Quando a síndrome de burnout muda os planos de uma professora

Uma colega chegou um dia na escola mostrando um estudo sobre a síndrome de burnout, o qual li mais por curiosidade, sem levar em conta se era científico ou não, e com o mesmo sentimento que se tem quando se lê o horóscopo. Fiz um comparativo do meu comportamento com os sintomas descritos e percebi, da mesma forma que percebo quando leio sobre o signo de leão, que muita coisa ali se referia a mim. E daí? Nada, continuar a fazer o trabalho de sempre, pois já havia batido o sinal e iria me atrasar.

Quando não convivia com a síndrome de burnout, como quase a totalidade dos seres humanos, os minutos, dias, semanas, meses e anos não tinham tempo definido como os matemáticos teimam em insistir. Eram momentos melhores ou piores, acontecimentos trágicos, dramáticos ou cômicos, como os teatrólogos descrevem. Eram saltos, giros, passos, como bem praticam os bailarinos. Eram notas breves ou colcheias como só os músicos entendem. Eram quadros de Miró, ora Kandinsky, Van Gogh, mas na maioria da vezes Leonardo e quase nunca Mondrian. À noite, invariavelmente, Dali.

E assim se passava minha vida… Eu nem sabia, não percebia, não pensava nela. Os altos e baixos, os cheios e vazios faziam dela o que eu pensava que era ela.

Eu seguia pintando, cantando, dançando a vida da forma mais bonita, gostosa, limpa e criativa que pudesse.

Muitos, Freud explica. Mas eu, sempre Veríssimo.

Um dia me vi com a péssima sensação de sentir cada segundo de cada minuto, cada minuto de cada hora, cada hora do dia e da noite, cada semana, mês, até ter se passado um ano.

Foi no ano de 2010, em que cada minuto teve sessenta segundos e o meu mundo caiu.

Começaram os pesadelos acordada e dormindo. Coincidentemente minha última aula foi sobre a diferença de sonhar acordado e de sonhar dormindo. Exemplifiquei com o discurso  “I have a dream” do Luther King e os quadros de Salvador Dali, passando pela psicanálise de Freud.

Todos os outros 28 anos começaram na escola da mesma forma, (que falta de criatividade), com a semana pedagógica que nos primeiros anos era no final de fevereiro e hoje é no começo. Naqueles anos eram 180 dias letivos e hoje são 200. Antes eram discussões para melhorar o ensino, hoje são massacres com leituras de textos que alguém tirou xerox e mandou a gente ler. São broncas, chamadas de atenção e pressões de vários tipos.

Até 2008, as palavras que me descreviam eram alegria, simpatia, satisfação, entusiasmo, saúde com poucos momentos em que tudo estava às avessas e todo mundo estranhava, geralmente TPM.

Aos poucos fui me transformando em uma pessoa amarga, insatisfeita, cansada, desanimada, que era dona de um caderninho cheio de anotações de minutos e horas que faltavam para ir para casa e sossegar. Comecei a brigar e fazer desaforos para quem passasse pelo meu caminho, a ter preguiça. Eu sofri várias desilusões com os alunos, fiquei inconformada com seus novos e terríveis comportamentos.

Perdi a fé no meu trabalho.

Íria Mara De Marco Silva
Formada em Educação Física pela UFPR, Formada em Música pela FAP, Pós graduada em Psicopedagogia pela UNINTER, Professora aposentada por invalidez desde julho de 2012.
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