Somos tão iguais nos nossos inícios

Geralmente as pessoas tornam o seu primeiro dia de estágio ou trabalho em um serviço de saúde mental como algo marcante por ter que lidar com inúmeras demandas que dizem respeito às diferenças. Mas não irei relatar o meu primeiro dia, pois neste, tive apenas que lidar com o clima triste e pesado que o serviço trazia, no entanto, fui bem recebida pelos usuários e profissionais. Desta maneira irei relatar o meu segundo dia de estagio em Psicologia e Processos de Promoção e Prevenção em Saúde, ocorrido no primeiro semestre do ano de 2012.

Em uma manhã ensolarada e que acontecia oficina de beleza do CAPS II, onde alguns usuários participavam da oficina, outros ficavam apenas sentados nas cadeiras olhando a vida passar, os profissionais circulavam de um lado para outro, eu chegava neste ambiente, sem saber o que fazer com muita clareza. Eu não sabia se me inseria na oficina de beleza e assim experimentaria da psicologia por meio das relações com os usuários, ou ainda, se iria fazer acolhimento ou a escuta de alguém. No momento, não tinha como retirar a minha dúvida, ou, ao menos não tive coragem para interromper a correria das psicólogas. Então, fiquei por alguns minutos olhando o que acontecia naquele ambiente e pensava em estratégias a fim de me aproximar dos usuários.

Até que em virtude de um crachá que informava ser estagiaria de Psicologia, uma das usuárias que estava observando o lento caminhar da vida, Cláudia1, solicitou que eu conversasse com ela. Eu me surpreendi com este pedido, já que poucos dos usuários que ali estavam, conheciam-me. E como uma usuária que nunca havia me visto gostaria de conversar comigo?

Apesar da surpresa, perguntei se ela gostaria de falar ali mesmo ou gostaria de ir para algum lugar mais reservado. Cláudia quis ir para algum lugar que pudesse ficar sozinha. Eu fiquei ansiosa, pois não sabia se daria conta daquilo que ela poderia vir a falar e qual o motivo de querer falar exatamente comigo. Mas também me sentia feliz que alguém por algum motivo (que eu não sabia qual) tenha confiado em mim. Assim, apresentei-me e quis saber o que ela desejava falar. Cláudia, então, perguntou-me o que era depressão.

Pronunciar os sintomas desta patologia foi fácil! Mas esta facilidade me preocupava a principio, por não saber como descrever os sintomas e qual o real sentido desta questão. Enfim, não poderia descarregar a minha explicação baseada em termos técnicos, tais como: hiposonia, anedonia… Além disto, tinha medo de evocar pseudosintomas na usuária.

Eu relatei alguns sintomas através de uma linguagem popular, a partir disto ela relatou as suas intenções homicidas e suicidas, relações familiares e religiosas. No final da escuta, fizemos um contrato a fim de estabelecermos algumas estratégias para lidar com o seu sofrimento e que a morte, seja a dela ou de outras pessoas, não fosse a primeira possibilidade de como solucionar os seus conflitos.

Entretanto, algo me incomodou mais do que as minhas inseguranças de como me portar, ou ainda, de como aplicar os conhecimentos adquiridos na graduação em Psicologia: a forma que falei com a Cláudia. Certamente, existiram outras coisas que me inquietaram nesta escuta, mas gostaria de trazer aqui a maneira que me comuniquei. Eu falava com uma mulher de seus trinta e poucos anos como eu conversava com uma criança. E por mais, que eu percebesse isto no momento da escuta e tentasse falar de forma diferente, eu voltava a falar com uma linguagem infantilizada.

Esta maneira de me comunicar com a usuária vai de encontro com aquilo que Thomas Szasz diz: “[…] no âmago de minha critica moral e política está a distinção entre referir-se a pessoas crescidas como adultos responsáveis e como pessoas insanas e irresponsáveis (quase crianças ou idiotas)- o primeiro tendo vontade própria, ao último faltando este atributo moral porque “sofreria” de doença mental” (1996, p.12-13). Além da minha prática se aproximar da crítica de Szasz, ela ainda influenciava na produção de subjetividade da Cláudia como uma forma de ser criança, infantil.

Há 40 anos têm acontecido lutas no Brasil para que o conceito de loucura, as práticas de cuidado para com os portadores de sofrimento psíquico mudem. Há 12 anos a promulgação da Lei Paulo Delgado estabeleceu uma nova política que tem como base o modo psicossocial (TENÓRIO, 2001). O tempo passou e ainda ocorrem oscilações entre os modos asilar e psicossocial, como defendido por Costa-Rosa (2000), principalmente no que tange às maneiras de cuidar. Diante das minhas experiências no campo de estágio, percebo que não são apenas as práticas que continuam oscilando, mas também os sentimentos e percepções em relação ao louco e a loucura.

Coloco isto, pois tenho desconfiado que a maneira que utilizei para comunicar-me com Cláudia são reafirmada socialmente. Visto que na fala dos usuários tem estado presente a preferência por desenhos e músicas infantis, voz com tom de vitima, as suas crenças são apresentadas com preposições fragilizadas, pensamento indutivo e defendidos com a certeza absoluta de quando a professora e/ou a mãe ensinaram algo a uma criança. Sendo assim, hipotetizo que estas expressões são afirmadas em outras relações, as quais ganham força na manutenção desta maneira de ser infantilizada. Desta forma, compreendo que este fenômeno é maior do que a minha própria prática, no sentido de que não bastaria apenas eu tratá-la como adulta. Porque, o que tenho sentido e feito é simplesmente dado continuidade a práticas asilares produzidas pelas famílias, amigos, enfim, a sociedade.

No fim da história, eu apresentava dificuldade de tratar os usuários como adultos e responsáveis, mas também, os usuários agiam como crianças. Essas relações, a minha com os usuários, se retroagiam, fortalecendo esta percepção infantilizada dos seres humanos portadores de sofrimento psíquico.

Logo, a alteração das práticas em Saúde Mental não deve ser discutida somente nos serviços, porém também na sociedade. Entendo que os profissionais já têm saído das quatro paredes dos dispositivos e parado nos núcleos familiares, e elas devem continuar sendo estendidas aos outros grupos sociais participados pelos usuários. Pois assim, estaremos reinseridos socialmente e modificando o espaço interno e externo habitado por nós.

Se caso continuarmos efetivando práticas individualistas, tenderemos a manter o modo asilar entre nós. Além de pouco evoluirmos na maneira de cuidar e enxergar estes seres humanos.

Quando finalizei este dia, dei-me conta do quanto éramos parecidas, estávamos todas começando a dar os primeiros passos e tínhamos que lidar com a insegurança do novo, nos arriscar e, às vezes, nos assustar como crianças indefesas com todo o processo que nos circundava. Mas continuarei a amadurecer, a fortalecer meus afetos e percepções…

Nota:

1O nome Cláudia é o nome fictício de uma usuária do serviço de Saúde Mental.

Referências:

COSTA-ROSA, Abílio da. O Modo Psicossocial: Um Paradigma das Práticas Substitutivas ao Modo Asilar In: AMARANTE, Paulo Org.. Ensaios-subjetividade, saúde mental e sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2000. p.141-68

SZASZ, T. O Mito da Doença Mental. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

TENÓRIO, F.: A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceito. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 9 (1): 25-59, jan.-abr. 2002.

Mariana Miranda
Psicóloga, especializada em Gestão de Pessoas pela UFT. Membro do Conselho Regional de Psicologia - 23ª Região.