Vivenciando a Saúde Mental

“Saúde mental é poder amar e trabalhar;
amar no sentido incondicional que o verbo exige
e trabalhar no sentido de criar, sendo ao mesmo tempo
útil e produtivo.”
(Freud)

A minha ideia aqui, é relatar um pouquinho o que o campo da Saúde Mental produziu em mim quando comecei a ter contato com isso, em um estágio acadêmico do 5° ano de Psicologia, realizado em um CAPS III, no interior de São Paulo.

Iniciei minhas idas ao campo no final do mês de Março de 2012, a princípio era muito difícil estar ali, pois eu ainda não me sentia integrada naquela instituição e não tinha conhecimento de seu funcionamento, da equipe em geral e dos usuários. Apesar de eu me interessar muito pela Saúde Mental e ter desejado durante tempos participar deste projeto de estágio, o novo, o inusitado, me preencheu de medos e expectativas.

A partir das sensações que vivenciei na entrada do estágio – estágio não apenas na ideia de “estagiar” em determinada instituição, mas na perspectiva de que eu estava iniciando uma nova fase, carregando algo em mãos, e deveria aprender lidar com o imprevisto – eu pude enxergar, ou melhor, sentir que tudo estava sendo diferente do que eu imaginei que poderia ser. Então, eu abri meus poros para o contato a quem necessitava de amparo, abandonei a ideia de que ali o louco poderia ser um objeto para o meu benefício de aprendizagem acadêmica e o encarei enquanto pessoa, e pensando em práticas de cuidado.

Foi me ficando claro que conviver com a Loucura é uma experiência singular, que nos capacita confrontar com as nossas próprias experiências da loucura. Se impedirmos que o outro fale sobre sua verdade, impedimos ainda que nossa escuta se exerça a partir do lugar de sujeito que somos. Sobre isto, Cruz (1992, p.19) discorre:

[…] Reconhecer que o “doente mental” é um sujeito que deseja e que “sabe” sobre a verdade de seu desejo e de seu sofrimento, saber possível numa relação de fala/escuta que possa produzir novos sentidos para sua historia, que possa criar novos caminhos em seu circuito pulsional, novos territórios existenciais, reconhecer isto é renunciar à onipotência, ainda que ilusória, do lugar do provedor, do são, daquele que sabe. Mas antes de mais nada, é se confrontar com a própria condição de sujeito cindido, de sujeito confrontado tragicamente com suas próprias experiências da loucura.

Cabe mencionar que conversar com alguém que está “dissociado” pode ser muito interessante e muito complicado, não se pode pensar que não existe sentido em frases que parecem ser sem sentido, às vezes esse sentido vem codificado, está além do campo de significados. O que me remete a uma frase de Oury em “Itinerários de formação” a qual diz que “a pessoa, mesmo dissociada, permanece uma pessoa com seu próprio nome. Temos sempre assunto para qualquer um que tem um nome”.

Conforme a frequência no estágio foi aumentando, fui conseguindo me sentir menos insegura, e sempre busquei me manter próxima dos usuários, oferecendo minha escuta, já que não era difícil de notar que essas pessoas em sofrimento psíquico apresentavam uma enorme necessidade de falar.

Será somente numa relação de fala/escuta, na relação com um outro que, ao escutar, possa servir como suporte transferencial que o sujeito – o “paciente” – poderá produzir novos sentidos para sua história e para o seu sintoma. Isto significa lançar-se, portanto, numa “aventura” sem garantias de cura, num processo de colocação em movimento de circuitos libidinais cristalizados, repetitivos, processo que implica na existência de pelo menos dois sujeitos desejantes. (CRUZ, 1992, p. 19)

Muitas vezes senti medo de me perder em minhas ações, medo de fazer alguma coisa errada e de não estar fazendo nada, pois acabei me deparando com pessoas que mexem comigo e fazem eu me identificar, acabava conversando por simples satisfação, e foi um trabalho eu me conter, não deixar que a minha escuta ficasse só na passividade, mas com cautela tentei produzir sentido. Sobre essa produção de sentido, é importante mencionar o que ensina Ribeiro (2005), que se refere à loucura não enquanto doença a ser curada, mas enquanto uma “produção de sentidos que deve ganhar no âmbito do sujeito, existência subjetiva e territorial, contorno, amarrações que viabilizam uma localização – inscrição – desse ser no mundo em que vive […] (p.37)”.

