Uma anatomia do ódio

Como disse anteriormente, houve o funeral do meu primo, um funeral ao qual eu tive meu primeiro e único colapso nervoso público. Haviam tantos sentimentos perturbadores dentro de mim, que naquele lugar eu era o que mais gritava, o que mais chorava. Ainda tento analisar de uma forma menos parcial o que me aconteceu naquele dia. Estava eu tentando chamar atenção? Chamar atenção para o meu problema?

Os dias na faculdade de Alfenas estavam se tornando tenebrosos. Havia voltado para São Lourenço, para estudar na faculdade local. Pois meus problemas com a depressão haviam se tornado mais peculiares. Toda essa mudança gerou uma grande frustração, uma vez que se eu tivesse concluído o curso na faculdade de Alfenas, eu poderia ter tido grandes oportunidades em São Paulo. Pensamentos sobre a garota que eu deveria ter me casado voltavam a tomar minha mente de uma forma sombria e eu tinha a ideia que deveria guardar dinheiro para poder vê-la. O que não aconteceu.

Voltar para São Lourenço foi de longe a pior das minhas escolhas.

Com vergonha pela minha escolha errada, eu decidi criar uma segunda versão da minha história, para justificar meu fracasso como pessoa. Dizia a todos que eu estava muito envolvido com álcool e que precisava me tratar, por isso voltei para a minha cidade natal.

Sonhos abomináveis eram os donos de meu sono. Terror noturno. Desejo de estar morto. Esses eram os novos sintomas dessa temporada. A noite que deveria ser meu único momento de paz, passou a ser assombrada por sentimentos negativos. Eu não tinha mais paz, evitava dormir para não ter que acordar. Evitava dormir para não sonhar.

Na faculdade nova, haviam vários olhos curiosos sobre mim. São Lourenço é uma cidade pequena. E como em toda cidade pequena a curiosidade é algo muito frequente. Todos me questionavam do porque eu havia voltado. Eu sempre sorria e entregava a segunda versão, com medo de ser crucificado por ter amado. O amor, o mais belo sentimento, o sentimento da união perfeita entre Deus e o homem, havia se tornado um motivo de vergonha e desprezo para mim.

Envolvi-me novamente com grupos ligeiramente misantrópicos, encontrei comunidades virtuais que adoravam publicar, identificar e constatar óbitos de pessoas estranhas. Meu maior e único prazer era fruto da estranheza e da desgraça. Era um reflexo de como eu me sentia perturbado por dentro.

Eu comecei a ficar doente frequentemente, e então descobri o transtorno obsessivo compulsivo que iria reinar sobre minha vida: Eu tinha TOC com doença.

Virei um fã de carteirinha de convênios de saúde, de laboratórios de coleta de sangue e hospitais. No início, ao desenvolver meu TOC, eu sofria calado. Achava que estava com meningite, AIDS, tuberculose e câncer. Passava horas pesquisando os sintomas e meu corpo passava por um período de psicossomatização. Toda semana eu estava morrendo, eu iria morrer. Não havia paz.

Jamais me livrei desse Transtorno, apenas evito os gatilhos que me levam a ele.

Certa vez – um fato curioso -, eu dei dinheiro a um sem teto que clamava ter AIDS. Achei que havia sido contaminado. Acredite se quiser, até a contagem dos meus leucócitos diminuíram.

Eu tinha fé sem fato.

Eu não conseguia mais ter relações sexuais normais sem achar que seria contaminado, na minha cabeça o HIV poderia ser transmitido pelo ar.

De três em três meses eu estava lá, presente, sentadinho no laboratório de coleta de sangue e mesmo quando recebia os exames, todos negativados, eu ainda achava que algo poderia ter dado errado e o exame me mostrara um falso negativo.

Naquela altura, eu só saia de casa para ir para a faculdade. Não conseguia mais frequentar academia. Eu evitava aparecer em qualquer lugar que fosse. Não queria ser visto, nem tocado. Eu estava conhecendo a agorafobia.

O terceiro psiquiatra me diagnosticou com depressão maior e transtorno de ansiedade generalizada. Um decorrente do outro. A medicação foi risperidona® com venlafaxina (e eu sempre dava um jeito de conseguir mais receitas azuis para meu ansiolítico para sustentar o vício).

Eu não conseguia mais sair da cama, permanecia inerte, assistindo filmes de terror o dia todo, sem disposição.

Comecei a ganhar muito peso, em mais ou menos um ano, ganhei 30 quilos. Isso me afetou diretamente e contribuiu para que eu não quisesse mesmo sair de casa. Fiquei isolado. Aquilo não era tão ruim. O isolamento até me fazia bem.

Obtive uma onda de criatividade, onde eu desenhava, pintava e escrevia muito.

Pablo Murad
Advogado formado pela Unifenas - Alfenas MG, especialista em Direito de Família e Tributário. e-mail’s para contato: pblmrd@gmail.com e pablo@pablomurad.com
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