Breve palavra sobre Guimarães Rosa

      i.        Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, cidadezinha de nome curioso, fundada por alemães, onde passou a infância. Desde cedo, já convivia com vaqueiros, andarilhos e pregadores ambulantes, narradores orais, por excelência, de lendas, mitos, canções e contos folclóricos. Na juventude, foi estudar na capital, Belo Horizonte, iniciando ali, os estudos em medicina. Formado, trabalhou como médico em outra cidade interiorana, Itaguara, por dois anos. Em 1930, alistou-se como médico voluntário nas tropas rebeldes de Getúlio Vargas, aderindo, posteriormente, em 1932, ao exército legalista, quando descobre o intento dos insurgentes: suprimir a nova legislação social. Tendo abandonado a profissão de médico pelas frustrações que a falta de recursos impingia à sua realização, iniciou a carreira de diplomata, servindo em vários países como cônsul. Numa dessas oportunidades, colaborou ativamente no abrigo e fuga de judeus perseguidos pelos nazistas.

    ii.        Tais experiências e vivências, segundo ele, foram se estabelecendo em seu destino, na forma de um estranho paradoxo, “Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte…” (in LORENZ, 1973, p. 323). Tal paradoxo teve uma importância essencial na constituição íntima de sua personalidade, reaparecendo de forma soberba em sua inventividade ficcional como seu mais substancial leitmotiv.

   iii.        É fundamental que tenhamos em conta, acima de tudo, que Guimarães Rosa compreende a literatura como seu compromisso essencial com o homem e, neste sentido, não a separa da vida. Sobre o papel do escritor, ele afirma: “Sua missão […]: é o próprio homem.” (In LORENZ, 1973, p. 318) e, em outro momento, diz: “[…] é impossível separar minha biografia de minha obra.” (In LORENZ, 1973, p. 322) e “[…] a linguagem e a vida são uma coisa só” (in LORENZ, 1973, p. 339). Atentemos com mais vagar esse compromisso de Rosa como escritor,

[…] penso desta forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem ou chegam a fazê-lo, quando é demasiado tarde. Por isso tudo é muito simples para mim e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa. Veja como o meu credo é simples. Mas quero ainda ressaltar que credo e poética são uma mesma coisa. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escritores; esta é apenas uma maldita invenção dos cientistas, que querem fazer deles duas pessoas totalmente distintas. (…). A vida deve fazer justiça à obra, e a obra à vida. Um escritor que não se atém a esta regra não vale nada, nem como homem nem como escritor. Ele está face a face com o infinito e é responsável perante o homem e perante a si mesmo. (…) [este é o] meu compromisso do coração, e que considero o maior compromisso possível, o mais importante, o mais humano e acima de tudo o único sincero. Outras regras que não sejam este credo, esta poética e este compromisso, não existem para mim, não as reconheço. Estas são as leis da minha vida, de meu trabalho, de minha responsabilidade. A elas me sinto obrigado, por elas me guio, para elas vivo (in LORENZ, 1973, 330).

   iv.        Ao entrançar linguagem e vida, Rosa demarca também o ponto de partida de onde brota a sua literatura. Ter nascido e convivido na ambiência sertaneja, estabeleceu o itinerário fundante das temáticas mais significativas que sua obra revela. Ser fundamentalmente um homem do sertão fez de Rosa um escritor que, primeiramente, dá voz àqueles que, sobretudo em sua infância, mas ao longo de toda a sua existência, mais lhe deram lições sobre o essencial da vida e do viver: o homem sertanejo,

Gosto de pensar cavalgando, na fazenda, no sertão; e quando algo não me fica claro, não vou conversar com algum douto professor, e sim com alguns dos velhos vaqueiros de Minas Gerais, que são todos homens atilados. Quando volto para junto deles, sinto-me vaqueiro novamente, se é que alguém pode deixar de sê-lo (in LORENZ, 1973, p. 336).

No diálogo estabelecido com Günther W. Lorenz, quando perguntado sobre a presença do tema “homem do sertão” em sua obra, ele declara:

[…] sou antes de mais nada este ‘homem do sertão’; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito tão firmemente (…), que ele, este ‘homem do sertão’, está presente [em minha obra] como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa (in LORENZ, 1973, p. 321).

v.        Desta forma, a criação de seus personagens, invariavelmente, tem como fonte de inspiração, as figuras reais do sertão, que ele conheceu e com quem conviveu, detentoras de uma sabedoria ancestral para o bom aconselhamento e depositárias da memória mítica e fabulatória sertaneja, “Minhas personagens, que são sempre um pouco de mim mesmo, um pouco muito, não devem ser, não podem ser intelectuais pois isso diminuiria sua humanidade”  (in LORENZ, p. 350).

