Por uma Morte suave

“Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.

Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida”

Raul Seixas – Canto para a minha Morte

A morte é um acontecimento envolto de mistérios, dúvidas, medos, angústias… Embora seja um algo que acometerá a todos, as pessoas em geral (em especial na sociedade ocidental) evitam falar sobre o assunto.

A humanidade construiu inúmeros sentidos para a morte ao longo dos séculos, ela pode ser entendida como o fim, como o início de uma nova existência, como um momento de passagem para retornar a vida, como a reconexão com a energia cósmica… enfim, muitas são as crenças a respeito do que significa a morte e do que ocorre após. No entanto, este texto se trata de um relato de experiência e procura produzir alguns questionamentos a respeito não dos que vão, mas dos que ficam, até porque, como nos diz Shakespeare, em Hamlet, não temos como saber o que acontece após a morte, e justamente por isto a mistura de medo e fascínio em torno de tal acontecimento da vida:

“Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte — terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou — que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência.”

Com a morte de alguém há uma série de procedimentos instituídos, que vão desde emissão de documentos (necrópscia, certidão de óbito, boletim de ocorrência, entre outros), e se estendem até o enterro ou cremação. Entre estes procedimentos se encontra o velório, momento público de despedida, reflexão e oração. Isto ocorre de formas singulares no catolicismo, protestantismo, budismo, judaísmo, espiritismo e candomblé – embora neste último o velório ocorra após o enterro.

Este relato descreve situações e sentimentos vividos por este que lhes escreve, na experiência de ter seu corpo preparado para o próprio velório. É preciso deixar claro que não se trata de algo cômico e/ou desrespeito, mas de uma experiência singular que possibilitou a problematização de como encaramos o velório e a própria morte.

Passamos a vida inteira sem falar sobre a morte, vivemos a vida como se fosse para sempre, embora saibamos que chegará a nossa hora, bem como das pessoas que nos rodeiam. Isto promove um desconhecimento que acaba produzindo medo e insegurança, na medida em que não entendemos a morte como parte da vida.

Quando cheguei na Funetins a sensação era de angústia, era como se estivesse lidando com algo que não devia. Cheguei a ouvir o comentário “Cuidado, quem faz isso vai logo depois”, se referindo a eu estar simulando a preparação para o velório. Depois, uma aluna do curso de psicologia do CEULP me disse que o rapaz que prepara os corpos se negou a participar, afirmando que “só preparo os mortos”.

O próprio clima da funerária nos remete a sentimentos desagradáveis, inclusive não sei explicar muito bem o que senti, mas o que posso dizer é que foi desagradável. No entanto, quando entrei no caixão para dar início a ornamentação, senti um aperto no peito e  percebi que as pessoas envolvidas também sentiram o mesmo, começaram a se solidarizar com a situação e passaram a conversar  no sentido de explicar o processo de preparação do corpo e ornamentação.

Fiquei muito surpreso com a delicadeza com que todos demonstraram, explicando que este era um momento muito delicado para os familiares e que por conta disto eles tem muito cuidado com a preparação. Em um determinado momento uma das meninas limpou o meu terno e ao fazer esta ação ela se surpreendeu e disse “eu tô te tratando como se fosse um morto mesmo”, este comentário me causou uma sensação muito estranha, um misto de tristeza e aconchego. Era como se estivesse se me considerando uma pessoa morta, mas com muito respeito e ternura.

Me senti muito apertado e desconfortável no caixão, embora tivessem colocado um tecido embaixo para eu me deitar. Quando iniciaram a ornamentação fiquei pensativo e me dei conta que nunca tinha pensado em como eu gostaria que fosse este momento. Percebi que não quero ser enterrado, mas cremado. Fiquei pensando nas pessoas que me amam sofrendo e se despedindo, enfim, foi um momento difícil… mas importante.

Ao fim da preparação foi comentado que os familiares costumam beijar a testa da pessoa morta, que ficam segurando a mão, alguns gostam de deixar um véu por cima do rosto… Os funcionários da funerária disseram que tudo é preparado de acordo com o desejo da família, pois o objetivo é que seja o “mais de acordo com o que a família espera e necessita neste momento tão difícil”.

Ao final eu já não aguentava mais estar naquela situação, queria sair do caixão, caminhar, conversar, queria provar para mim mesmo que estava vivo.

Ao fim desta experiência fico me perguntando: Por que conversamos tão pouco sobre a morte? Por que as pessoas vivem como se nunca fossem morrer? Por que algumas pessoas passam a viver quanto se aproximam da morte? Como podemos aceitar a inevitabilidade de tal acontecimento? Será que esta forma de lidar com a morte e seus rituais (que persistem por séculos) um dia vão mudar? Espero que em algum momento possamos lidar com a morte e seus rituais de forma mais clara, sem mitos, medo. Obviamente que não sem tristeza, mas com a tranquilidade de quem sabe que um dia chegará a sua vez.

 


Nota: Postagem de sétimo día, desencarne de vida.

Fotos: Samuel Leumas

Jonatha Rospide Nunes
Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal Fluminense, Professor do CEULP e Secretário Geral do CRP/23.