Cinderela: estereótipo feminino no contexto do casamento/amor romântico

 

Sabe-se que o surgimento do amor romântico se deu a partir do século XVIII, no Ocidente, passando a ser imprescindível para haver a união e consequentemente o casamento.Damasceno (2008) discorre que a partir do referido século esse quadro parece ter se modificado definitivamente, um novo ideal de casamento foi se estabelecendo, impondo aos cônjuges que se amem ou que pareçam se amar, e que tenham expectativas a respeito do amor romântico.

Isso se tornou algo tão sério e certo no Ocidente que ninguém duvida da dignidade do amor conjugal, cabendo a sociedade não aceitar e condenar alguém que se case por outros motivos.

O prazer e a felicidade amorosa não estavam previstos no contrato, já que o casamento “por amor” é um evento recente na história da humanidade, pois não muito tempo atrás, os pais escolhiam de forma sutil ou declaradamente, os cônjuges de seus filhos, de acordo com os interesses familiares, econômicos ou políticos (DAMASCENO, 2008, p.44).

Essa ideia de amor, que surgiu e se instalou nas mentes femininas, tem um quê de fantasia, de idealização, como nas histórias de contos de fadas, em que as noivas são princesas que passam por muitas dificuldades antes do casamento, mas que no final casam-se com um príncipe (homem perfeito) e, após essa união, vivem felizes para sempre. Existem vários contos de fadas clássicos que traduzem muito bem esse ideal coletivo (MELO, 2010).

Comecemos então pelo Conto da Gata Borralheira, a tão conhecida princesa Cinderela. A versão mais conhecida dessa história é ado escritor francês Charles Perrault, de 1697, que recuperou da tradição oral o referido conto popular (COELHO, 2003). Sociólogos, historiadores, literatos e pesquisadores, como Damasceno (2008) e Melo (2010), vêem na história de Cinderela muito mais do que uma simples trama romântica. Porque a trajetória da protagonista traduz uma espécie de arquétipo fundamental, traduzindo o anseio natural da psiquê feminina da contemporaneidade: a de ser reconhecida como especial, encontrar seu príncipe encantado e de ser feliz para sempre. Ou seja, representa um ideal feminino de que o casamento é uma relação muito especial e perfeita, que após concretizada pelo baile encantado não haverá  desafios, problemas, só terá um final que traduzirá tudo: “e foram felizes para sempre…”.

O conto da Cinderela mostra uma moça simples, boa de coração, lutando dia após dia com aquela esperança no peito de que será feliz. Essa ideia fica mais viva depois do encontro com o príncipe num baile dado em seu castelo – como o príncipe é lindo para Cinderela! Instantaneamente ele se apaixona por ela e ela por ele, tudo é tão perfeito!

 

 

No baile só a paixão permeia aquelas mentes e corações. Mas quando toca o sino da meia noite, Cinderela lembra que o feitiço se quebrará e que ficaria sem usar aquelas lindas roupas, a verdade seria mostrada para o príncipe,ele não poderia descobrir que ela era uma moça simples, que vivia na casa de sua madrasta limpando o chão, sem dotes, ele não iria aceitá-la se soubesse a verdade!

Então ela corre, mas sem perceber deixa uma pista pelo caminho e ele vai atrás dela através dessa pista: o sapatinho de cristal!

 

 

Por fim ele a encontra, a única mulher em que o sapatinho serviu. Para surpresa dela, ele nem cogita o fato de ela não ter as mesmas condições que ele, o amor supera tudo! Eles se casam numa cerimônia linda e perfeita e a única coisa que vemos no final do conto é uma festa de casamento, com todos muitos felizes e sorridentes e, por fim, a última frase “e foram felizes para sempre” que nos sugere que a partir dali eles tiveram a felicidade perfeita infinita.

Vejamos as possíveis influências do Conto da Gata Borralheira sobre o estereótipo feminino do casamento (ou seria o estereótipo feminino do casamento que influenciou o conto da Gata Borralheira?), que de acordo MELO (2010), podem ser percebidos nos seguintes aspectos:

  •  A mulher tem em seu âmago que um dia encontrará um homem perfeito, o príncipe encantado, que a tirará da posição de gata borralheira. Esperou a vida inteira por ele, sofreu de algum modo nessa espera, com a certeza de que ele apareceria para salvá-la da solidão ou de qualquer problema;
  • Ela é muito especial! Dentre tantas ela foi “a escolhida” no baile. O destino estava tão bem traçado que foi a única de toda aquela cidade em que o sapatinho serviu (que número de sapato era esse que ninguém tinha?);

 

 

  • Em seguida à conquista do príncipe encantado, alimentará a expectativa da cerimônia de casamento, quando se tornará princesa para sempre, linda, especial e com toda a atenção voltada para ela;
  • Não se ouve e não se fala o que se espera da vida conjugal, só se pensa e só se fala na grande cerimônia de casamento;

 

 

  • Após a cerimônia de casamento, esperará encontrar um matrimônio no qual será feliz para sempre. De acordo com Brasil (2009), muitas mulheres aprendem que a realização do casamento terá lhes assegurado a felicidade eterna, assim como ocorria nos contos de fadas.

