Virginia Woolf

À sombra de Virginia Woolf

Fragmentos de textos (entre aspas) de Virgínia Woolf retirados do livro “Contos Completos – Virginia Woolf”, Editora Cosac & Naif, edição de 2005.

“Nesta época tão curiosa, quando já começamos a necessitar de retratos de pessoas, de suas mentes e sua indumentária, um contorno fiel, desenhado sem mestria, porém com honestidade, é bem capaz de ter algum valor.”

E mesmo quando não conseguimos definir o valor de algo, continuamos a procurar o sentido das coisas, achando que esse sentido seja mais profundo do que o contorno de seus corpos. Não sei, de fato, quem foi Virginia Woolf, sei que seu texto me assusta, inquieta-me, deixa-me um tanto sorumbática, o que é contraditório, ficar meio morta e sentir-se a ponto de ter um ataque de vida. Mas, vou tentar compreender o contorno das sombras que vejo em suas palavras. Cada palavra, um fragmento. Cada pedaço de sombra, uma ausência.

“Entretanto sou incapaz de dizer o que é que eu quero, apesar de ansiar pelo que espero de alguma forma secreta. Pois muitas vezes, e com frequência cada vez maior, à medida que o tempo passa, dou comigo de repente a interromper minha andança, como se eu fosse paralisada por um olhar estranho e novo sobre a superfície da terra que conheço tão bem. Um olhar que insinua alguma coisa; mas que se vai antes de eu perceber seu sentido. É como se um riso nunca visto furtivamente se estendesse num rosto bem conhecido; por um lado dá medo, no entanto por outro ele nos faz um sinal.”

A sensação de conhecer a terra em que pisamos e da qual fazemos parte é poeticamente claustrofóbica. Não queria ser somente barro. Queria acreditar no olhar que não vejo, ainda que insista em buscá-lo na esperança de que ele repousa sobre mim. Tudo parece novo na terra e cada expressão dos rostos sem contexto é um sinal de que sou incapaz de sair da esfera que circulei em torno dos meus pés. Talvez, ela quase compreendesse o olhar. Mas, “quase” é terrível. Que Deus não nos permita sair do círculo em torno dos nossos pés. Não ainda.

“É mais fácil escrever sobre a morte, que é comum, do que sobre uma vida única.”

Uma vida única não é qualquer vida. É terrivelmente singular. Digo “terrivelmente” porque aprendemos desde sempre a sermos muitos, a buscarmos um sentido homogêneo e grandioso para as coisas.

“Quero mergulhar cada vez mais fundo, longe da superfície, com seus fatos isolados, indisputáveis.”

Tenho medo de lagos e mares. Só confio na água que posso controlar. Acho que ela também tinha medo, as pedras nos bolsos a protegeram do instinto da vida que, por ser instinto, não nos cabe compreender.

“É curioso como instintivamente protegemos nossa própria imagem de idolatria ou de qualquer manipulação que a possa tornar ridícula, ou diferente demais do original para que ainda acreditem nela.”

Nem sei se posso realmente dizer que conheço meu original, logo a imagem que vive em mim talvez seja tudo que tenho. Ainda que “ter” seja um verbo totalmente sem significado em qualquer língua, tempo ou lugar. Penso que um nariz grande possa ser ridículo, talvez porque conviva com pessoas de narizes pequenos. Penso que muito do que há em mim possa ser questionado, adorado ou ridicularizado, mas são apenas pensamentos, nada mais.

“Suponha-se que o espelho se despedace, que a imagem desapareça e que a figura romântica com o fundo verde da floresta a envolvê-la não esteja mais lá, mas apenas aquilo, a casca de uma pessoa que é vista por outras – que mundo raso, árido, proeminente e sem ar ela se torna! Não um mundo no qual viver.”

Se eu a conhecesse, diria que ela queria muito ser “um mundo no qual viver”, mas tinha indagações demais para fazer o que alguns de nós faz, ou seja, acreditar. Acreditar só para poder levantar toda manha e adormecer toda noite com medo de que aquela noite possa ser a última. O medo é perigoso, mas nos faz, paradoxalmente, dormir e acordar.

“Quando nos encontramos face a face, nos ônibus e trens subterrâneos, é no espelho que nós estamos olhando; o que explica a vaguidão, o brilho de vidro, em nossos olhos.”

