Clarice Lispector: palavras em labirinto no doce e indecifrável enigma de ser mulher

” Eu tenho medos bobos e coragens absurdas” (Clarice Lispector)

Fonte: dosesdeclaricelispector.blogspot.com

Clarice Lispector amava metáforas insólitas. Por isso, dado o caráter incomum, excêntrico e inigualável da sua obra, ninguém melhor do que essa escritora que nasceu na Ucrânia, mas que viveu e se vestiu de cheiros, sensações, liberdade e essências tão brasileiras, para dialogar polifonicamente conosco visando nos conduzir à decifração do Imprevisível, Sedutor e Divino Universo Feminino.

Penetrar na essência da alma de uma mulher se assemelha a desafiar o Oráculo, como nas memoráveis tragédias gregas, em busca de uma resposta sábia e predestinadamente infalível. Condiciona-nos à ideia de percorrer um labirinto com várias portas de entrada, como o palácio real do Conto da Ilha Desconhecida de José Saramago. Porém, nem sempre se sabe ou nem sempre se quer encontrar a porta de saída.

Mas, partindo do pressuposto de que o fogo da magia da vida é fomentado pela necessária brasa viva dos desafios diários e inevitáveis, Clarice Lispector, por meio de seus contos, seduz-nos com sua voz literária para penetrar no insondável psicologismo feminino.

Concordemos que uma mulher consegue ser ao mesmo tempo Única e Diversa. Diante dessa paradoxal unidade múltipla, Clarice divaga sobre a relevância de ser mulher, como no conto O primeiro Beijo.

“Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua. Ele a havia beijado.

[…]

Ele se tornara homem.”

Nesse trecho, a autora categoriza a MULHER como gênese do líquido vivificador e potencializador da existência. Afinal, somos nós quem aceitamos, geramos e damos sentido à vida. Destarte, mesmo uma mulher petrificada, em uma versão feminina do Gigante Adamastor Camoniano, jamais  perderá a capacidade de ser a ORIGEM, como os olhos de água que brotam da terra e lacrimejam formando rios e oceanos.

A Mulher personifica a subjetividade. Sendo assim, na tentativa de atingir todos esses “EUS”, Clarice atenua e intensifica a inocência feminina no conto Felicidade Clandestina.

“ Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife.

[…]

Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
[…]

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. “

Nesse excerto da obra, a menina que vivencia sua felicidade clandestina com a leitura do livro “Reinações de Narizinho”, conduz-nos à primazia da ingenuidade e encantamento esperançoso da Mulher-Menina. Nessa fase da vida, talvez moldadas pelo Romantismo tão inerente e avassalador, os sonhos femininos sejam embalados pela sinfonia da orquestra que rege a descoberta de O GRANDE AMOR que parece tão certo, tão nosso e tão inevitável. Tão essencial que as relações femininas pressupõem eternos encontros com amantes, ainda que seja um livro. Concebe-se que relevante na infância é AMAR.

Seguindo o ciclo da vida, a menina amadurece. Surge, então, um discurso feminino que destoa da maestria regencial da canção romântica da infância. O AMOR mostra outra faceta como uma nota perdida que insiste em ser tocada na previsível música da vida, expressa no conto AMOR.

“No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida.”

Essa citação nos faz refletir acerca do irremediável encontro com a realidade, crua, objetiva e, por vezes, limitadora e implacável

“uma precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto”

Com a chegada da maturidade, Clarice pontua que a Mulher se sente como uma refém dos moldes preconizados pela sociedade. Logo, casar, ter filhos, constituir família extrapola o desejo, transformando-se em obrigação solitária

Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

Se a relação com a incômoda, mas confortável, vida rotineira se acentua, a Mulher passa a viver sua Via Crucis interminável. Inicialmente, mutilam-se as convicções, consideração exemplificada no Conto À procura de uma dignidade

Então a senhora pensou sem nada concluir que só para ela é que se havia tornado impossível achar a saída. A Srª Xavier estava apenas um pouco espantada e ao mesmo tempo habituada. Na certa, cada um tinha o próprio caminho a percorrer interminavelmente, fazendo isto parte do destino, no qual ela não sabia se acreditava ou não.

Posteriormente, se não houver atitude para mudança de postura, destroem-se todos os sonhos e esperanças

“Foi então que a Srª Jorge B. Xavier bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar as vísceras e interrompeu sua vida com uma mudez estraçalhante: tem! que! haver! uma! porta! de saííííííída!”

Finalmente, a Mulher se mortifica nos abismos da complexidade da alma, como no conto Feliz Aniversário

“E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: — parta o bolo, vovó!

E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.”

Todas as postulações, acima mencionadas, permitem-nos ratificar que os Contos de Clarice são eternos convites ao conhecimento das regiões mais profundas da mente das personagens para sondar complexos mecanismos psicológicos. Então, cabe a cada um de nós, leitores, interpretarmos sua obra de acordo com nossas vivências e leituras alicerçadas nas experiências da vida.

Diante do exposto, analisar Clarice Lispector instiga a finalizar esse texto de forma metafórica. Assevera-se, assim, que cada MULHER, em especial, é um enigma a ser decifrado. Contudo, aludindo à obra Édipo Rei de Sófocles, o segredo desse enigma está conosco. Nós somos o enigma e a Esfinge em um único ser.

Sendo assim, cabe a nós, MULHERES, com a força forte mas tênue, intuitiva mas sábia, definitiva mas emocional que nos torna tão singulares, tecermos o enredo de nossas histórias. Afinal, divinamente, nascemos com o dom de gerar vidas, recriar e reinventar cada verso da eterna poesia do VIVER e SER MULHER.

Os Contos de Clarice Lispector citados nesta análise, estão disponíveis no endereço eletrônicohttp://contosdocovil.wordpress.com.

Elienai Ferreira de Oliveira
Mestre em Letras, com ênfase em Linguística. Professora de Comunicação e Expressão do CEULP/ULBRA. Amante das Letras e da Literatura. Colaboradora do (En)Cena.