Diego Maradona

Don Diego Armando Maradona, um gigante entre os gigantes

É fato que o futebol mundial teve e sempre terá muitos ídolos. Mas os genuínos astros do esporte, aqueles personagens que surgem como joias raras, e que possuem a capacidade ímpar de revolucionar o esporte tornando-se deuses, estes, são verdadeiramente escassos.

Diego Armando Maradona é uma destas joias raras que aparecerem uma vez em décadas. Um craque que possuía talento invejável na condução da bola, aliado a sua força física, velocidade estupenda e domínio impressionante da posse da pelota.

Argentino de nascimento, Maradona é reconhecido e cultuado pelo mundo como um dos maiores talentos da história do futebol. Uma de suas principais características e maiores virtudes era a garra, a fibra com que entrava em campo. Pode-se dizer que é a personificação perfeita do mais alto padrão de estilo de jogo argentino.

Maradona possui uma trajetória um tanto quanto messiânica em sua vida profissional e pessoal, e em função disto acabou por tornar-se não apenas um jogador de destaque, mas um dos ícones argentinos de todos os tempos, comparado em popularidade com figuras históricas como Eva Peron e Carlos Gardel. Como um herói de revistas em quadrinhos vagava do fundo do poço ao céu, numa vida repleta de altos e baixos.

Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960, e fora revelado ao futebol pela Asociación Atlética Argentinos Juniors, equipe pequena, porém tradicional da capital Buenos Aires. Conta a história que seu talento quando criança era tão impressionante que pessoas vinham vê-lo jogar das mais variadas partes do subúrbio de onde morava.

Pela projeção que deu aos Argentinos foi rapidamente sondado pelo Boca Juniors, uma das mais tradicionais equipes da Argentina e do futebol mundial, e mais: seu time de coração, o qual defenderia por muitos anos. O Argentinos Juniors mais tarde, em reconhecimento ao grande craque, acabou por renomear seu estádio para Diego Armando Maradona.

Aliado as habilidades futebolísticas incríveis do jogador e a “passion” com que atuava, o futebol de Maradona foi se potencializando o que o levou a performances cada vez mais destacadas.

Aos 17 anos de idade Maradona já era convocado pela primeira vez para a seleção nacional de futebol e, nesta época, sua fama já se espalhava para além das fronteiras argentinas. Atuou dentro das quatro linhas como meio campista e atacante, na formação das jogadas e conclusões ao gol. Maradona possuía aptidão técnica espantosa, sendo um atleta muito diferenciado frente aos demais de sua época.

Quando apareceu para o futebol a Argentina vivia um momento especial no que se refere ao esporte, sagrando-se inclusive campeã mundial na Copa de 1978. Nesta oportunidade, o técnico da equipe era César Luis Menotti que não convocou “El Pibe de Oro” (O garoto de ouro) para o evento. Maradona viria a revelar depois que esta foi uma das maiores decepções de sua vida, uma vez que já brilhava como atleta apesar da precoce idade.

Talvez a principal característica de Maradona, aquilo que o diferenciou de fato dos demais, foi a sua incrível capacidade de arrancada aliado ao domínio de bola. Era como se a bola colasse em seus pés, assim ele poderia deferir velocidade espantosa para atacar os adversários.

Foi por várias oportunidades artilheiro de competições disputadas pelos clubes por onde passou, finalizando sua carreira com 365 gols apurados oficialmente.

O apogeu da carreira de Maradona ocorreu no ano de 1986. O jogador viria a se tornar a partir daí um dos imortais do futebol. Levou a seleção argentina à conquista do campeonato mundial do México. O contexto social e político na época eram conturbados para o país, que acabara de sair de uma guerra com a Inglaterra pela disputa da soberania do arquipélago das ilhas Malvinas, chamadas de Falklands pelos ingleses. Na ocasião houve cerca de 1.000 baixas militares, sendo dois terços deste montante de mortes argentinas (fonte:http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-foi-a-guerra-das-malvinas). A partida de maior destaque deste mundial não poderia ser outra senão justamente contra a seleção inglesa, e esta ocorreu durante as quartas de final da competição.

