“Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo”

Casar, ter filhos, constituir família, viver por toda a vida juntos, enfim, parece ser o sonho de todo jovem casal apaixonado. Um verdadeiro conto de fadas. Mas, diferente das lindas histórias que encontramos nos livros, a realidade nem sempre tem um final feliz.

Cleide Regina e José Vicente, descrito por ela como marido exemplar, sempre foram um casal lindo e cheio de amor. Nasceram um para o outro. Os três filhos, duas mulheres e um homem, são os frutos deste amor. Porém o destino tratou de separá-los.

No ano 2009, depois de voltar do trabalho, Vicente, 56 anos, que sofria de pressão alta, perdeu o controle do carro, depois de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e bateu de frente a uma arvore em um canteiro na cidade de Palmas, onde Cleide, hoje com 57 anos, ainda reside. Levado ao hospital, ele ainda resistiu por dois dias.

Nós aprendemos e nos acostumamos à reprodução, a ganhar e doar vida. Mas como encarar a dor da perda do cônjuge? Como seguir em frente quando o “até que a morte os separe”, dito pelo padre no dia do matrimônio, se cumpre? Talvez alguém que tenha visto a morte de tão perto possa ajudar a entender. Com a palavra, a própria Cleide Regina.

Como ocorreu o acidente?

Ele estava substituindo um amigo no trabalho que estava com cólica renal. No final do expediente, nos falamos e ainda comentei que tinha comprado, na viagem que eu estava fazendo, o que ele havia me pedido.

Saindo do trabalho, ele passou no mercado e fez a compra que estava acostumado a fazer todos os dias. Indo para casa, ele teve um mau súbito dirigindo, perdeu o controle do carro e acabou batendo em uma árvore. Ele ficou dois dias no hospital.

Onde a senhora estava no momento do acidente?

Eu não estava na cidade naquele momento, quando ocorreu o acidente. Estava visitando uma filha minha em outro estado, pois era o aniversário de um ano da minha neta, quando soube que ele havia se acidentado. Então, tive que retornar às pressas para Palmas.

E como a senhora se sentiu quando soube que ele havia se acidentado?

Bom, achei que era um acidente normal que não havia nada de grave. A gente não imagina que vai ter uma consequência tão grave como aconteceu. Mas meu coração estava apertadinho. Quando recebi a notícia, peguei o primeiro voo disponível para voltar.

E chegou à tempo?

Cheguei aqui era umas onze e meia e fui para o hospital vê-lo. Estava um alvoroço na recepção e eu ainda não sabia o que tinha acontecido. Então, veio a triste notícia de que ele teria tido uma parada cardíaca, devido à pressão alta demais e veio a falecer.

Mas a senhora chegou a vê-lo no hospital?

Não, ele morreu no mesmo momento em que cheguei no hospital e não me deixaram vê-lo. Só o vi na hora do velório.

Como reagiu aos dias seguintes?

Ah, você fica sem reação. Só vem o choro e, muitas vezes, fiquei estática, sem acreditar. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo. Procurava razões para aquilo ter acontecido, mas nunca as encontrei, de fato.

Diante de tanta dor, como conseguiu superar a morte do Vicente?

Você não supera, apenas aceita. Eu fui me apegando e dedicando ainda mais à Deus e a palavra que vem sempre à minha mente: “Seja feita a vontade do Pai e não a minha”. Isso é o que me deixa mais confortada, mas não conformada.

Por que não conformada?

Ah, porque a morte é difícil você se conformar com ela. Eu aceitei pela vontade de Deus.

Procurou algum tipo de tratamento psicológico?

Não, não houve necessidade.

Mas acha que terapia ou consulta ajudaria naquele momento?

É difícil avaliar, mas colegas minhas precisaram de ajuda porque não conseguiram superar essa dificuldade.

Há quantos anos vocês eram casados?

Faltava um mês para fazermos 33 anos de casados, mas um mês é muito pouco, então conto como 33.

Como era a relação de vocês? Sempre se deram bem?

O Vicente era uma pessoa que se doava muito, era muito companheiro, romântico. Sempre foi um pai e marido exemplar. Muitas vezes, se anulava, fazia meus gostos e deixa seus próprios interesses em segundo plano. A gente se conhecia no olhar. Bastava piscar para saber o que o outro estava sentindo. Ele se dedicava mais a mim até do que eu a ele.

Como se sente agora, depois de alguns anos?

Cada vez que me lembro dele, vejo as coisas boas que ficaram, mas é muito dolorido. São quatro anos, mas para mim é como se fosse ontem. Não tem como esquecer, de forma alguma.

O que a senhora tem a dizer para aquelas pessoas que estão passando pelo mesmo momento difícil?

O que posso dizer é que tenham fé como eu tive, pois elas conseguem, sim, superar. É uma dor indescritível, só quem passa sabe. Mas não é uma dor impossível de superar. É preciso firmar o pensamento em coisas boas para se motivar e pensar que outras pessoas dependem de você aqui.