Caetano Veloso: a trajetória de uma vida filtrada pela mídia

Quase não tínhamos livros em casa
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo

(Caetano Veloso)

Caetano Emanuel Viana Telles Veloso, nascido em 07 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, a 73 quilômetros de Salvador, Caetano Veloso, como ficou conhecido por todo o país, já sabia desde pequeno o que queria ser na vida e construiu seu conhecimento literário por conta própria, buscando ler tudo o que podia, conforme suas próprias palavras:

…não havia livros na minha casa. Aquela frase da minha canção ‘Livros’ é quase um desabafo, um lamento autobiográfico. Nossa casa era imensa, um sobradão daqueles enormes, antigos do recôncavo da Bahia, (…), mas não tinha uma biblioteca. Nem sequer uma estante com livros. Mas havia livros em minha casa. Uns livros fugazes que sempre estavam nas mãos de minha mãe – que era a única pessoa que eu via dentro de casa lendo. (VELOSO in FERRAZ, 2001, p.43)

Com pouco mais de quatro anos de idade, o irmão de Maria Bethânia já compunha A Tua Presença Morena, revelando seus dotes artísticos. Mas sua trajetória musical começou, realmente, quando se mudou com a família para Salvador no início dos anos 60. A capital baiana vivia um momento de efervescência cultural, e Caetano aproveitou sua paixão pela música e pela bossa nova de João Gilberto e começou a tocar em barzinhos da cidade.

Em 1963, ingressa na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia e conhece o parceiro Gilberto Gil. Do fruto dessa amizade surgiram composições como No dia em que eu vim-me embora, Panis et Circenses, SãoJoão, Xangô Menino, Haiti, Cinema Novo, Dadá, entre outras.Nesse período, também conheceu Gal Costa e Tom Zé, futuros componentes da Tropicália. Em 1965 abandona a faculdade e acompanha sua irmã Bethânia, que foi chamada ao Rio para substituir a cantora Nara Leão no show “Opinião”, sucesso naquele ano. No mesmo ano, Bethânia gravou É de Manhã, de Caetano, e a música marcou sua estreia com um compacto simples.

Em 1966, a “Revista Civilização”, no seu número sete, publica um depoimento de Caetano Veloso, em que ele fala da necessidade da “retomada da linha evolutiva da música popular brasileira” a partir das lições mais fundamentais da bossa nova. É uma das primeiras manifestações teóricas do artista-crítico, pensador da arte, Caetano.

Estreando na era dos festivais, que sacudiram a MPB nos anos 60, ele concorre, em São Paulo, no Festival Nacional da Música Popular, da TV Excelsior, com “Boa palavra”. A canção, defendida por Maria Odette.  Classifica-se em quinto lugar.

O grande poeta da canção começa a ser reconhecido como tal. A sua “Um dia” recebe o prêmio de melhor letra, no 2º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de São Paulo.

Em novembro, Caetano promove disputas nas quais os artistas participantes exibem seus conhecimentos de música popular; passa a se tornar mais conhecido. Compõe a trilha do filme “Proezas de Satanás na terra do leva-e-traz” de Paulo Gil Soares. Contratado pela Philips, gravadora pela qual saíram todos os seus discos daquele momento em diante, Caetano lançou seu LP de estreia “Domingo“, dividido com Gal Costa; do repertório, constam “Coração vagabundo” e “Avarandado” entre outras.

A apresentação de sua marcha “Alegria, alegria“, ao som das guitarras elétricas do conjunto pop argentino Beat Boys, enlouquece o 3º FMPB, da TV Record, juntamente com a cantiga de capoeira “Domingo no parque” de Gilberto Gil, com acompanhamento d’Os Mutantes. As duas canções se classificam, respectivamente, em quarto e segundo lugares.

O Brasil vivia momentos de repressão por parte do governo militar. Com a liberdade de expressão proibida, os artistas tentavam, a todo custo, quebrar as barreiras da censura. Caetano era um dos revoltados com a situação pela qual passava o país. Junto com Gil, lançou o movimento culturalTropicalista na tentativa de expressar seu inconformismo. Através do deboche, da irreverência e da improvisação, o tropicalismo revoluciona a MPB, utilizando-se de elementos estrangeiros fundidos com a cultura brasileira (a filosofia antropofágica do modernista Oswald de Andrade) e baseando-se na contracultura. O movimento foi lançado no Festival de MPB da TV Record, em 1967, com as músicas Alegria, Alegria, de Caetano, e Domingo no Parque, de Gil, que se tornaram hinos da juventude da época. Em 1968, no auge do movimento, Caetano lançou o álbum Tropicália, junto com Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé.

A parceria com Gilberto Gil estendeu-se da música e foi parar na vida dos dois artistas. O choque de ideias com a ditadura militar ocasionou a prisão dos dois em São Paulo, e impôs o exílio na Inglaterra, em 1968. Entretanto, a barreira geográfica não impediu que os protestos continuassem e, de Londres, Caetano enviasse artigos para o jornal O Pasquim e músicas para diversos intérpretes como Gal Costa, Maria Bethânia, Elis Regina, Erasmo e Roberto Carlos.

