As marcas da guerra nas fotografias de Eugene Smith

William Eugene Smith, americano nascido no Kansas no ano de 1918, começou sua vida de fotógrafo aos 15 anos de idade, quando já tinha publicado suas primeiras fotografias em jornais locais. Sua carreira foi marcada pelo profissionalismo e dedicação à fotografia. Suas imagens que foram realizadas durante a Segunda Guerra Mundial o tornou uma das grandes referências no fotojornalismo. Smith foi correspondente de guerra para a revista Flying entre 1943 e 1944, e depois contribuiu com coberturas para a Life, onde deixou um enorme legado. Smith seguia a máxima do fotojornalista Robert Capa: “se suas fotos não são boas o suficiente, então você não está perto o suficiente”, por isso buscava sempre aproximar-se do assunto fotografado, e assim elas passaram a traduzir todo o terror da guerra. Em 1955, após a cobertura de tantos eventos e marcos importantes, tornou-se membro da agência Magnum.

Fonte: https://goo.gl/5iXe7w

A tradição humanista de Eugene Smith foi tema de ensaios importantes em sua carreira, como em Aldeia Espanhola, mesmo após a sua morte sua maior característica continua sendo disseminada por meio da Eugene Smith Foundation, que desde 1979 concede bolsas para a realização de ensaios que sigam os preceitos sociais do fotógrafo: o humanismo. Com a revista Life, Smith retratou a verdadeira face da guerra e publicou mais de 50 ensaios fotográficos. Muitos se tornaram aulas de narrativas visuais, como Country Doctor, Spanish Village, Nurse Midwife ou Albert Schweitzer na África, e inverteram por completo a tradicional subordinação da fotografia ao texto.

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O fotojornalista tinha domínio pleno sobre todas as etapas da produção fotográfica. Fazia questão de ser seu próprio laboratarista, e jamais deixou nas mãos de terceiros a arte de transformar seus negativos nas imagens. Das tomadas aéreas iniciais, feitas a partir de voos de reconhecimento, a fotos de bravura e solidariedade militar no campo de batalha, passou a focar no horror da guerra para as populações civis e na fragilidade da condição humana como um todo. Ao final da devastação, Smith havia construído o mais pungente libelo contra a matança entre homens da história do fotojornalismo. Carregou esse fardo moral até o final da vida.

Além disso, a marca física que a guerra lhe deixou não foi menor. Em maio de 1945, com a guerra já nos seus estertores, Smith sofreu ferimentos graves na cabeça e na mão esquerda enquanto fotografava. Submetido a uma série de cirurgias, teve de permanecer hospitalizado durante quase dois anos e temeu jamais poder voltar a empunhar uma câmera.

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Certo dia da primavera de 1946, ainda afundado numa crise espiritual por ter de conviver com o corpo remendado, a confiança abalada e as lembranças sombrias da guerra, decidiu acompanhar os dois filhos menores num passeio bosque adentro. Pela primeira vez desde que se ferira, levava consigo a máquina fotográfica, e com ela captou a imagem que viria a se tornar a mais popular mundialmente. The Walk to Paradise Garden mostra as duas crianças de costas, caminhando de mãos dadas em direção a uma clareira. “Enquanto as observava”, explicou mais tarde, “tive a nítida percepção de que naquele instante, apesar de todas as guerras e de tudo o que eu vira, eu queria fazer um hino à vida e à vontade de viver”.

“The Walk to Paradise Garden”. Fonte: https://goo.gl/kU27FR

Assim como sustentava que o mundo simplesmente não cabia no formato de uma câmera de 35mm, Smith também sofria com as limitações físicas e temporais das pautas que recebia. Em 1955, já como associado da mítica agência Magnum, recebeu a incumbência de fazer um ensaio sobre a vida urbana em Pittsburgh, cujo cordão umbilical, à época, ainda era a indústria do aço. Deveria ficar três semanas na cidade e produzir 100 fotos. Acabou não arredando pé de lá por um ano inteiro, captou 17 mil imagens, e ainda assim achou que não tinha conseguido completar a tarefa.

Mas foi somente no seu último trabalho – a monumental série sobre os efeitos letais da poluição industrial de mercúrio em Minamata, concluída pouco antes de sua morte – que W. Eugene Smith produziu a única fotografia de que teve orgulho pleno. “Considero Tomoko no seu Banho a melhor fotografia que jamais fiz porque ela diz exatamente o que eu queria dizer”, explicou a seus alunos da Universidade do Arizona. Na busca desse ponto de encontro que o consumiu a vida toda, considerava o restante de sua obra mais ou menos fracassado.

Fonte: https://goo.gl/FXL8AK

 

Tomoko, muitas vezes associada à Pietà de Michelangelo, talvez seja mesmo a obra mestra de Eugene Smith. A mãe japonesa que acarinha a filha desnuda e severamente deformada enquanto a banha no tradicional tanque em uso na época teve impacto mundial imediato e compreensão universal. Ryoko Uemura concordou em expor a filha Tomoko em cena tão íntima como grito silencioso contra a devastação física e mental da menina, uma entre as milhares de vítimas do horrendo crime ambiental provocado por uma indústria química. Os pais a chamaram de “criança-tesouro” desde o instante em que nascera. A mãe havia se contaminado durante a gravidez ao comer peixe vindo do rio contaminado, só que, ao invés de corroer sua saúde, o veneno passou da placenta para o feto, e este o absorveu por inteiro. Eliminou, assim, a contaminação do organismo materno, que pôde gerar outras seis crianças, todas perfeitamente sadias.

Nessa perspectiva, a existência da foto da “criança-tesouro” em museus, coleções e publicações passadas nunca deixou de ser importante para a família, que jamais se arrependeu da autorização dada a Smith numa gelada tarde de dezembro de 1971, na hora do banho de Tomoko. Sua obra mais evidente foi a mais trabalhosa e frustrante se sua carreira, já consagrado como fotógrafo se extrema qualidade e profissionalismo, Eugene tentara fazer com que algum editor se interessasse pelo livro caótico que carregava debaixo do braço e que era seu testamento pessoal sobre a condição humana somado à sua visão complexa da narrativa fotográfica.

Referências:

A consciência fotográfica de W. Eugene Smith. Disponível em: < http://iphotochannel.com.br/fotopedia/a-consciencia-fotografica-de-w-eugene-smith>. Acesso em 07 de junho de 2017