Taças de vinho

Entrei em casa tão apressada que, ao tentar fechar a porta, a chave querendo brincar com minha agitação, atirou-se em queda livre da fechadura ao chão.

Machucou-se toda. Isso porque o paraquedas que ela usava não abriu.

Fiquei alguns segundos parada, estática, olhando para aquela pequena chave caída no chão. Seu marido, um chaveiro francês que a acompanhara na queda, como todo europeu polido, tentava repreendê-la pelo acontecido. E ela, como toda charmosa chave brasileira, sorria, com ar de sapeca, ao contemplar a dedicação de seu esposo que trazia no peito a imagem da Torre Eiffel. (Até os chaveiros franceses são patriotas ….)

“Bem feito”, sentenciei. E, caímos as duas na maior gargalhada, eu e a chave paraquedista. O francês só esboçou um leve sorriso pelo canto da boca. Acho que ele é europeu demais, ainda, para sorrir uma alegre risada com gosto de feijoada e samba bem brasileiros.

Então, a chave, com ar de menina que pede o primeiro beijo, disse “Me coloca na fechadura que eu fecho a porta para você, tá?” .

Como é dissimulada a chave da minha casa! Mas, como amo as loucuras que ela faz (como saltar de paraquedas e fazer ballet clássico), além de adorar a forma como ela manda e desmanda no chaveiro francês, sempre perdoo o que ela faz.

E foi exatamente no momento que baixei para pegá-la que vi, escondidinho bem no canto da sala, um bilhete vestido de papel vermelho que dizia “Comprei um vinho. Vamos tomá-lo hoje à noite? Levo AS TAÇAS.”

Meu coração enlouqueceu e começou a pular e dar tantas cambalhotas que tive que cerrar os dentes para que ele não saísse pela boca.

AH! ERA A LETRA DELE!

A chave que dá palpites, até no que ela não é chamada, sugeriu afoita “Responde logo!”. E, eu respondi no mesmo papel vermelho, usando a tinta rosa da surpresa misturada com a alegria: “À NOITE”.

O Ventinho, Ventinhoso, mensageiro e amigo, encarregou-se de levar a resposta, carregado por um desses redemoinhos da paixão.

Não preciso dizer que o dia passou tão lento que me deu a impressão de que as horas,  minutos e segundos haviam se sindicalizado e estavam em alguma greve geral, lutando por um tempo mais vagaroso.

Finalmente, a noite vestida de rendas negras com enfeites de purpurinas estrelares começou a bailar pelo céu embalada pela canção romântica que cantava meu coração.

Resolvi abrir a janela. Afinal, quem eu estava esperando era a estrela mais brilhante do meu céu de sentimentos, por isso imaginei que ele fosse chegar trazido pela mão negra da noite. Acreditava que, quando ele chegasse, na sua mão direita traria a garrafa de vinho e, na esquerda, uma rosa de Santiago.

Nem tinha pensado todo esse pensamento tão menino, quando a campainha tocou. Tentei conter a ansiedade. E, lembrando Clarice Lispector, caminhei lentamente para vivenciar cada segundo dessa minha felicidade, literalmente, “tão clandestina”.

A chave, antes de abrir a porta, piscou com aquela piscadela de melhor amiga e aconselhou “Tente ficar calma”. Já o Chaveiro francês, educadíssimo, mostrou-me um pote verde com pontinhos laranja. Disse que era para eu guardar toda a minha ansiedade.

Então………………respirei fuuuuuuuuuuundo e ………….minhas mãos começaram a tremer. Tremiam tanto que foi preciso a Chave paraquedista dar um rodopio, que ela havia aprendido na aula de ballet clássico, para que a porta se abrisse.

ERA ELE!

E consigo parecia trazer, além do vinho, a primavera com as flores e borboletas para enfeitar a minha alma.

Sentamos no sofá cinza e eu me sentia nas nuvens. Aliás, eu me imaginava como um astro na Galáxia onde ELE era o SOL. Ah! Se ele soubesse que bastava um pedido seu para que eu orbitasse pelo tempo que ele quisesse ao seu redor. Ele seria MEU SOL e eu, seu planeta cativo.

Tomamos o vinho lentamente. Conversamos sobre tudo e sobre nada, como sempre.

Cada palavra doce que ele proferia, fazia-me compreender o porquê de ele me despertar tanto fascínio e encantamento.

Quis brincar, dizendo que ele possuía “olhos do Pacífico Sul”, que de tão azuis era impossível não querer desvendar seus encantos e mistérios.

Impressionante como é enigmático gostar de alguém que conhecemos tão pouco, contudo que invade nosso coração, sem autorização prévia , e faz com que tudo passe a ter sentido, de repente.

Quando a coragem quase me convencia para perguntar se nos veríamos novamente, ele disse “Preciso ir”.

Ah! Fez-se dentro de mim um silêncio tão profundo porque tive medo de não vê-lo nunca mais. Ficamos mudos, tão mudos que tive receio de que ele ouvisse a saudade que chamava por ele pela voz do meu coração.

Despedimo-nos à porta. E, como em uma tentativa de prolongar cada segundo ao lado dele, disse , intempestivamente, “Volte sempre”.

Então, ele olhou profundamente nos meus olhos, passou a mão nos meus cabelos, segurou minhas mãos, acariciou levemente meu rosto, aproximou lentamente sua face à minha, e sussurrou no meu ouvido “Sempre tenho a impressão de que você nunca me deixará ir por inteiro”…..

Realmente, são os enigmas da vida.

Ele se foi, mas teve o cuidado de deixar comigo as duas taças de vinho que logo se converteram em cálices de solidão.

Elienai Ferreira de Oliveira
Mestre em Letras, com ênfase em Linguística. Professora de Comunicação e Expressão do CEULP/ULBRA. Amante das Letras e da Literatura. Colaboradora do (En)Cena.