávamos para vender a pequenos comerciantes. Conversando com as senhoras, me diverti, aprendi a usar o facão para cortar para-choques. Tanta coisa que eu jogo no lixo, e que ali reutilizam, não é que eles usam lixo, mas sim que eu jogo no lixo, coisas que não são descartáveis, coisas que iram afetar a natureza.

Depois de duas horas de trabalho, havíamos “limpado a área” e agora o que fazer? – pensei – a resposta veio antes de terminar o pensamento:

– Próxima área de limpar! (Disse uma senhora)

Não me restava escolhas senão segui-la. Minha tarefa desta vez era menos complexa, porque a outra foi difícil, eu não reconhecia bem cada material. Existe uma quantidade muito grande e diferente de plásticos. A tarefa consistia em colocar todos os papelões da área diante da prensadora para prensar, foi nesta tarefa que passei o restante do dia e da tarde. Muitas idas, vindas, agachadas, apanhadas e levadas. Às 12:00 horas, se escuta: “hora do almoço!”. E assim nos direcionamos para o nosso refeitório, um belo barracão. O cheiro de frango assado não escondia a surpresa. Fiz meu prato, acompanhado de um suco de abacaxi, me sentei à sombra de uma árvore. Naquele círculo de amizades que se formou voltamos à conversa, dessa vez foi mais íntima, muitas histórias da vida pessoal, de superação, de luta, batalha, de alegrias, de tristeza, mais que tudo: de perseverança. Por trás vinha algumas frases a respeito da comida, como: “essa comida nem cachorro come, porque não sobra pra ele comer”. Um momento de descontração para todos, é o almoço, além claro, da reabastecida para o trabalho, pois como bem dizia Dona Terezinha “saco vazio não para em pé”.

Na ASCAMPA muitas pessoas levam e deixam ali material que não é possível mais ser reciclável, deixam lixo. As vezes no portão e no muro, então já se tinha a ideia de fazer um cartaz informativo. Eu tinha levado tinta, pensamos algo para escrever. Por fim a frase escolhida foi “Aqui não é lixão; por favor, somente material reciclável!”, pronto, depois de escolhida a frase, nos faltava o pintor, neste caso, sobrou para mim. E já que existe uma primeira vez pra tudo, pedi ajuda e me pus a escrever e pintar. Depois de feita nossa obra prima, deixamos secar e voltamos ao verdadeiro trabalho, o que alimentava cada um ali. A prensadora não parava de trabalhar, os catadores levando papelão e eu me cansando, até que tive uma ideia. Peguei um carrinho de um catador emprestado e começamos todos a encher o carrinho de papelão para depois levar para a máquina, agora podíamos trabalhar melhor, com o nosso querido amigo sol que resolveu não se esconder.

Findado o trabalho me despedi e voltei a minha casa, tomei um banho, e agora aqui estou, escrevendo. Por meio de muita batalha, hoje a ASCAMPA tem um espaço de dois mil metros quadrados, e uma pequena estrutura. Atualmente, a Associação consegue se manter, mas para crescer é necessário a participação de toda a população. É tão fácil separar o material, sempre usamos papel, e sempre deixamos de usá-lo, tomamos sempre algo enlatado, todo esse material para eles são ouro, podemos começar a enxergar isso e tentar amenizar os estragos que temos cometido com a natureza, com o nosso mundo.

Estou feliz, amanhã voltarei a ASCAMPA para o meu segundo turno, ansioso estou para minhas novas tarefas, e aprendizados. Talvez eu não tenha conseguido expressar minha vivência e meus pensamentos por inteiro, entretanto, querido diário, ACONTECEU!

Querido diário, o dia iniciou de uma maneira diferente…

Cheguei às 8:00 horas e muitos já estavam trabalhando. Mesmo assim, meu café da manhã estava lá, pronto a espera. Como de costume, me alimentei, pois “saco vazio não para em pé”, e em seguida fui ao trabalho, tínhamos que “limpar” outra área. Agora a tarefa havia se complicado um pouco mais, já que eu deveria fazer a coleta seletiva de diferentes materiais. Só plástico eram mais de quatro materiais diferentes, havia o plástico branco, o plástico “colorido”, o plástico “bacia”, o plástico “pet”, o plástico “seco” e o plástico “chiado”, esses dois últimos eram dispensados no momento da seleção, e outros quatros eram separados em diferentes “bags” (grandes sacolas plásticas).

Além da separação dos plásticos tínhamos também que separar o papelão, que este era de dois tipos diferentes: o papelão normal e a caixa térmica (caixa de leite e suco de fruta). No meio desse material havia também diferentes metais – como alumínio e ferro –  e papeis, entre eles o papel branco e o papel de revista.

Tenho uma dica para você diário, se quiser aprender a seleção de material reciclável, trabalhe com os catadores, em uma hora, já saberá tudo, pois eles não têm vergonha de ensinar. Eles explicam e repetem o que sabem quantas vezes for preciso. Incrível a generosidade a humildade, é algo espetacular.

