Das pedras e dos calos, um avô com nome de rocha

Foto: Jackson Gomes

Eu nunca fui muito contente com o título de “pedreiro” que davam a ele. Sempre que pensei que “construtor” ficaria muito melhor. Entretanto, parei para pensar sobre os dois e lembrei que a história do primeiro merecia um detalhamento, talvez até a chegar ao mesmo nível poético do segundo ou a contê-lo.

Se alguém me perguntar da minha infância em relação a ele, a imagem é a mesma: ele entendia o trabalho de uma forma muito diferente de “labor”; não como “prazer’, mas como “missão”. Ele sempre estava trabalhando na construção de alguma coisa. Como eu gostava de estar perto dele naqueles momentos. A bem da verdade, não tinha poesia naquela hora, só tinha inocência. Simplesmente uma criança olhando o adulto e querendo chamar a atenção. Não ligava para os calos de quando carregava um carrinho-de-mão cheio de tijolos ou de areia. A sandália havaiana que quebrava no meio do caminho, por lá ficava (e depois vinha a bronca da mãe por mais um calçado que não voltava para casa).

Suas atividades começavam sempre cedo. Não me lembro de ver cara feia por causa de dificuldades. Quando não dava para chegar à pé, a bicicleta “barra circular”, azul desde a última reforma, estava pronta para tomar as ruas, quase que sem limites de distância. Saía para resolver as coisas e logo voltava para o trabalho pesado. O café ele já tinha tomado. O leite, sempre “pelando”, como era do seu gosto. Logo juntava as ferramentas. A colher, enxada, pá, marreta, régua (fita métrica), picareta, cegueta, “labanca” (alavanca), o prumo (que nem sempre tinha o “r”), martelo e, como não podia faltar, o boné.

Durante o trabalho no alicerce eu entendia porque se chamava “pedreiro”. Lidar com pedras e quebrá-las, colocando-as não muito cuidadosamente em uma abertura no chão cuja distribuição definia paredes ou muros, era a forma usual de iniciar uma construção há cerca de 20 a 30 anos. Já disse que não ligava para os calos. O importante era ver o sorriso dele, satisfeito com meu esforço em carregar a maior quantidade que conseguia colocar no carrinho e transportar de um lugar para outro, sempre com pressa. Acho que ele pensava: até quando? Até quando vai lidar com isso dessa forma? Até quando vai durar a pressa? O que me deixava realmente encabulado era como aquilo que começava do chão em algumas semanas já ganhava forma e, depois, cobertura. Iniciava com as pedras em buracos no chão, prosseguia com ferro, tijolos, areia e cimento, ganhava cobertura com madeira e telha.

Não era sempre assim. Às vezes, uma construção precisava iniciar de forma diferente. Lembro das vezes em que a construção começava com uma destruição. Na verdade, estas davam mais trabalho ainda. Era preciso usar a picareta para quebrar o reboco. Tirar os tijolos com muito cuidado era uma prioridade, principalmente para poderem ser reutilizados. Logo a mão estava tomada de pó de cimento e, no meu caso, calo e sangue. No caso dele, calos sobre calos se destacavam, mas traziam a proteção para que ele continuasse ali o dia inteiro, enquanto eu parava com muita frequência, até mesmo porque tinha a bola, o pique-esconde, o “salva latinha” e o pé-de-manga. Voltando à construção, era por isso que dava mais trabalho: era uma reconstrução. Era nítido que ele não era seu tipo de trabalho preferido, mas ao final de cada dia, antes mesmo do resultado final, ao guardar as ferramentas, eu via sempre aquela face com um contentamento indescritível e o início da preparação para o dia seguinte.

Foto: Jackson Gomes

Ele continuou por muitos anos na mesma luta. Eu, de servente-mirim, segui pelo caminho da construção de sonhos e ideias com números e palavras. Eu sei que ele não entendia quando eu tentava explicar como era o meu trabalho, mas aquele semblante contente me lembrava daquele de quando me observava empurrando o carrinho cheio de pedras ou de areia. Hoje, e já há algum tempo, o dia seguinte não chegou, mas o que o pedreiro com nome de rocha construiu ficou. Não ficou apenas nas pedras que ele transformou como o joalheiro transforma a pedra bruta, embora sem o mesmo reconhecimento e luxo. Não ficou nas ferramentas que por tantos anos o acompanharam e foram companheiras diárias. Como todo bom construtor, o que ele criou ficou, e está, na alma e no fundo do peito.

 

Graduação em Sistemas de Informação pelo CEULP/ULBRA e mestrado em Engenharia da Computação pela UFRN. Professor nos cursos Sistemas de Informação e Ciências da Computação do CEULP/ULBRA.
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