Loucura não aceita

No dia 18 de Maio de 2012, o Portal (EN)CENA Saúde Mental em Movimento promoveu uma intervenção na Praça do Bosque, em Palmas – TO, chamada de “Saúde Mental em Redes”, aproveitando o ensejo da Luta Antimanicomial (comemorada nessa data), e  com o objetivo de provocar uma reflexão acerca do tema Loucura, a ideia central do evento era: “Traga a sua Loucura para a praça”.

Nesse sentido, eu criei um personagem: um mímico, mudo, que utilizava um capacete de melancia. E não se iluda, nesse figurino, nada fora escolhido aleatoriamente.

A verdadeira identidade do meu personagem não foi muito bem entendida por todos. Ele causava, à primeira impressão, certo estranhamento, mas logo era aceito, e pelas mímicas que eu fazia ao tentar me comunicar, as pessoas rapidamente começavam a interagir com o mímico.

Acredito que a aparência de um palhaço, com um capacete de casca de melancia na cabeça, facilitou para a aprovação geral do personagem por todos. Mas, infelizmente, as pessoas presentes no evento se apegaram somente ao estereótipo de palhaço, e preferiram focar nesse aspecto. Esse comportamento não difere muito do que acontece na sociedade atualmente. Acho que todos pensaram que: por eu estar pintado como um palhaço, fazendo mímicas, e com uma melancia na cabeça, eu estava fazendo apenas o que se era proposto pelo evento: levando a minha loucura para a praça.

Minha intenção era ficar em silêncio desde o momento que eu me vestisse como o personagem, e assim permanecer até eu me descaracterizar. Foi o que aconteceu.

No geral, a impressão que tive, foi a de que todos achavam que eu só queria chamar a atenção, afinal, é crença popular de que se você quer ser visto por todos, basta colocar uma melancia da cabeça, e sim, foi o que eu fiz, literamente. Mas, o que ninguém percebeu de fato, é que o meu capacete, além ser feito da casca de uma saborosa melancia, protegia o meu personagem (ou a mim) das ideias (todas essas ideias) que nos são empurradas goela abaixo pela sociedade. Munido do capacete eu poderia transitar tranquilamente pelo evento, sabendo que em minha cabeça fluiriam apenas pensamento genuínos, fruto de meu próprio senso crítico. O capacete de melancia do palhaço era, por assim dizer, uma defesa eficaz contra o controle de terceiros.

Durante o evento ocorreu uma situação engraçada, na qual, uma das pessoas presentes não entendeu a proposta do personagem. Ele estava arrumando o som e era necessário mais um microfone, eu tentei explicar apenas com mímica (o que não deu muito certo), e ele já irritado, disse que era pra eu falar logo o que eu estava tentando mimicar.

Vemos assim o quão difícil é aceitar o jeito de ser do outro, imagine então a dificuldade que é entender a loucura do outro? Estamos muito mais preocupados em sermos nós mesmos, e esperar que os outros ajam como esperamos que eles ajam que, quase sempre, não toleramos o diferente, o inesperado.

Por que parece ser tão difícil entender a “loucura” alheia? A meu ver, essa é uma dificuldade da nossa atual sociedade (sociedade está na qual estamos inseridos), aliás, quase nunca nos atentamos para o fato de que SOMOS essa sociedade em que vivemos, e de que temos sim essa dificuldade. A própria Luta Antimanicomial surge, historicamente, atrelada aos movimentos de Reforma Sanitária que defendiam, entre tantas coisas, que não basta fechar os olhos e negligenciar o problema da loucura, mas que ele deve sim, ser encarado. Parece impossível de acreditar, mas a solução para chegarmos a uma solução pode ser muito mais simples do que imaginamos, e como já dizia Chiara Lubich (Ganhador do Prêmio Unesco pela Paz 1996 e do Prêmio Europeu para os Direitos Humanos 1998): “Podemos recomeçar, esquecer o que aconteceu e ir em frente com uma nova ideia”.

Ruam Pimentel
Acadêmico de Psicologia e voluntário do portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento.
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