Tudo que temos são espelhos. Mas, um espelho não é assim tão ruim, ele nos permite enxergar sombras. Platão já havia descrito essa sensação e muitos depois dele também. Talvez nossos olhos não sejam “a janela da alma” (desculpe-me Machado de Assis), sejam apenas o reflexo daquilo que é possível deixar o outro ver. O outro nos vê vagamente, mas mesmo em meio a nebulosidade há um brilho. Brilho não deve ser teorizado, apenas apreciado. Teorizamos demais.

“Coisa estranha é o silêncio. A mente se torna como uma noite sem estrelas; mas de repente um meteoro desliza, esplêndido, atravessando a escuridão, e se extingue. Por essa diversão, nunca dizemos suficientemente obrigado.”

Obrigada.

“Fascinado pelo contraste entre a porcelana, tão vívida e alerta, e o vidro, tão contemplativo e calado, ele se perguntou, pasmo e perplexo, como os dois tinham vindo a existir no mesmo mundo, para plantar-se, além do mais, no mesmo cômodo, na mesma estreita faixa de mármore. Mas a pergunta permaneceu sem resposta.”

Em meio a divagações, vejo-a em uma sala com móveis brilhantes, observando através da janela um colorido jardim. Se ela fechar os olhos, pode ouvir o barulho do lago ali perto. É tanto silêncio. A mente se alimenta do silêncio, ela começa a tecer pensamentos que vão desde os alicerces para a construção de uma grande cidade até a quantidade de sopro necessária para apagar uma vela. Vejo-a com o olhar sereno, o cabelo arrumado, a roupa limpa e a luta dos dedos sujos de tinta. Pobres dedos. Nunca dedicamos aos dedos nem uma mínima fração do silêncio que usamos para alimentar a mente.

“Há um momento que não consigo imaginar: o momento da vida dos outros que deixamos sempre de lado.”

Acho que ela imaginava. Se não imaginasse, não teria a consciência de dizer que “não imagina”. Se fôssemos só nós, vá lá. Mas há os outros e eles são tantos e cada qual é uma “vida única” e cada qual carrega seus olhos de vidro e seu silêncio. “Em silêncio ele se recolheu e, embora sua voz nada fosse, seu silêncio é profundo”. Talvez o silêncio de cada um seja profundo à sua maneira.

“Por que meu pai me ensinou a ler?”

Minha mãe me ensinou a ler. Isso porque nasceu em um mundo no qual não era mais nos dada alternativa a não ser compreendermos a guerra, a política, a economia, a geografia e a nós mesmas. Podíamos acreditar em nossa inferioridade, como tanto bradou Mr. Bennett, mas tivemos que sair dos nossos lares quentes, tirar nossos bebês dos braços e fazer alguns homens [e algumas mulheres] aceitarem o óbvio – pensamos e somos diferentes. Só que isso também é uma generalização estúpida, porque muitas de nós não pensam, como também muitos deles.

“Bem que poderia ter sido qualquer outra dos milhões de pedras, mas fui eu, eu!”

Queria ser a pedra, não apenas uma pedra. Mas queria muito que todas as outras (pedras) também fossem ‘únicas’. Quero demais.

“Nem assim a vida acaba…”

É.

“Ah, a marca na parede! Era um caramujo.”

Quase sempre é um caramujo, mas é interessante brincarmos com as possibilidades que nascem quando libertamos nossa tão domesticada percepção. Só assim voltamos a enxergar as coisas com uma certa perplexidade, aquela que tínhamos quando não havia tanto silêncio.

“… eu já começava a me perguntar se as sombras morrem, e como poderiam ser enterradas…”

Pensei tanto nessa frase quando a li. Pensei especialmente nela e nas pedras em seu bolso no último passeio ao Rio Ouse. Ainda que a minha mente crie artifícios para me fazer compreender que até as sombras morrem, não consigo aceitar esse fato sem um grande espanto, pois, mesmo que isso seja lógico, parece-me absurdo. Assim, continuo olhando para meus pés, pensando que o círculo que construí ainda é mais poderoso que minha vontade de ultrapassá-lo. Sou apenas uma pedra.

Parcilene Fernandes
Paraíso, 26 de Fevereiro de 2006

Saiba mais:

Virginia Woolf foi uma escritora inglesa. Nasceu em Londres em 1882 e morreu em 1941. Foi uma importante figura do movimento modernista. Dentre suas obras, podemos elencar: Mrs Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927), Orlando (1928), Um Quarto Só Para Si (1929), Entre os atos (1941), Contos Completos (1917-1941).

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.