Um ano de Psicologia Social Comunitária: comemorações e reflexões

Ao completar um ano de atuação como psicóloga do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) neste mês de agosto, reflito sobre o trabalho do psicólogo nas políticas públicas, em especial, no SUAS (Sistema Único de Assistência Social). Meu ingresso na política de Assistência Social não foi uma mera coincidência,  visto que os psicólogos estão atuando cada vez mais em políticas públicas (BOTARELLI, 2008).

Embora minha formação tenha buscado ser o mais generalista possível, ela não me ofereceu uma boa compreensão sobre a atuação do psicólogo no SUAS. Isto fez com que eu tivesse que absorver muita informação em um curto período de tempo, já que diversas demandas chegavam a todo tempo, e havia a necessidade de dar uma resposta a elas. As publicações do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e as Referências Técnicas do Conselho Federal de Psicologia (CFP) foram minhas principais fontes de consulta no início. No entanto, posteriormente percebi que, ainda que elas trouxessem diversas orientações, não explicitavam com clareza uma metodologia de trabalho.

Deste modo, recorri a colegas de profissão, grupos de estudo, e a um congresso de Psicologia. Percebi que existem diversas Psicologias Sociais Comunitárias. Algumas mais ligadas ao trabalho com famílias e grupos. E outras mais voltadas a comunidade e ao desenvolvimento social. Ainda não sei por qual delas estou enveredando.

Para além das questões cognitivas, existem ainda as emoções e a saúde mental no trabalho, pois um profissional é um ser global. No início, a estranheza foi grande com o público, bem diferente daquele com quem eu estava acostumada a conviver nos meus diferentes espaços sociais. Uma classe social bem diferente da minha, com sua própria ideologia, cultura, e modo de existência. Foi um trabalho árduo de me despir de meus conceitos e pré-conceitos, para, numa atitude dialógica, construir junto, sem uma atitude de superioridade ou pretensão.

Descobri, entretanto, que outros também tinham chegado a essa conclusão e estavam buscando soluções para elas. Costa (1989), Boltanski (1989) e outros autores, falam sobre as peculiaridades da clientela atendida nas unidades governamentais. A maioria da população que busca o atendimento na rede pública é constituída por pessoas inseridas num universo sócio-cultural diferente daquele vivido por quem os atende. O que implica que, se dando conta disso, o profissional adote uma postura de valorização da diversidade.

Hoje, soprando as velinhas do bolo, percebo que muito ainda há por fazer. Encontrar um ponto de contato entre o que exige o MDS e as premissas da Psicologia Comunitária, de forma coletiva. A construção do conhecimento não pode ser solitária. Busco espaços de trocas de experiências e participações múltiplas, para, junto com os demais psicólogos do estado, que também buscam saber o que fazer, construir uma Psicologia Social Comunitária. Entre as tantas que já existem, talvez uma com tempero tocantinense.

Referências:

BOTARELLI, A. (2008). O psicólogo nas políticas de proteção social:uma análise dos sentidos e da práxis. Tese de Doutorado, Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de, São Paulo, São Paulo.

BOLTANSKY,L., 1989. As Classes Sociais e o Corpo. 3.ed., Rio de Janeiro: Graal.

COSTA,J.F., 1989. Psicanálise e Contexto Cultural. Imaginário Psicanalítico,Grupos e Psicoterapias. 2. ed., Rio de Janeiro: Campus.

 

Hareli Fernanda Garcia Cecchin
Graduação em Psicologia pelo Centro Universitário Luterano de Palmas (CEULP/Ulbra). Pós-graduanda em Gestão Pública e mestranda em Desenvolvimento Regional, ambos pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Atua como psicóloga na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Membro suplente do Conselho Regional de Psicologia do Tocantins (CRP 23) e coordenadora da Comissão de Psicologia na Política de Assistência Social no referido conselho.
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