 vi.        A primeira obra de Guimarães Rosa foi um conjunto de poemas intituladoMagma, com o qual ele concorreu num concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras, em 1936. O parecer do avaliador, o poeta Guilherme de Almeida, foi contundente, não deixando possibilidade de existência de uma segunda colocação, dada a grandiosidade da lírica rosiana. No entanto, apesar de ter sido laureada com o primeiro prêmio, Rosa jamais publicou essa obra em vida, deixando, inclusive, recomendações a seus familiares que não o fizesse. Tal pedido foi assegurado até o ano de 1997, quandoMagma veio a ser publicada, com a autorização de sua filha Vilma Guimarães Rosa, detentora dos direitos autorais do pai. Segundo o nosso ponto de vista, o fato de Rosa não ter desejado publicar a sua primeira e única obra de poesia está fundamentado em seu desejo de realizar uma poética que tivesse uma permanência, bela e profunda, nos interstícios de sua épica, e não na forma patentemente lírica, como ele mesmo afirmou em duas ocasiões diversas, “meu epos é poesia” (ROSA, 2003, p. 148),

[…] descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas (in LORENZ, 1973, p. 326).

  vii.        O modo ímpar de burilar as palavras fez com que atribuíssem a Rosa o título de revolucionário da língua, recusado terminantemente por ele, posto que, segundo seu ponto de vista, tal epíteto servia apenas para causar-lhe mal-estar entre seus pares literatos, quanto ao “não” engajamento político de sua poética. Ironizando o sentido do termo revolucionário, Rosa prefere ser chamado de reacionário da língua, já que sua preocupação fundamental é com a construção do vocábulo a partir de sua gênese, “Cada palavra é, segundo a sua essência, um poema” (ROSA in LORENZ, 1973, p. 346). Nesta busca obsessiva, Rosa não consegue conter em apresentar-se como um demiurgo em relação às palavras, já que busca criá-las à sua imagem e semelhança na tradução que realiza do universo do mundo vivido do sertão,

Não sou um revolucionário da língua. Quem afirme isto não tem qualquer sentido da língua, pois julga segundo as aparências. Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem (in LORENZ, 1973, p. 341).

viii.        Há também a inserção, em seu estilo narrativo, das idiossincrasias dialetais de seu berço sertanejo, cujo linguajar ainda resguarda a marca da originalidade e, por este motivo, está prenhe de uma sabedoria ancestral e mítica. Por outro lado, por ter sido um escritor ambientado na moderna literatura brasileira, não se furtou ao experimentalismo linguístico, característico dos escritores e poetas de seu tempo, porém, sem tirar os olhos de uma tradição idiomática vinculada às raízes da língua portuguesa, usada pelos sábios e poetas medievais. Obviamente, é preciso incluir neste rol alquímico-literário, a condição de poliglota[1] do escritor mineiro, que o permitia encontrar soluções poético-narrativas inusitadas para criações metafóricas mais candentes.

ix.        Por fim, faz-se necessário ressaltar também a sua disciplina intransigente e obsessiva na busca da construção de uma linguagem que, de fato, se consubstanciasse no veículo de uma verdade a ser revelada; numa obra que perdurasse para além de seu tempo e de seu espaço, enfim, numa linguagem que fosse portadora da voz do infinito,

Apenas sou incorrigivelmente pelo melhorar e aperfeiçoar, sem descanso, em ação repartida, dorida, feroz, sem cessar, até ao último momento, a todo custo. Faço isso com meus livros. Neles, não há nem um momento de inércia. Nenhuma preguiça! Tudo é retrabalhado, repensado, calculado, rezado, refiltrado, refervido, recongelado, descongelado, purgado e reengrossado, outra vez filtrado. (…). Acho que a gente tem de fazer sempre assim. Aprendi a desconfiar de mim mesmo. Quando uma página me entusiasma, e vem a vaidade de a achar boa, eu a guardo por uns dias, depois retomo-as, massinceramente afirmado a mim mesmo: – Vamos ver por que é que esta página não presta! E, só então, por incrível que pareça, é que os erros e defeitos começam a surgir, a pular-me diante dos olhos. Vale a pena, dar tanto? Vale. A gente tem de escrever para 700 anos. Para o Juízo Final. Nenhum esforço suplementar fica perdido (ROSA, 2003a, p. 234-5).


[1] Segundo Lorenz, “Por um artigo publicado no Brasil em 1967, após a morte de Guimarães Rosa, (…) ele falava português, espanhol, francês, inglês, alemão e italiano. Além disso, possuía conhecimentos suficientes para ler livros em latim, grego clássico, grego moderno, sueco, dinamarquês, servo-croata, russo, húngaro, persa, chinês, japonês, hindu, árabe e malaio” (1973, p. 339).

Escritor, professor na UFVJM, autor de Le mot juste (romance, Orobó Edições, 2011) e Paul Ricoeur e as faces da ideologia (ensaio, Editora da UFG, 2008). Editor de Palavoraz – literatura e afins. Colunista na Germina – Revista de Literatura e Arte e despacha no blogue Le mot juste – literatura e afins.
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