Alcoolismo: o convívio com o mal

“Esqueci o conselho da mãe e segui o exemplo do pai”

Este discurso é de alguém que ingere altas doses de álcool diariamente. Alguém que tentou vencer na vida, assim como tenta vencer o vício. Que tem sua mente devastada pelo julgamento alheio e, inclusive, da própria família.

Paranaense, 52 anos, Paulo Donizete Oliveira, apesar do vício, traz em seu currículo uma nomeação controversa: é presidente da Associação Londrinense de Saúde Mental (ALSM), função desempenhada quando não está trabalhando na prefeitura de Londrina, Paraná. Como presidente, ele se preocupa bastante quando perguntado sobre os projetos da Associação:

– É muito complicado, não há recursos para se fazer nada naquele lugar. Eu tenho batalhado bastante, mas as autoridades não repassam como deveriam – afirma Oliveira.

Paulo Donizete Oliveira (canto direito) – Presidente da Associação Londrinense de Saúde Mental durante sessão na Câmara de Vereadores de Londrina (Foto: Acervo pessoal)

Já como pessoa comum, a cena é triste. Embora goste de falar bastante (talvez isso o credencie para exercer o cargo de presidente na Associação), o que se vê é um ser humano que sofre calado. Não apenas pelo efeito do álcool, mas muito pela vergonha que sente a cada familiar que visita. Calado sim, pois o odor etílico faz desnecessária qualquer manifestação momentânea. O silêncio só acaba quando é hora de ir “às compras”:

 – Quem quer sorvete? Deixa que eu busco. – pergunta Paulo com a voz um pouco trêmula devido ao início de embriaguez. Essa é a desculpa para Paulo poder sair de casa sem se sentir constrangido para ir beber com os amigos no bar da esquina. Ele caminha com pressa e sede proporcionais.

Talvez pressa demais, pois não demora a regressar. Em 20 minutos está de volta com o sorvete que prometera buscar. Saboreando a sobremesa conta sua história:

– Eu sempre bebi, mas socialmente. Só que hoje, não consigo mais parar. Já tentei, tentei muito, mas ele (o vício) é mais forte do que eu. É uma vergonha isso, mas o que eu vou fazer? – diz um Paulo Donizete indignado com si mesmo.

Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), o Brasil está entre os países do continente americano com as maiores taxas de mortalidade causada pelo álcool. Entre 2007 e 2009, 12,2 a cada 100.000 mortes ocorridas ao ano no país não teriam acontecido sem o consumo de bebida alcoólica.

– A história é simples. Vai muito também do exemplo que você tem em casa. Mas eu mesmo: esqueci o exemplo da minha mãe e segui o do meu pai, que bebia pra caramba. Então, além das dificuldades que você tem na vida, as experiências que você tem em casa fazem muita diferença – explica Oliveira.

Paulo Donizete Oliveira (agachado), com os colegas da Associação Londrinense de Saúde Mental (ALSM) onde é presidente. (Foto: Acervo pessoal)

24 de dezembro, véspera de natal, data em que as famílias se reúnem. Quase todo mundo sabe onde e com quem vai passar a noite de confraternização. Mas para o presidente da Associação Londrinense de Sáude Mental é sempre uma incógnita. Sem ter esposa ou filhos, ele depende de algum convite dos parentes em Londrina, Rolândia ou Porecatu, todas as cidades situadas no norte do estado do Paraná, para ter onde ficar.

Apesar de morar em Londrina e ter mais familiares nesta cidade, desta vez, o convite vem de Porecatu:

– Vou lá pra casa da minha tia, estou com muita saudade dela – diz ele, arrumando a mochila, sua constante companheira de viagem.

Apesar de demonstrar certo carinho pela tia, parece que a rejeição por parte de seus familiares amarga seu coração de uma maneira muito forte. Paulo já “se juntou” quatro vezes durante a vida, porém esse convívio intenso com o vício tenha, talvez, lhe desanimado em construir uma família de verdade.

– Eu sou totalmente contra esse negócio de família, esse tradicionalismo todo. Pra mim, família não serve. Família pra que? Eu tenho que buscar meus objetivos, seguir meu caminho – diz de forma contundente.

Já está quase na hora de ir, mas o vício não dá trégua. Sem alarde algum, ele sai novamente, sem a promessa de buscar e, sim, deixar algo muito valioso: sua dignidade. Com os parceiros de copo, ele demora vinte, trinta, até quarenta minutos. Muitos mais do que passa com a sua família. Provavelmente porque no bar, Paulo se sinta livre e longe de repúdios e olhares atravessados. Para ele, “o vício pune, mas não cobra”.

“Tchau. Até mais!” Assim, Paulo Donizete Oliveira se despede na rodoviária rumo à Porecatu, sem esboçar qualquer sorriso, em busca de abraços menos frios e olhares menos interrogativos.

Consumo frequente de álcool aumentou nos últimos anoshttp://veja.abril.com.br/noticia/saude/consumo-frequente-de-alcool-aumentou-20-nos-ultimos-seis-anos

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