Nos contos de fadas, o final da história costuma ser o casamento, e é dito no conto que através deste se dá o final feliz, mas não é mostrado o que aconteceu depois. E assim, na realidade, levadas por esta fantasia, as mulheres creem que através da realização da cerimônia/festa de casamento, viverão felizes para sempre com seu príncipe encantado/companheiro, e não questionam sobre o que há por vir e o que precisará ser feito para continuar sendo feliz (MELO, 2010).

 

 

Carneiro (1998) discorre que os ideais do amor romântico no casamento contemporâneo tendem a se fragmentar pela pressão da emancipação da mulher e da autonomia feminina. Além disso, é importante pontuar que essa emancipação feminina junto às novas configurações de casamento da contemporaneidade parecem não ter sido suficiente para modificar o estereótipo feminino de casamento. Isso porque o imaginário feminino carrega a crença no casamento perfeito/amor romântico sem problemas, muito bem reproduzido também em filmes, novelas e músicas atuais, que continuam a propagar esta forma de pensamento.

Não é comum vermos filmes, novelas, contos em que a mulher tenha um final triunfante e que sua felicidade final seja realizando grandes feitos. O estereótipo é sempre o da Cinderela, a mulher sofrida que se libertou do sofrimento através do casamento. Será que a maior felicidade para uma mulher é somente isso? (Num mundo machista era! Era ou é?)

E uma dúvida que não quer calar: E viveram felizes para sempre após o casamento por quê?

Só porque se casaram? Por que os dois eram perfeitos um com o outro? Por que nunca houve discórdia entre os dois? Por que nenhum tinha diferenças que irritavam um ao outro? Por que o fato de se unir a alguém resolve todos os problemas de tristeza, traumas, complexos e outros? Por que casamento é o que  proporciona felicidade infinita? Por que casamento é o que falta para uma mulher eliminar todos seus problemas e proporcionar uma saúde psíquica perfeita?

Somos levadas (me incluo nessa, claro!) por esta crença do amor perfeito e infinito. Um amor perfeito que abrangeria: nao haver diferenças, dificuldades e problemas. Queremos um par perfeito, alguém que nos arranque do marasmo, dos dias solitários e vazios. Mas esse alguém não existe! Um bom conto da Cinderela contemporâneo deveria ser a Princesa Cinderela  que se transforma na Gata Borralheira.

 

 

Porque após o casamento, ao se deparar com uma realidade diferente de tudo aquilo que ela sempre acreditou/idealizou (de modo não consciente) despertará que antes sim era feliz e agora só lhe resta amadurecer, se adaptar a uma nova realidade, limpar o chão, lavar louça, trabalhar e mais um monte de responsabilidade que ela não tinha cogitado numa união. E após se deparar com esta realidade, se decepciona e sofre com a realidade, NÃO PORQUE ELA SEJA NECESSARIAMENTE RUIM! Mas sim porque não é igual ao que sonhou, a sua expectativa, ao seu estereótipo de casamento da Cinderela.

Então, a Cinderela no mundo real, já casada, encontra aquelas amigas que ainda não casaram, e ao ser perguntada sobre seu matrimônio, responde: “ – Nunca estive tão feliz!”, e por dentro pensa “- Ninguém pode saber que não estou feliz com a minha união, só posso ser casada se tiver amor e não enxergo mais aquele amor romântico “, e pensa mais um pouco “- Será que é esse mesmo meu príncipe encantado? Será que eu me casei com o certo? Não encontro aquela felicidade prometida! Acho que preciso me separar para ver se encontro”.

E assim segue até descobrir uma forma mais funcional de casamento e/ou de união, com ideias compatíveis com o mundo real.

 

 

Referências:

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1991.

CARNEIRO, Terezinha Feres. Casamento contemporâneo: o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 11, n. 2, 1998.

CARRASCO, Walcyr. Contos de Perrault: Cinderela e outras histórias. São Paulo: Manole, 2009.

BRASIL, Francisca Patrícia Pompeu. Contos de fadas e casamento na prosa romântica de José de Alencar. Dissertação (Mestrado em Letras), 2007. Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 112 p.

DAMASCENO, Elenise Roldan Melgarejo. Para além dos contos de fadas: o ideal e o real no pensamento das mulheres sobre o casamento. Dissertação (Mestrado em Psicologia), 2008. Universidade Estadual Paulista, Assis, 120 p.

MELO, Daniely Damasceno de. Cinderela: o símbolo arquetípico investigado entre as mulheres casadas de Palmas/TO./ Daniely Damasceno de Melo. – Palmas, 2010.