Medidas socioeducativas: um discurso moralista

Hoje, após um longo atendimento a um adolescente indignado com a conduta da maior parte dos profissionais da área de disciplina nos Centros de Atendimento Socioeducativo, especialmente onde trabalho, reflexões foram surgindo sobre o sistema socioeducativo imputado aos jovens cujo reconhecimento e prestígio é obtido pelo modo como se relacionam com as leis e regras básicas de convivência com o outro em nossa sociedade.

L. é um jovem de 17 anos. A restrição de liberdade se deu em razão de um sequestro mal sucedido. Reside em uma grande comunidade na cidade de São Paulo. Revólveres, bandidos, drogas, sexo, violência fazem parte do seu dia a dia.

Há nove meses realizo os atendimentos psicológicos, ora individualmente, ora em grupo. Neles, seria mais fácil circunscrever os desejos de L. aos meus: de que a medida socioeducativa serviu como um momento de reflexão e arrependimentos onde pôde se rever enquanto cidadão de direitos e deveres. Bonito, se não fosse inverídico.

L. costuma ser bem-humorado, embora oscilante. Os atendimentos (des)contraídos permitem que seus anseios e desejos sejam colocados sem retaliação. L. gosta de intensidades, ainda que tenha uma vida breve; gosta de luxo, mas não quer se enveredar pelo caminho do trabalho, tampouco dos estudos. Ao mesmo tempo, é divertido, ama sua família e tem flashes de arrependimento por agir de modo tão egoísta. É mais fácil para ele do que para mim.

Há alguns meses tenho pensado nas falhas da medida socioeducativa de internação e o porquê de tantas reincidências (confesso que já prevejo a de L.). Em que pesem os fatores sociais, culturais, econômicos e psicológicos em que os adolescentes estão inseridos, procurei rever meus métodos e os da instituição onde atuo.

É neste momento de auto-avaliação como profissional que o atendimento realizado a L. se insere.  Hoje, ao comentar sobre seu cotidiano, ficou irreconhecivelmente irritado. Inicialmente, desculpou-se comigo, como se não pudesse se permitir a expressão de sentimentos considerados negativos. Ao perceber meu interesse e tranquilidade em escutá-lo, L. prossegue, chega a levantar-se e encenar situações.

A irritação, ironicamente, era com o sistema de justiça aplicado a todos aqueles que cometem crimes: “Por que não somos tratados com respeito aqui dentro”, dizia ele. “Aqui dentro é fácil oprimir… Andar com um rádio no bolso como se fosse um três oitão”, prosseguiu. Em outro momento, observou: “A regra tinha que ser a mesma. Funcionário bateu não dá nada, então a gente tem que poder bater sem dar nada”. Procurei, descrente, asseverar que ninguém estava ali para agir e nem sofrer com violência.

Disse por dizer. Gostaria de garantir a paz pelo qual L., em outras palavras, procurava.

A medida socioeducativa de internação deveria possibilitar que os adolescentes vivenciassem um ambiente menos violento daquele já trazido por eles ao chegar à instituição. De nada adiantam palestras educativas ou grupos temáticos sobre a paz quando somos incapazes de oferecê-lo na prática, no cotidiano institucional. A violência continua sendo uma rotina diária.

L. possivelmente estava irritado porque falhamos todos. Os sermões e discursos moralistas voltados ao “desenvolvimento de sua capacidade crítica e empática” são uma falácia, porque são hipócritas. Não conseguimos provar a ele que é possível conviver sem sermos capturados pelo poder e violência. E é exatamente isso que L. procurava (e, possivelmente, precisava).

Assisto, assim, incólume, chances de um recomeço serem desperdiçadas quase diariamente. A medida socioeducativa de internação deveria ser um momento de reflexão e mudança. Contudo, ao invés disso, tem cronificado e perpetuado posturas pelas quais a instituição, em verdade, deveria combater.

L., desejo que encontre a paz pela qual você não se acostumou a encontrar e que, paradoxalmente, você insiste em procurar. Obrigada pela confiança, sempre.

Psicóloga formada pela Unesp-Assis, trabalha na área de assistência a adolescentes infratores.
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