vida-apos-morte

Acordo para a morte

[…] eu quis matar sem casuística, matar para mim, só para mim! A esse respeito eu não queria mentir nem a mim mesmo! Não foi para ajudar minha mãe que eu matei – isso é um absurdo! Eu não matei para obter recursos e poder, para me tornar um benfeitor da humanidade. Absurdo! Eu simplesmente matei; matei para mim, só para mim. […] Eu precisava saber de outra coisa, outra coisa me impelia: naquela ocasião eu precisava saber, e saber o quanto antes: eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar o limite ou não! Eu ouso inclinar-me e tomar o poder ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de…

– Matar? Tem o direito de matar? (p. 428, Crime e Castigo, Dostoiévski)

Década de 80 (século XX)

Paraíso

6h

A professora acorda para mais um dia de trabalho. Executa a rotina matinal da maioria de nós: toma banho, escova os dentes, escolhe uma roupa básica, faz seu café da manhã. Depois pega o material da aula, pois várias crianças na faixa dos 10 anos de idade a esperam. Uma lembrança faz nascer um sorriso em seu rosto. Finalmente estava livre. Poderia andar pelas ruas, sair com suas amigas, quem sabe até encontrar um verdadeiro amor. Balançou a cabeça e falou em voz alta: “antes de passeios, amigas e amor, tenho um grupo agitado aguardando por mim.”. Lembrou-se do dia em que um grupo de meninas veio em sua casa (quando ainda estava casada) para lhe dar as boas vindas como professora em seu colégio. Uma delas nada falou, ficou em silêncio olhando-a encantada. Por algum motivo, lembrou-se desse episódio, de que algumas daquelas meninas poderiam um dia ser também professora. Mas ainda havia muito tempo para isso. Agora, precisava apressar-se, não poderia atrasar, não para seus alunos.

5h

O dia amanheceu, mas isso não fez muita diferença para ele, afinal não dormiu, não pregou os olhos uma única vez. Estava excitado com a ideia que iria executar em breve. Já sabia o trajeto que ela fazia todas as manhãs, assim quando fechava os olhos poderia até vê-la acordando, colocando a blusa preta (sua preferida), a calça jeans (na qual ficava linda) e realizando os preparativos para o trajeto que mudaria sua vida para sempre. Ele ainda podia sentir o cheiro dela em algumas das coisas daquela casa vazia. Esse cheiro impulsionava-o ainda mais a seguir seu destino. Era um homem com um destino, uma sina, um grande objetivo. Enquanto pensava essas coisas, amolava lentamente uma faca. Em um dado momento, o brilho da faca fez com que erigisse em torno dele e das coisas uma linha tênue que dava a tudo um aspecto distorcido. Perdeu o foco, parou os movimentos. Olhou no relógio. O tempo passou rápido, precisava partir, precisava esperá-la.

6h20

A menina tentava abrir os olhos com dificuldade. Era sempre um suplício acordar cedo, essa era a única coisa ruim em ter ido para a quinta-série. Pela insistência da mãe, levantou-se. Depois de tomar café (e sempre tomava muito café, apesar de seus 10 anos) começou a encontrar algum sentido em estar de pé naquele horário, então lembrou-se do óbvio: amava ir para aula e hoje sua professora preferida estaria com eles durante toda a manhã. Era tanta coisa para aprender. Sonhava em fazer contas com letras, em ler todos os livros da biblioteca, em vencer a timidez na hora de recitar a tabuada ou uma poesia. Queria ser professora, como aquela que estaria ensinando-lhe esta manhã, mas, para isso, precisava conseguir falar em público, respirar normalmente em meio às pessoas, suportar o olhar dos outros. A voz da sua mãe trouxe-lhe de volta. Vestiu a saia com pregas profundas na altura do joelho, a blusa com o nome de santo, calçou a franciscana e caminhou em direção ao colégio, que ficava quase em frente a sua casa.

6h30

Já estava ficando com câimbra por permanecer na mesma posição, escondido no pilar da parede da escola. Tentou manter a respiração tranquila, pensou no que estava prestes a fazer. Sentiu-se imenso, quase um deus.

6h50

O sorriso ainda permanecia em sua face enquanto caminhava em direção ao colégio. Cada passo a aproximava das crianças, de seu ofício, da sua nova vida. Errou ao se casar tão jovem e com um homem que, de fato, não conhecia bem. Mas agora isso era passado. O tempo é outro. A vida é outra. Nesse momento, passava diante da escola que ficava na esquina que antecedia seu colégio. Já podia ouvir a algazarra das crianças preparando-se para a oração que era feita todas as manhãs ali.

