As bruxas dos contos de fadas: aspectos sombrios da alma feminina

Temos atualmente uma profusão de adaptações para o cinema de contos de fadas e todos eles voltados para um público mais adulto.

O que chama a atenção é que nessas produções a figura da bruxa ou madrasta ganha um grande destaque com atrizes consagradas. E no fim elas acabam sendo até mais interessantes que as mocinhas. No caso do filme Malévola, baseado no conto A Bela Adormecida, a fada desprezada se torna a protagonista do filme e assistimos toda a trama pelo olhar daquela que seria a “bruxa”.

Nos contos de fadas clássicos e famosos como Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e o citado Bela Adormecida temos sempre presente a figura da bruxa ou madrasta que persegue a bela jovem, se tornando um importante catalisador do processo de individuação da heroína.

Para compreendermos a bruxa é importante salientar que se trata de um arquétipo. A bruxa/madrasta representa uma faceta do arquétipo da Grande Mãe, e nele está inserida a bruxa ou madrasta (a mãe diabólica, terrível), a velha sábia e a deusa que representa a fertilidade, bondade e piedade (aspectos da mãe boa).

Infelizmente, esse é um aspecto negligenciado em nossa sociedade.

Em uma sociedade como a nossa, judaico-cristã, com uma forte base patriarcal não há uma imagem arquetípica da mulher. Marie Louise Von-Franz, em seu livro O Feminino nos Contos de Fadas, cita que Jung sempre dizia que a mulher não tem uma representante no “Parlamento de Cima”.

É evidente que o patriarcado trouxe muitos avanços em termos de cultura e tecnologia e foi extremamente necessário para o estabelecimento da ordem, das leis e para o desenvolvimento intelectual da humanidade. E com isso a deusa-mãe foi afastada durante certo tempo, acentuando e desenvolvendo o pólo masculino da psique masculina.

Entretanto a consciência quando persiste demais em um curso de ação, em uma situação que se torna ultrapassada os conteúdos reprimidos voltam a se “vingar” da atitude unilateral. A obstinação em um curso de ação acarreta a dissociação e a neurose.

Dessa forma, os aspectos femininos, tanto no homem – em relação à sua anima – quanto na mulher, ficaram negligenciados. Isso acarretou na mulher uma insegurança e uma incerteza em relação a sua essência. E no homem também uma insegurança em relação aos seus sentimentos. Hoje os homens também se sentem perdidos em relação a esse feminino não compreendido.

Ainda em O feminino nos contos de fadas, Von Franz aponta para o fato de que a Deusa-mãe ainda não fez a sua reaparição em uma filha humana, assim como temos um representante do Deus encarnado em um filho, Jesus.

Temos atualmente à devoção à Virgem Maria, mas essa figura surgiu acompanhada de varias restrições. A Deusa-mãe foi acolhida pela igreja católica, mas em uma forma purificada de sua sombra e de uma forma “adequada”.

Portanto o aspecto sombra da Deusa-mãe necessita fazer a sua reaparição e nossa sociedade. E a bruxa dos contos de fadas, simboliza justamente a Deusa-Mãe negligenciada, a Deusa da terra, ou seja, o feminino em seu aspecto destrutivo. Esses aspectos sombrios do feminino são: a inveja, a vingança, a sexualidade e o contato com a natureza.

Contudo, a bruxa é um aspecto extremamente necessário para o desenvolvimento psicológico e para o processo de individuação da mulher. Sem ela a heroína não sairia do lugar. Nos contos vemos que a sombra da boa mãe negligenciada é quem torna a heroína ou princesa tridimensional. A bruxa mostra o aspecto da mãe natureza. Se observarmos os animais, veremos que ela aparece com uma dose de maldade. Mas uma maldade positiva. As raposas, por exemplo, costumam morder os filhotes quando atingem certa idade, obrigando-o assim a assumir a sua liberdade.

A mãe que possui um instinto feminino saudável sabe que deve afastar o filho que se agarra demais a ela. Infelizmente hoje, esse instinto está doente e temos uma geração de mimados e filhinhos da mamãe que não assumem responsabilidade. Hoje esse tipo de comportamento é considerado imoral, a mãe “deve” ser boazinha e possuir uma piedade ilimitada – a imagem da Virgem Maria caridosa e que recebe todos os pecadores com seu manto.

Contudo é essa mãe terrível quem nos força a sair da zona de conforto. O ser humano sempre busca o prazer e o aconchego doa braços da boa mãe, e ele sempre tende a se tornar inerte nesse estado paradisíaco. Entretanto nesse estado, não há desenvolvimento. Sem a mãe terrível para nos expulsar do paraíso não progredimos.

Portanto, ao aceitar o desconforto, o sofrimento e as limitações impostas pela bruxa, podemos nos desenvolver em direção a uma totalidade, capaz de integrar o bom e o ruim, o agradável e o desagradável.

Referências:

VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

VON FRANZ, M. L. A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2002.

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.