Após a Guerra das Malvinas esta seria a primeira oportunidade onde os rivais se enfrentariam dentro de campo. Foi então que Maradona protagonizou alguns dos momentos mais lembrados da história do esporte. Primeiro viria a marcar um gol com a mão, encobrindo o arqueiro Peter Shilton. Com o punho esquerdo cerrado alcançou altura acima do goleiro inglês, levando a bola ao fundo das redes. Este tento ficou conhecido como “La mano de Dios”, após Maradona declarar ao fim da partida que “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”. Aconteceria depois, então, um outro momento memorável do esporte, o segundo gol da seleção argentina, o qual recebeu a alcunha de “O gol do século”. Foi realmente eleito o gol mais bonito da história das Copas do Mundo. Maradona encarou uma fila de marcadores ingleses e foi deixando um a um os adversários para trás, com dribles curtos e rápidos, adentrou então à área e chutou para o fundo das redes defendidas por Shilton.

A Inglaterra ainda faria um gol, mas a vitória estaria assegurada e a Argentina passaria à próxima fase da competição.

A Argentina avançou após isto pela Bélgica e chegou a grande final contra a Alemanha Ocidental. A partida final foi também uma das mais memoráveis da história das Copas. A Argentina saiu ganhando por dois a zero, mas permitiu o empate no final do jogo. Foi então que Maradona serviu o companheiro Burruchaga que fez o terceiro gol argentino dando o título para a equipe.

O jogador foi laureado com o título de melhor jogador do mundo, honraria que receberia ainda em outra oportunidade por revistas especializadas. A FIFA criou o prêmio de melhor jogador do mundo somente em 1991.

Em clubes, foi pela Società Sportiva Calcio Napoli, da Itália, clube intermediário, sem grandes expressões no futebol italiano, que Maradona atingiria seu melhor momento. Maradona foi transferido para este clube após uma passagem com muitos altos e baixos pelo Barcelona. No Barça, Maradona chegou com grande expectativa na maior transação financeira do futebol até então. Porém, teve dificuldades de adaptação ao estrangeiro, além de sofrer lesões que lhe custaram períodos fora dos gramados e de se envolver em brigas dentro e fora de campo, as quais lhe renderem suspensões por tempos consideráveis. Apesar disso, a passagem de Maradona pelo clube catalão é lembrada pelos espanhóis, sendo que vestimentas e vídeos com gols do jogador são expostos no museu no clube, localizado nas dependências do estádio Camp Nou.

Maradona é, e sempre será lembrado no Napoli como um deus. A importância do atleta foi tamanha para a equipe, que o clube passou a ser uma das equipes mais importantes e famosas do planeta em sua época. Conduziu a equipe do Napoli ao título de dois campeonatos italianos e a conquista da Copa dos Campeões da UEFA, a Champions League no ano de 1989.

Para exemplificar a dimensão da popularidade de Maradona nesta época recorda-sea Copa de 1990, realizada na Itália. Maradona jogava então pelo Napoli e o jogador argentino, para a ira dos dirigentes italianos, chegou a fazer um apelo a população local para que torcessem pela Argentina e não para a Itália naquele mundial.

A repercussão do pedido tomou proporções mundiais, sendo alvo de críticas ferrenhas de boa parte da população italiana.

Por uma incrível ironia do destino a Argentina viria a enfrentar a Itália naquela copa na cidade de Nápoles! Após fazer uma primeira fase da competição medíocre, perdendo no jogo de estreia para a equipe de Camarões, classificou-se como melhor terceira colocada (pelas regras da competição na época).

Na segunda fase eliminou o Brasil, equipe que tinha até então 100% de aproveitamento na competição. O gol da desclassificação brasileira saiu com jogada de Maradona, que deixou Cláudio Caniggia livre para tirar a bola do alcance de Taffarel e, mandar para as redes brasileiras.

