Ares e o arquétipo da força física

Ares na mitologia grega era o deus da guerra, da ação imediata e da força física masculina. Único filho de Zeus e Hera foi rejeitado pelo pai, uma vez que este não se agradava dos modos agressivos do filho.

É um deus impulsivo, belicoso e extremamente emocional. Em Roma era chamado de Marte, sendo além de Deus da guerra, da agricultura. Todavia, como os romanos eram um povo belicoso, o deus Marte era tido em alta conta, enquanto que os gregos não o respeitavam nem o honravam (com exceção de Esparta).

Atena, sua irmã, também era uma deusa da guerra, entretanto, Atena era de guerra estratégica, enquanto Ares tende mais a violência da guerra, à força bruta e à sede de sangue.

Uma curiosidade em seu mito é que Hera, sua mãe escolheu Príapo para ser tutor de Ares. Príapo treinou o Deus para ser primeiro um perfeito dançarino para depois treiná-lo para ser guerreiro (Bolen, 2005).

Ares teve muitos filhos e consorte, mas seu caso mais conhecido foi com Afrodite. Com ela teve um caso extraconjugal (Afrodite era casada com Hefesto).

Impressionada pelo vigor do jovem guerreiro, Afrodite se entrega aos encantos de Ares. Hefesto, com a ajuda de Hélios (o deus Sol), descobriu o adultério e planejou sua vingança. Em segredo forjou uma rede muito fina, quase invisível, porém muito forte que não podia ser destruída, e pendurou-a sobre o leito.

Quando Ares e Afrodite adormeceram, Hefesto soltou a rede sobre ambos e chamou todos os deuses para testemunhar o adultério.

Os dois tiveram como filhos Deimos (pânico) e Phobos (medo). Tempos depois tiveram uma filha Harmonia (que foi posteriormente mulher de Cadmo, rei de Tebas) estabelecendo uma ligação equilibrada entre o amor e a paixão violenta.

Ares também participou da guerra de Tróia, estando ao lado dos troianos assim como Afrodite,Artemis e Apolo.

A imagem arquetípica de Ares corresponde à força física, representando os instintos guiados pela vontade que não medem consequências. Corresponde também àcompetição e às reações intensas e apaixonadas (lembrando que ele foi amante da deusa do amor).

Ele está presente todas as vezes que reagimos emocionalmente de forma brutal e intensa. Ele é emoção a flor da pele. Por várias vezes defendeu seus filhos e filhas e os vingou. Sendo, portanto, o arquétipo daquele que entra em uma luta pelos que lhe são caros.

Símbolo da raiva, da ira, da indignação, mas também da coragem para a luta necessária e para a sobrevivência. Ares simboliza o contato com os sentimentos fortes e com o corpo (vide que ele era um dançarino também), coisas rejeitadas pela razão vigente no patriarcado.

Por isso Zeus, símbolo máximo do patriarcado o desprezava. Para os gregos o pensamento e a racionalidade eram de suma importância e reações emocionais não eram vistas com bons olhos. Ainda hoje um homem que dança é visto de forma pejorativa, mas o interessante é que Ares contradiz essa imagem, pois se trata do Deus mais viril do Olimpo.

Mas as forças instintivas, que fazem com que corpo e emoção ajam juntos não devem ser desprezadas. Ares é o nosso lado espontâneo que gosta de se expressar de forma física.

A dança pode ser uma forma de lidar com essa força interior que age dentro de nós. Basta lembra que nas antigas culturas tribais os guerreiros dançavam antes de entrarem na luta. A dança então pode ser considerada uma forma sublimada da guerra.

Entretanto, como aponta Bolen (2005), o arquétipo de deus grego sedento por sangue evoluiu para o arquétipo de Marte romano. Nessa transição ele se tornou o protetor e defensor da comunidade. Se tornando aquele que luta pela segurança e pelos direitos dos outros. Ou seja, um grande líder.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.