Uma anatomia da depressão

A minha terapia cognitiva comportamental não deu os frutos que eu esperava. Novamente me abasteci de raiva de todas as terapias, e decidi que sozinho iria encontrar um modo me livrar, ou no mínimo acalmar, aquela doença.

De fato não havia um modo de se livrar, eu teria que aprender a viver com isso. A depressão é uma doença como outra qualquer, deve ser tratada e controlada. Eu teria que aprender a respeitar meus limites, respeitar meu corpo e mais do que qualquer um, eu teria que ter paciência comigo mesmo. No estado depressivo encontramos uma angustia grande, seguida da ansiedade por não conseguirmos melhorar logo, fazendo uma hora em crise depressiva parecer durar por anos.

Minha vida foi se estabelecendo devagar novamente, eu aprendi a me socializar mais e logo quando há uma melhora a sensação é tão boa e agradável que faz parecer que o estado depressivo havia acabado há muito tempo que você já nem se lembra mais.

Foram tantas horas sentado no chuveiro a noite, sentido dores imaginarias e agora, tudo estava bem. Para atingir essa ponderação, a primeira coisa é aprender a se equilibrar, admitir a doença e como já disse, seu limite.

Comecei a me exercitar a princípio, diferente das outras pessoas, a satisfação do exercício aeróbico não era constante em mim, mas felizmente a autoestima sempre ganha pontos com exercícios.

Reparei que sensação de prazer é mais comum é pessoas com depressão leve e nenhuma depressão, não entendi o porquê em pessoas com depressão severa os resultados permaneciam insatisfatórios.

Mas nada que o outro efeito da autoestima não possa dar uma ajudada, ver sua barriga judiada pelos sais de lítio que reteve água por anos desaparecendo aos poucos, ajuda qualquer um.

O primeiro método prático que me aliviou sem sombra de dúvidas foi este citado acima, não da maneira como eu achei que fosse, mas com seus outros efeitos. Posteriormente a alimentação saudável.

Substitui todo alimento cheio de condimentos, carnes pesadas, massas e refrigerantes por uma alimentação mais saudável e de resposta rápida, como castanhas-do-pará que são ricas em selênio, iogurte desnatado que é uma ótima fonte de cálcio que combate a tensão, abacate que reduz a ansiedade, além de ser fonte de vitamina B6.

Obviamente, a minha nova dieta não se baseia só nisso, são apenas exemplos que em 15 dias se mostraram bem mais promissores.

Reduzi o uso de bebida alcoólica, não por completo, mas o suficiente para não obter o famoso “dia azul”, que vem de maneira esperada após o uso excessivo de álcool, onde o sistema nervoso central é gravemente abalado deixando o indivíduo em estado depressivo.

Em alguns meses, eu já conseguia sair de casa ao ponto que não me sentia mais aflito e fosse atacado por uma onda de sudorese proporcionada pelo pânico. Isso antes já havia me prejudicado de maneira indescritível, ao ponto que dar uma volta no centro da minha pequena cidade, se transformasse em uma tarefa árdua e aterradora.

Sempre mantendo em mente que eu deveria “respeitar meus limites”.

Fonte: Google Imagens

Passei a evitar situações onde haviam muita tensão, parei de advogar e fui trabalhar com minha mãe, era bem mais calmo e ela sempre respeitava minha indisposição não pressionando para que eu realizasse algo contra minha vontade, porém eu temia que isso virasse vício, o que ainda bem, não ocorreu.

Sair da cama é uma tarefa gigante na depressão, voltar ao trabalho é digno de troféu, eu estava criando satisfação em coisas pequenas.

O próximo método impulsionador veio de noites de reflexão e consiste em três coisas, três exercícios que desenvolvi para me controlar (não por completo): meditação, aceitação e o exercício da terceira pessoa.

A meditação se demonstra muito promissora na depressão, quando digo meditar não me refiro ao significado literal que remete a monges budistas, mas sim a simples orações, podendo ser de maneira religiosa ou não, falar com si mesmo é um trabalho espetacular. Quem melhor do que nós mesmos para nos entender? Eu particularmente não conheço ninguém que tenha algum problema e não precise conversar, mas quando o fazemos, jogamos para a outra pessoa avaliar ou julgar nossos obstáculos, gerando um vínculo vicioso de pressão. Então fale com você mesmo, sente-se, pense no que você gostaria de estar fazendo, pense na sua vida, pense no mundo ao seu redor se movimentando e em como nossos problemas são realmente tão pequenos para dedicarmos tanto tempo a eles.

Encontrei em pequenas orações um certo alivio que não consigo de maneira clara ainda descrever.

A aceitação, é sem sombra de dúvida um passo complicado, a maior parte das infelicidades vem das frustrações, sejam elas corriqueira sou não. Não conseguimos atingir nossos objetivos e passamos a nos culpar por isso, as vezes nem tentamos novamente. Deixamos a mercê do destino nossa raiva. A frustração devora pessoas e caminhos. Se não conseguimos, nos julgamos, nos enterramos e pronto.

Arte: Kyle Thompson

Não digo que devemos aceitar as coisas ruins que nos acontecem, mas devemos nos aceitar, aceitar aquilo que somos e entender como funcionamos. O passo principal é aceitar mesmo a doença e a ajuda. Reconheça que você não é como as outras pessoas, e isso não é ruim, quase todas as grandes mentes brilhantes, artistas e cientistas, eram depressivos. Então aceite o que você é e utilize isso a seu favor.

O exercício da terceira pessoa foi de longe o que mais barrou meus impulsos ansiosos. Sempre vivi em estágios de ansiedade tão amplos que era impossível dormir à noite bem, sempre ficava imaginando o que aconteceria amanhã e sempre na expectativa de acontecer algo ruim. A mente ansiosa é dotada de uma imaginação fértil, especificamente se for para pensamentos inúteis e malévolos. Saber controlar é um desafio complicado.

Quando eu estava muito ansioso, não tolerava conversas inacabadas, por exemplo: você não podia chegar e dizer “Pablo, tenho algo para te dizer, te digo depois”.

Isso era sinônimo de “você não dormirá esta noite”.

Aposto que muita gente ao ler isso vai simpatizar por já ter passado por isso, e aposto também que esperavam algo ruim. Bem, isso é o lado imaginativo inútil e malévolo da mente ansiosa.

O exercício da terceira pessoa foi uma experiência onde eu me colocava sob a visão do mais próximo e tentava ver como a mesma pessoa me via. Se eu estava perto de algum amigo, e fosse tomado por um súbito anseio, eu imaginava como meu amigo viria tal situação se fosse com ele e como ele veria se realmente estivesse acontecendo comigo. Quando fazemos isso vemos que nossos problemas são pequenos e que são completamente coisas da nossa cabeça.

A maior parte das pessoas não ansiosas não levam para frente coisas pequenas assim, ver todos os seus problemas como uma terceira pessoa ajuda muito na ponderação e avaliação da realidade, o maior bem por trás disso é que isso é uma avaliação realizada por você mesmo, que anteriormente era incapaz de fazê-la.

Pablo Murad
Advogado formado pela Unifenas - Alfenas MG, especialista em Direito de Família e Tributário. e-mail’s para contato: pblmrd@gmail.com e pablo@pablomurad.com