O jogo semi-final, contra a Itália foi decidido nos pênaltis, resultando com classificação da Argentina para a grande decisão. Maradona foi o principal jogador de uma equipe nacional de qualidade contestável, mas que ainda assim chegou ao vice-campeonato mundial perdendo o jogo final para a Alemanha, com um gol de pênalti numa marcação duvidosa.

A fama de Maradona vai muito além dos domínios das quatro linhas. Jogador polêmico envolveu-se em diversos escândalos públicos principalmente por problemas com uso de substâncias entorpecentes, em especial a cocaína. Este foi seu maior adversário em vida. Foi suspenso do futebol por períodos longos de tempo, após ser pego em exames antidoping, que acusaram uso da substância. No início da década de 90 tornam-se públicos seus problemas com o vício.

Amigo de figuras controversas como Hugo Chavez e Fidel Castro, Maradona procurou tratamento médico em Cuba no intuito de se livrar da dependência química.Em sua vida pessoal Maradona teve ainda dois filhos fora do casamento, os quais não reconheceu como seus. Chegou a declarar publicamente “Minhas filhas legítimas são Dalma e Gianina. Os outros são filhos do dinheiro ou do erro”. Esta figura carismática e controversa acumulou um histórico de brigas e acusações contra a FIFA e imprensa em geral. Chegou a atirar em um jornalista que fazia vigília em frente a sua casa, após um episódio de recaída do argentino em sua luta contra as drogas. Maradona literalmente quase morreu em várias oportunidades por problemas de overdoses.

Maradona foi eleito em 2002, pela FIFA, como o melhor jogador do século por votação na Internet. Na ocasião retirou-se da festa para não ter que cruzar com seu eterno desafeto, Pelé.

Dieguito recuperou-se das drogas e problemas de sobrepeso e, atacou ainda como apresentador na televisão argentina, no comando do programa de entrevistas e reportagens “La Noche Del Diez”. Seu primeiro convidado foi justamente o rival Pelé. Durante a atração Pelé e Maradona conversaram amistosamente sobre coisas ligadas ao futebol e sobre seus problemas com drogas, no caso de Pelé sobre seu filho Edinho, o qual foi preso por tráfico de drogas. Ao final trocaram passes de cabeça e cantaram juntos. Maradona receberia ainda no programa seu amigo Fidel Castro e outros ícones televisivos como Xuxa, e ídolos do esporte como Mike Tyson.

Após abandonar os gramados, viria a se tornar tempos mais tarde treinador de futebol, classificando a seleção nacional de seu país para a Copa do Mundo de 2010 disputada na África do Sul. A vaga foi obtida com dificuldades, com derrotas históricas para a Colômbia e Bolívia, e Maradona seria criticado pela forma como escalaria o time e treinava os atletas. A vaga foi conquistada em jogo derradeiro contra o Uruguai em pleno Estádio Centenário, na capital Montevideo.

Durante a Copa da África do Sul Maradona comandou a equipe que fez uma boa primeira fase, mas foi eliminado nas quartas de final com derrota incontestável para uma forte seleção da Alemanha por quatro gols a zero. Após a derrota Maradona foi demitido do cargo.

A saída de Maradona das atuações no gramado significou um vazio muito grande na história do futebol mundial e ainda mais na história do futebol argentino. Este ícone do esporte bailava em campo como um apaixonado pelo futebol como se dançasse um tango dramático, escrito por Gardel.

Em tempos onde se vive uma escassez de craques amantes do esporte, e aonde o dinheiro vem falando mais alto a cada dia, a saudade do futebol espetáculo, como o protagonizado por Maradona, fica cada vez mais latente. Sua perna esquerda será eternamente lembrada pelos lançamentos certeiros, dribles rápidos e chutes poderosos.

Felipe de Luca
Natural de Florianópolis, a bela Ilha de Santa Catarina. Nascido em 1981, é casado com Marcele Andrade e juntos têm um filho, o Mateus, de quase dois anos. É engenheiro de formação, mora atualmente em Joinville e tem como principais lazeres a leitura, estudos, esportes, viagens e curtir a família. E-mail: felipe_deluca@yahoo.com.br