Caetano retornou ao Brasil em 1972 e passou por um momento de alta criatividade. Até o final dos anos 70, muitos sucessos como Tigresa, Leãozinho, Odara e Sampa foram lançados. O encontro com os antigos companheiros Gal, Bethânia e Gil resultou, em 1976, na formação do grupo “Doces Bárbaros”. O show excursionou por São Paulo e outras dez cidades brasileiras, revivendo antigos sucessos e, resultando na gravação de um LP. Em 1993, a parceria com Gilberto Gil foi retomada e juntos lançaram o disco “Tropicália 2”.

Multimídia, Caetano também se arriscou em outras formas de arte. Em 1986 comandou, ao lado de Chico Buarque, o programa de televisão da Rede Globo “Chico & Caetano”, onde cantavam e traziam convidados.

Essa experiência na televisão ajudou a quebrar a imagem de que os dois músicos não se davam bem. No cinema, ele dirigiu o filme O Cinema Falado e outros, como escritor, sua estreia foiVerdade Tropical, no qual faz um relato pessoal sobre os principais aspectos e acontecimentos relacionados ao movimento tropicalista.

Apesar de intelectuais cultuarem Caetano como ícone da Música Popular Brasileira, ter também uma diversidade de público e de suas aparições na mídia sempre serem mostradas como um grande espetáculo, as músicas mais conhecidas pelo público principalmente ouvintes da mídia radiofônica na atualidade são composições de outros artistas interpretadas por ele, como por exemplo, a canção “Sozinho” de Peninha que foi um grande sucesso por ser tema da novela Global “Suave Veneno”. Gravada no disco “Prenda Minha” de 1999, a canção ajudou a alavancar as vendas do CD que chegaram a um milhão de cópias.

Orfeu, filme de 2000 com direção de Cacá Diegues, ganhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora (Caetano Veloso), no Grande Prêmio Cinema Brasil. A canção, de autoria e interpretação de Caetano Veloso “Sou você” rendeu-lhe o prêmio António Carlos Jobim, mas não obteve êxito com a mídia.

Outra canção interpretada por Caetano que foi muito executada nas rádios em 2003, “Você não me ensinou a te esquecer” dos compositores Bruno Mattos e Odair José foi tema dos personagens principais Leléu e Lisbela do filme “Lisbela e o prisioneiro”  com direção de Guel Arraes.

Ainda em 2003, gravou a música “Burn it Blue” para o filme “Frida” da diretora Julie Taymor e foi indicado ao Oscar de melhor canção feita para um filme.

Em 2004, lançou o CD “A Foreign Sound” com releituras de canções em inglês, de clássicos de Cole Porter, Paul Anka, Elvis Presley,  entre outros, evidenciando “Come as You Are“,do Nirvana e“Feelings” de Morris Albert, uma das canções mais gravadas de todos os tempos.

Ao lado de Milton Nascimento em 2005 compôs a trilha sonora do filme “O Coronel E O Lobisomem”.

Participou de uma breve turnê ao lado de Milton Nascimento com o show da trilha. Em 2006 lança o elogiado álbum “Cê”, fruto de sua experimentação com o rock e o underground.Em 2007, lança o CD e DVD “Cê – Multishow – Ao Vivo”.

Com o projeto “Obra Em Progresso” e um blog homônimo onde os internautas opinavam e discutiam com o artista sobre a produção do seu próximo CD inovou mais uma vez em 2008.

No ano de 2009 lança o álbum “Zii E Zie, Segundo Disco” com a Banda Cê no qual mistura ritmos batizados por ele como “transambas” e “transrock”. Neste ano é lançado o documentário “Coração Vagabundo”, que mostra a intimidade de Caetano durante a turnê de “A Foreing Sound”com direção de Fernando Grostein Andrade.

Em 2010 inicia uma turnê com a cantora Maria Gadú, lança o CD e DVD “Zii E Zie – MTV – Ao Vivo”e dirige a trilha sonora do filme “O Bem Amado”.

No próximo ano (2011) lança CD e DVD “Caetano E Maria Gadú – Multishow – Ao Vivo”. Ainda  produz e compõe as músicas do disco de Gal Costa, “Recanto”; criando de forma inédita, bases eletrônicas em todas as faixas.

Assina ao lado de Mauro Lima em 2012 a trilha sonora do filme “Reis E Ratos”, dirigido pelo próprio Mauro Lima. Lança o single “Reis E Ratos”. Dirige o show de Gal Costa,“Recanto”. Em dezembro desse ano também o  lançou o CD “Abraçaço” , produzido por seu filho Moreno Veloso e Pedro Sá. Considerado uma obra prima por muitos críticos, já recebeu o prêmio Multishow 2013 de melhor disco e melhor show.

Hoje, com mais de setenta anos, Caetano Veloso é um senhor grisalho e de cabelos aparados que, à primeira vista, em nada lembra aquele representante da geração hippie, porém como pudemos perceber com sua produção artística através dos anos, continua sendo contestador e inovador.

Referência:

FERRAZ, Eucanaã (org. e sel.) Sobre as Letras: Caetano Veloso. São Paulo:Companhia das Letras, 2003.

Liliane Scarpin S. Storniolo
Mestre em Comunicação pela UNIMAR, Licenciada em Letras pela USC. É professora da Unitins. Atua em pesquisa e desenvolve projetos nas áreas de linguística, educação e narrativa fílmica.