Duane Michals e suas narrativas fantásticas

“Nada é o que eu, uma vez pensei que fosse…
Você não é quem pensa que é. Você não é nada que possa imaginar.
Eu sou um escritor de contos. A maioria dos fotógrafos são repórteres.
Eu sou uma laranja – eles são maçãs.”

Duane Michals

Duane Michals, fotógrafo norte-americano, nasceu na Pensilvânia, em 1932. Aos 14 anos iniciou o seu interesse pela fotografia, época em que iniciou as suas aulas de pintura no Instituto Carnegie.  Ele estudou Design Gráfico, mas não terminou o curso porque resolveu mergulhar na fotografia. Começou sua carreira como fotógrafo de moda, clicou para revistas como Vogue, Esquire e Mademoiselle e, em um curto espaço de tempo, se tornou um artista muito requisitado. Michals é conhecido pelo seu jeito inovador de fotografar, ele (re)inventa seu próprio estilo e apresenta em sua obra foto-sequências, narrativas que desafiam o espectador.

O espelho de Alice. Foto-sequência: Duane  Michals

O fotógrafo, em suas narrativas fotográficas, assusta e ao mesmo tempo encanta pela sagacidade com que materializa seus desejos que deixam de ser ocultos.  Original em sua trajetória, ele consegue traduzir em palavras e em imagens os seus pensamentos. Michals usa a câmera fotográfica para dar vida às suas inquietações íntimas, ele (re)constrói  paisagens intangíveis  que representam seus medos, angústias e pulsões. Influenciado por artistas surrealistas como Magritte e Balthus, o fotógrafo dá o tom surrealista em sua obra: algumas de suas fotografias são marcadas por jogos de espelhos que transformam suas ideias em imagens desconsertantes, distorcidas.

Foto-sequência: Duane Michals

“Acredito no invisível. Não acredito no visível… . Para mim,  a realidade reside na intuição e na imaginação, e na vozinha da minha cabeça que diz: “Isto é extraordinário?!” Esta sentença representa com perfeição o processo criativo de Duane Michals, mescla de surrealidade e realização concreta de seu imaginário. Numa concepção flusseriana, imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens. Michals tece em narrativas fotográficas  o que imagina. Ele decifra, cria e recria frente a essa tirania ocular que vivemos, ele provoca por meio de seu experimentalismo a noção que temos do cotidiano. O sentimento enquanto espectador, é que ele (des)organiza a nossa relação com o mundo.

Foto-sequência: Duane Michals

Na década de 1960, Michals compõe a série de retratos de Renné Magritte que é considerada por muitos o apogeu de sua obra. Isso se dá porque, na concepção dos críticos de arte, o fotógrafo conseguiu apreender não só a pessoa de Magritte, mas também as suas ideias artísticas, o seu estilo. É no final dos anos de 1960 que Duane Michals inova ao relatar histórias por meio de suas sequências de fotografias, é nessa mesma fase que ele introduz a escrita nas suas imagens, o que torna o primeiro fotógrafo a fazê-lo. Michals possui mais de vinte publicações no Mercado e tomou parte de exposições na França, Inglaterra e Estados Unidos que renderam a ele inúmeros prêmios.

A visita com René Magritte. Foto-sequência: Duane Michals

A sua fotografia pode ser entendida como uma prática simbólica que além do significado primeiro que motivou a sua criação, se constitui numa rede de significados que não se fecha, mas que se expande, se desdobra e (re)significa novos conceitos. Com a sua obra, Duane Michals coloca em discussão não somente a verossimilhança que  creditamos à fotografia, mas os mecanismos que a constituem como linguagem, documento e arte. Michals é um contador de estórias.

Algumas de suas angústias que se (trans)formaram em narrativas fotográficas:

“A palavra chave é expressão –  não fotografia, não a pintura, não a escrita.
Você é o evento, não os seus pais, amigos, gurus.
Somente você pode ensinar a si mesmo.
Tudo que experimentamos está em nossa em nossa mente.
É tudo cabeça.
O que você está lendo agora, ouvindo agora, sentindo agora…”
Duane Michals

Autorretrato

“Nós todos temos medo da morte.
Mas, nós já morremos.
Olhe sua fotografia de formatura do ginásio, “ele” está morto.
Olhe a foto do seu casamento, “ela” está morta.
Precisamente agora, você morreu.”
Duane Michals

O espírito deixa o corpo. Foto-sequência: Duane Michals

“A visão das palavras nesta página me agrada.
É como alguma forma de trilha que eu tenha deixado atrás,
pistas, marcas estranhas…
a prova de que eu estive aqui uma vez.”
Duane Michals

A oportunidade do encontro. Foto-sequência: Duane Michals

“Apenas eu sou meu inimigo. Meu medo pode me travar.
Nunca tente ser um artista; faça somente seu trabalho e se ele for verdadeiro se tornará arte.
Devemos estar atentos de forma a não sermos iludidos pelas coisas familiares. As coisas são
o que queremos que sejam. É muito importante estar vulnerável; permitir a dor, cometer enganos,
não ser intimado por tocar. Os erros são muito importantes se permanecermos despertos.”
Duane Michals

Autorretrato

“Às vezes parece que estou a espera de que alguma coisa aconteça.
É tão difícil imaginar que seja eu a pessoa que está escrevendo isto.
Sinto-me outra pessoa.
Não estou interessado na ampliação perfeita.
Estou sim interessado é na ideia perfeita.
Ideias perfeitas sobrevivem
à ampliações ruins, reveladores errados ou baratos.
Elas podem mudar nossas vidas.”
Duane Michals

Foto: Duane Michals

“As sentenças mais importantes normalmente contêm apenas duas palavras:
eu amo, me desculpe, por favor, me perdoe, me toque,
eu preciso, eu gosto, muito obrigado.”
Duane Michals

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com
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