O louco enquanto um indivíduo que possui voz, capaz de dizer sobre si mesmo e de produzir obra e para tratá-lo é necessário que se crie dispositivos para que ele possa ter lugar, se territorializar/desterritorializar, e estabelecer redes para garantir ou possibilitar algo que possamos chamar de vida…”Um pouco de possível, senão eu sufoco” (Deleuze).

O contato/a relação que tive com os usuários não se restringiram apenas no ambiente CAPS, tiveram momentos em que foi possível compreender a ideia de uma “clínica ampliada” com a transferência e o setting ocorrendo em diversos lugares, por exemplo, dentro da van indo para o ginásio, caminhando, no momento de um jogo de futebol etc. Souza (1999, apud Oury,1988-89; 23) cita que é importante possibilitar que “cada sujeito possa achar uma possibilidade de enganche, de interesse, mesmo parcial, sobre qualquer coisa que não era previsível…”, e ainda, sobre esses espaços informais, refere sobre a necessidade de o terapeuta ter uma escuta voltada para o novo e o imprevisível, estando atendo às possibilidades que se abrem a cada encontro, assim, a transferência aparece “como condição de possibilidade de emergência de um dizer” (Oury, 1988-89; 33).

Fundamentalmente é preciso que se enxergue o sujeito enquanto um inteiro, dentro ou fora do CAPS, sendo com práticas restritas a um setting protegido por muros, ou em qualquer outro tipo de ação. Emerich (2006, p.3) nos ajuda esplanar esta ideia quando diz que “O usuário não tem desejo ‘dentro do CAPS’ e direitos ‘fora’. Ele é atravessado constante e intermitentemente por esses vetores, ele é inteiro em todos os momentos”.

Em suma, experienciar a convivência com essas pessoas, pensar em produzir sentido e acuidade, é quase que como se lançar a uma aventura, – associando a Pelbart (1993) – desejando ter asas! Mesmo sabendo que não é possível ser anjo, resolver de imediato e viver no lugar de, mas pode-se ter disponibilidade para ouvir, para tocar, uma presença que pode às vezes suscitar um novo começo, no percorrer de diversos caminhos.

“Há infinitos modos de voar. Não é necessário escolher o de Ícaro, nem muito menos o de Santos Dumont.” (Gregório Baremblitt)

Talvez nossa modernidade tenha reduzido esses infinitos modos de voar unicamente a esses dois. Ora estamos de um lado, quando enlouquecemos, ora de outro, por exemplo, quando tratamos. É preciso muito senso estético, político, ético, clínico, demiúrgico até, para desmontar essa disjuntiva infernal. Necessitamos de muito espírito aventureiro para ir forjando asas, tanto no interior de uma instituição como fora dela, que nos permitam — a nós e a nossos pacientes — escapar a essa violência binária, que consiste em ter que optar sempre seja por um precipício abissal, seja pelo suave paraíso asséptico de uma estranha saúde, saúde sem desejo de asas nem um devir-anjo. (PELBART, 1993, p. 19)

Referências:

CRUZ, M. A. S. O Sujeito Silenciado: Uma Crítica às Práticas em “Saúde Mental”. 1992, p. 14-21

EMERICH, B. F. CAPS no Território: Cuidado onde a Vida acontece. 2006, p.1-12

OURY, J. Itinerários de Formação. Revue Pratique n.1, 1991. Tradução: Jairo Ideal Goldberg.

PELBART, P. P. Um desejo de asas. In: A nau do tempo rei. 1992

RIBEIRO, A. M. Uma reflexão psicanalítica acerca dos CAPS: alguns aspectos éticos, técnicos e políticos. Psicol. USP [online]. 2005, vol.16, n.4

SOUZA, M. O. S. Espaços informais: uma possibilidade no tratamento institucional de pacientes graves. São Paulo, 1999.

 

Mariana Miranda
Psicóloga, especializada em Gestão de Pessoas pela UFT. Membro do Conselho Regional de Psicologia - 23ª Região.