6h55

Ela sentiu uma pontada forte nas costas. Não entendeu de onde veio, nem o que foi aquilo. A pontada foi tão aguda que a fez cair de joelhos no chão. Foi então que ela o viu e quando uma nova pontada fez-se presente em seu corpo teve noção do que acontecia, havia sangue. Muito sangue. E era seu sangue. Com as mãos tentou deter as diversas investidas daquela coisa pontiaguda em seu corpo. Mas nada impedia os cortes em suas mãos, em seus braços, em seu rosto, em seu peito. Caiu.

6h55

Ali, escondido na pilastra, parecia mais uma sombra. Sentiu o cheiro dela. Ergueu a faca. A primeira atingiu-lhe as costas, ela caiu. Não o viu. Mas quando ela estava se levantando, ele atingiu-lhe novamente, e mais uma vez, várias vezes, perdeu até a conta. Só tinha a necessidade de romper cada parte do seu corpo. Ela ainda tentou se proteger com as mãos, mas de nada adiantou. Atingiu-a nas mãos, no rosto, viu o sangue manchar sua pele perfeita. Ela caiu. Pouco se via de sua face, do seu corpo, era o resto do que fora alguém em uma poça de sangue. Ele correu.

6h55

A menina, já no colégio, observou um dos colegas sair da sala. Pensou em sua coragem em fazer isso sendo que a professora já devia estar se aproximando da porta. O menino sumiu, possivelmente tenha ido subir no muro, lá dava para ver uma escola menor do outro lado da rua. Ela ficou lá, sentada, quieta, mesmo com toda a algazarra das demais crianças à sua volta.

7h05

Enquanto corria, ele viu um menino o observar de cima de um muro do colégio. Criança estúpida. Mas, não pôde parar para pensar, precisava correr. E correu. Sentia-se imenso. Sentia-se quase um deus.

7h10

Alvoroço no colégio. Gritos. Algumas professoras choravam em desespero. Ela permaneceu quieta, sentada em sua carteira, à espera da sua professora. Mas, ela não veio naquela manhã. Nem na outra. Ela nunca mais voltou à sala de aula. A professora morreu.

 

Na outra manhã, não teve aula. Os alunos foram levados em fila para a Igreja que ficava próxima ao colégio. A menina ainda tentava entender o que representava tudo aquilo. Enquanto caminhava com as outras crianças em direção à igreja, lembrou-se que passou próximo ao local do crime e viu a terra molhada de sangue. Sangue não seca como água. Sangue fica.

Ao entrar na igreja, ouviu sons diversos: choro, gritos, música, sussurros. Teve medo. Todas as crianças da turma da professora assassinada iam prestar sua última homenagem, ao menos foi isso que lhes comunicaram na sala de aula. Cada criança aproximou-se do caixão. Ela foi a última, era uma criança muito alta, daí sempre ficava por último nas filas. Antes de alcançar o caixão, ouviu alguém dizer: “tão linda, parece que está dormindo”. Então, ela finalmente se aproximou. Mesmo com medo, ergueu os olhos devagar. Observou, primeiro, as mãos – tão brancas e com tantos cortes. Depois viu o rosto repleto de pequenas manchas. Ela pensou: “não parece que está dormindo, não há minha professora nesse corpo cheio de cortes e sem cor”.  Lembrou-se do dia da visita em sua casa, ela lhe ofereceu bolo e um copo de suco; da alegria nas aulas, quando não havia poça de sangue e às 7h ouvia-se o farfalhar dos cadernos. Sentou-se na primeira fileira da igreja. De lá, via o caixão. “Minha professora morreu”, pensou. E esse pensamento permaneceu em sua mente por muito tempo.

 

Minha professora, cujo nome iniciava-se com LUZ, foi assassinada de forma brutal. Lutou pela vida até o limite de suas forças. Talvez tenha sonhado, como muitos de nós, em ter um bom trabalho, filhos, uma casa, um amor. Talvez tenha sido feliz, como alguns de nós, em certos períodos da vida. Mas há uma certeza: não lhe foi permitido acompanhar os alunos da quinta série na aprendizagem das continhas com letras, nem constatar, depois de um dado tempo, que alguns deles tenham se tornado professores, como ela.

O homem que a matou, morreu há alguns dias.  Seu corpo foi velado perto de casa. Teve uma morte sem aviso prévio, mas sem brutalidade. Um ataque de coração fulminante o apagou.  Se ele sentiu remorso, dor, medo, sofrimento em todos esses anos que viveu em um mundo sem ela, não sei.

Ele não é um personagem de Dostoiévski. Talvez para a maioria dos crimes não haja redenção, pois se para cada crime deve haver um castigo, para o processo de redenção presume-se a existência do remorso.

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
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