Terapeuta da fala no universo do autismo infantil

Nota: O (En)Cena manteve o texto em sua escrita orginal no português de Portugal.

“Trabalhar com pessoas “deficientes”, em especial com crianças, pode parecer deprimente para alguns e despertar sentimentos de pena em outros. No entanto, quando se sonha com um mundo melhor para elas, o que premeia o trabalho não são sentimentos de depressão ou pena, mas sim a certeza de que é possível construir algo maior e mais digno para essas pessoas.” (Blascovi – Assis, 1997, pp.14)

Sou Fonoaudióloga (Terapeuta da Fala é a designação em Portugal) há cinco anos e cada vez mais estou certa que escolhi a profissão que me completa, pois o prazer de, todos os dias, ir rumo a mais um dia de trabalho para poder ajudar e fazer por estas pessoas “diferentes” algo mais, não tem tamanho. A evolução é mínima, cada passo a dar é trabalhoso, mas nada nos enche mais a alma quando juntos conseguimos que esse passo seja dado.

Trabalho com crianças que são detentoras das mais diversas patologias, mas hoje vou apenas abordar uma delas, o autismo.

O Autismo é uma perturbação severa do desenvolvimento onde se encontram afectadas diversas áreas tais como a interacção e comunicação social, a linguagem, a cognição, o desenvolvimento sensório-motor. É também caracterizada por interesses, actividades e comportamentos estereotipados.

A minha intervenção se centra na área da Linguagem, Comunicação, Interacção Social e Cognição. Embora todas as minhas crianças tenham um pouco de cada uma das características citadas, mais do que autistas, elas são pessoas com personalidades diferentes, com gostos e interesses diferentes e é necessário, primeiro do que tudo, tentarmos chegar até elas, criar relação, para que nos deixem entrar no seu mundo. Depois dessa conquista de “confiança”, a intervenção se torna mais fácil.

Cerca de metade das minhas crianças não conseguiu, ainda, desenvolver a fala. O seu défice cognitivo é severo e, assim, a intervenção no que concerne à Linguagem e Comunicação é muito primária. Por exemplo, é trabalhado o contacto ocular, tão difícil para estas crianças, pois sentem o seu mundo invadido quando olham nos olhos (não se costuma dizer que os olhos são as janelas da alma?), a “noção de dar” quando lhes pedimos alguma coisa, o fazer pedidos e comunicar as suas necessidades básicas com gestos e também a autonomia na higiene, alimentação, no vestir e despir, para que consigam, cada vez mais, atingir uma maior funcionalidade e independência no seu dia-a-dia.

Embora uma grande percentagem das crianças autistas nunca consiga desenvolver a fala, outras nos surpreendem mesmo que seja muito tardiamente. Felizmente tive o prazer de partilhar desta grande alegria com um menino meu que, há uns meses atrás, começou a dizer as primeiras palavras. O Francisco (nome fictício) tem dez anos e, durante cinco anos, desde que estou com ele, sempre tentei ao máximo que ele desenvolvesse a fala e a frustração me invadia quando percebia que esse caminho era tão complicado. Cinco anos depois, oiço ele dizer as primeiras palavras e não há nada no Mundo que consiga superar tamanha alegria. O exemplo dele, como de tantos outros meninos que tenho, me ensinam que nunca se deve desistir porque nunca é tarde demais. Cada criança tem o seu ritmo e nós, profissionais, temos que ter a “paciência” de saber esperar com eles e por eles.

Nos casos em que há desenvolvimento da linguagem, normalmente esta é repetitiva, apresentando ecolalia (repetição de palavras ou frases que pode acontecer de forma imediata, em que repetem o que você fala ou de forma tardia quando repetem informações ouvidas anteriormente utilizando-as num contexto desadequado). O vocabulário é reduzido e, normalmente, muito vago e com erros de articulação. Crianças autistas têm dificuldades em compreender as regras do sistema linguístico e em utilizar a fala de forma funcional para comunicar e interagir com os outros. Têm, por exemplo, dificuldades em perceber e fazer perguntas, fazer pedidos, em entender a ironia, o que é abstracto.

Tratar a ecolalia é bastante difícil. Vou dar um exemplo de um dos meus meninos. O Afonso (nome fictício) começou a ser acompanhado por mim há quatro anos atrás e tudo o que ele fazia era repetir o que as pessoas diziam. Tinha uma ecolalia imediata muito severa. Tudo o que eu perguntava, falava com ele, automaticamente ele repetia. Ele desenvolveu a fala sim…mas uma fala sem qualquer funcionalidade. Ele não conseguia fazer pedidos, perguntas, manter um diálogo, uma conversa espontânea. Apenas sabia repetir. Começamos devagar, através de um caderninho de imagens que eu fiz para ele. Nesse caderno tinha imagens organizadas por áreas como, por exemplo, imagens do quotidiano dele, alimentação, imagens para fazer pedidos como pedir para ir ao wc, pedir para jogar computador etc. Inicialmente, apenas queria que ele aprendesse a dizer Sim/Não de forma espontânea quando lhe era feita uma pergunta. E, a partir daí, fui sempre aumentando o grau de dificuldade. O Afonso começou a utilizar as imagens para comunicar. Quando queria algo, pegava no caderno e mostrava para a pessoa apontando a imagem e dizendo o nome. Depois passamos para a construção de frases, também com imagens, e ele começou a conseguir produzir frases simples e, assim, sucessivamente. Aos poucos fui tirando essa “muleta” que era o caderno e hoje em dia o Afonso já consegue comunicar perfeitamente, manter uma conversa, sem repetir o que o outro diz. A ajuda dos nossos colegas de equipa, das famílias, dos professores, de todas as pessoas que fazem parte da vida da criança, é muito importante, pois esse trabalho, como todos os outros, tem que ser feito diariamente e em todos os contextos para que tenha sucesso.

Durante a Faculdade, ensinaram-me técnicas para trabalhar a Linguagem, Comunicação, Fala e Cognição com as crianças autistas. Ensinaram-me estratégias e a desenvolver actividades e jogos que as ajudem a ultrapassar as dificuldades que apresentam. Mas, na faculdade, ninguém me ensinou a relacionar-me com elas. Ninguém me ensinou a conseguir abrir uma janela que me deixasse entrar no mundo que elas tanto desejam deixar longe de todos. Ninguém me ensinou a lidar com a frustração quando não consigo que elas evoluam e a tentar descobrir novos caminhos para que o façam. E, não menos importante, ninguém me ensinou a sonhar com elas para juntos alcançarmos cada vez mais. Porque tudo isto não se ensina, sente-se…e sem isto tudo, as técnicas e estratégias são em vão.

Terapeuta da Fala ( Fonoaudióloga ) na instituição APPACDM de Setúbal ( Portugal ).
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