Aqueles catadores tinham um olhar experiente para cada material, tentando ao máximo não desperdiçar, pois era dinheiro que iria para o lixo. O que não se aceita na seleção se transforma em lixo. Essa realidade foi um pouco dura para mim, pois entre os materiais que eram descartados havia materiais que com os instrumentos e a capacitação adequada ainda poderiam ser reciclados, como exemplo o isopor, altamente poluente, e que é descartado aos montes. Por falta de instrumentos para a reciclagem, e a capacitação dos catadores – deve haver outros motivos, estes dois creio que são os primeiros.

Difícil de aceitar também foi perceber que o incentivo para a continuação da reciclagem não nasce do cuidado com a natureza, e sim da necessidade de dinheiro. Digo isso pois, o material que é não é considerado reciclável, vai para o aterro, e segue o mesmo destino que seguiria antes da reciclagem, e além do isopor, vai materiais como: pilhas, baterias, produtos químicos, entre outros.

Enquanto eu trabalhava e jogava, via o desprezo com este material prejudicial à natureza. Nascia um pouco de revolta, mas, eu não podia culpá-los por aquele ato, pois eles não tem onde guardar este material, não tem os instrumentos nem a capacitação para reciclá-los, e talvez nem fazem ideia do mal que este material faz indo para aterros.

Os catadores, estão ali, porque precisam estar, ou ainda porque é a melhor oportunidade que têm para manterem suas famílias. Cabe ressaltar que o sentimento de proteção à natureza não é inexistente, pois uma vez que começam a reciclar, percebem a quantidade de coisa que tiram do “lixo”, que deixa de ser “lixo”, são toneladas e toneladas diárias, ali na ASCAMPA não são menos de 5 toneladas diárias prensadas. Com este trabalho, nasce um novo olhar à necessidade da reciclagem para o bem da natureza.

Enquanto separávamos o material, que por sua vez estavam todos misturados em pilhas, chegou um caminhão cheio de papelão, plástico e isopor. Para todos foi uma alegria, pra mim por dois motivos: menos papelão no aterro e mais dinheiro para essas famílias e para a continuação do projeto. Este caminhão era a primeira vez que vinha, era o dono de uma empresa de móveis que disse que “descobriu” a ASCAMPA, antes ele queimava todas aquelas caixas, isopor e plástico, pois não tinha o que fazer. Eu nem tentei imaginar a tamanha agressão feita à natureza todos os dias por tantas pessoas, empresas e instituições que ainda não “descobriram” a ASCAMPA, ou qualquer outra associação ou cooperativa.

Eu subi nesse caminhão e comecei a jogar com alegria todo aquele material para fora, me diverti, não tive reclamações, muito menos atitudes crítica a respeito do meu comportamento (coisa que não estou muito acostumado, por causa do meio que vivo). Ao término deste trabalho, voltamos à seleção, foi mais duas horas até que começou a ficar muito quente, estávamos queimando, então resolvemos parar e seguir com outra atividade na sombra.

Fomos à separação do papel, em baixo de tendas. Livros, cadernos, documentos, pastas, tudo era separado pelo seu material, as capas dos livros eram arrancadas, se separavam as folhas comuns das folhas lisas (de revista), e se tinha espiral tinha um destino diferente. Sentados ali em latas, na sombra, eu me animei mais, comecei a fazer um rápido trabalho, em poucos minutos tinha enchido um saco bem grande, então gritei, “terminei”, as senhoras me olharam espantadas pela rapidez, e começaram a rir, pois eu tinha feito tudo errado, como eu não tinha organizado as folhas estavam todas jogas no saco, ocupando assim muito espaço, dando a impressão que estava cheio, resumindo, eu tive que desfazer e recomeçar todo o processo – foi mais demorado, porém coube muito mais material no mesmo saco.

Enquanto separávamos os papeis, conversamos muito, sobre mitos, que para aquelas senhoras eram a mais pura verdade, o boto, sereias, lobisomen, água Maria, Iara, escutei muitas histórias de cada uma com um desses personagens diferentes, agora me pergunto, “será que isso realmente não existe?”, elas estavam muito certas do que viram, “será que a experiência ainda luta contra a teoria?”. Isso é tema para outra sessão, agora, continuando a separação de papel, opa, “hora do almoço”, que bom, minha barriga já estava gritando de ansiedade a este momento. Que alegria, todos juntos, uma família, que é claro, não deixa de ter seus problemas, a prosa seguiu, a comida acabou, e meu horário fechou.

Referências:

PALMAS. WÉDILA JÁCOME. Aterro Sanitário de Palmas Opera com Segurança e dentro das Normas Ambientais. 2013. Disponível em: <http://www.palmas.to.gov.br/blog_noticias/meio-ambiente/aterro-sanitario-de-palmas-opera-com-seguranca-e-dentro-das-normas-ambientais/10266/>. Acesso em: 17 mar. 2014.

Ruam Pimentel
Acadêmico de Psicologia e voluntário do portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento.
Autor / Co-Autores: