Entre biografias, literaturas e histórias: Maria Adelaide Amaral

Quando ouvimos o nome de Maria Adelaide Amaral, rapidamente somos remetidos a uma série de trabalhos realizados por ela na televisão brasileira. Neste momento, nossa memória parece nos levar diretamente à novela Dercy de Verdade, seu último trabalho. No entanto, as minisséries parecem povoar mais a lembrança do telespectador: A Muralha (2000), Os Maias (2001), A Casa das Sete Mulheres (2003), Um só coração (2004), JK (2006), Queridos Amigos (2008), Dalva e Herivelto (2010). Um fato, no entanto, chama nossa atenção no instante em que começamos a ler sobre a autora: antes de escrever para a televisão, Maria Adelaide Amaral levou aos palcos brasileiros (especialmente entre Rio de Janeiro e São Paulo) inúmeras peças, recebeu muitos prêmios importantes por seu teatro e por sua literatura.

Fonte: www.tvtx.blogspot.com

Maria Adelaide Almeida Santos do Amaral nasceu em Portugal, na cidade do Porto, no dia 1º de julho de 1945. Aos 12 anos, veio com a família para o Brasil e foi morar na cidade de São Paulo. Nessa época, para ajudar nas despesas de casa, trabalhou numa fábrica de roupas. Exerceu também as profissões de escriturária e bancária, antes de seguir a carreira de jornalista e escritora. Em 1970, conseguiu uma vaga na Editora Abril, onde trabalhou como redatora até 1986. Estreou como autora de teatro em 1974.

A família da escritora pertencia ao ramo da ourivesaria. Isso permitiu que a filha caçula, ainda em Portugal, pudesse ter contato com livros, assistir a espetáculos circenses e ter uma infância sem preocupações. No entanto, quando seu pai tem um revés financeiro, a família vê-se obrigada a vir para o Brasil em busca de outras oportunidades. Essas oportunidades também podem ser consideradas de formação da escritora, uma vez que, ao entrar para o Colégio Sagrada Família, no Ipiranga, em São Paulo, iniciou seu “trabalho” como escritora no jornal do colégio. Mais tarde, ainda nos tempos de colégio, agora do Estadual de São Paulo, a formação da escritora teve um ganho importante com a amizade de Décio Bar, leitor de Heidegger, Kant, Hegel e Sartre. A ela foram apresentados Erich Fromm, Simone Beauvoir e Fernando Pessoa.

Quando o nome de Maria Adelaide Amaral é ouvido, rapidamente a memória remete a uma série de trabalhos realizados por ela na televisão brasileira. A telenovela Ti-ti-ti e a minissérie Dercy de Verdade, seus últimos trabalhos podem ser a recordação mais recente. Entretanto, na obra de Maria Adelaide Amaral, as minisséries parecem ser mais marcantes: A Muralha (2000), Os Maias(2001), A Casa das Sete Mulheres (2003), Um só coração (2004), JK (2006), Queridos Amigos(2008), Dalva e Herivelto (2010). Um fato, no entanto, chama muito a atenção no instante em que se começa a conhecer a autora: antes de escrever para a televisão, Maria Adelaide Amaral levou aos palcos brasileiros (especialmente entre Rio de Janeiro e São Paulo) inúmeras peças, recebeu muitos prêmios importantes pelo teatro e pela literatura.

A escritora também recebeu prêmios da crítica especializada de TV. Essa experiência acumulada pela autora demonstra tanto a sua habilidade na criação de estórias que atendem às expectativas da audiência das emissoras de TV, quanto o seu projeto de criar estórias que sejam positivamente avaliadas por seus pares da literatura, do tetro e da teledramaturgia. Essa disposição, desejo de criar obras que possam ser reconhecidas pela sua qualidade artística, nos leva a refletir sobre seu possível projeto de criação, diante da oportunidade de adaptar o romance Os Maias para a televisão. Adaptar uma obra literária consagrada pode significar a ampliação da sua importância no campo específico da obra matriz. Neste caso, teledramaturgia/minissérie.

As Leituras de Formação

Quando criança, Maria Adelaide chegou a participar de teleteatro e de encenação de textos de Tatiana Belinky. Desistiu de ser atriz quando se viu na TV. Algo parecido aconteceu com sua carreira de poetiza: o amigo Décio Bar, que ela muito admirava, disse que seus poemas eram péssimos.

A escritora menciona, nas entrevistas ao Memória Globo, que suas “universidades” foram obras de Picasso, Man, Ray, Jean Cocteau, Hemingway, Fitzgerald, Henry Miller, e as peças que leu ou assistiu no teatro e na televisão. Essas são as responsáveis por sua formação e por suas criações. Na juventude, iniciou o curso de Ciências Sociais, mas não o terminou: por sorte ou azar, a gravidez de seu primeiro filho a afastou do movimento estudantil em 1968. Depois de pensar em fazer Letras, formou-se em Jornalismo na Faculdade Cásper Libero, em 1978, para cumprir a exigência do cargo que exercia na Editora Abril, onde dedicava-se a ler textos para selecionar os que comporiam as coleções da editora (teatro, romance, conto, novela):

Uma das coisas mais prazerosas da minha vida era escolher um tema, época ou autor e mergulhar fundo. E algumas vezes dividir com um amigo, ou vários, a mesma e simultânea paixão por um escritor. Nos anos 70, li quase todos os autores da geração perdida, a famosa lost generation, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, John dos Passos, Sherwood Anderson. Com o Pascoal Forte, li Katherine Mansfield, com a Bel Raposo descobri Vita Sackville-West, com o Caio F., nos anos 80, li os diários de Virginia Woolf e com Fernando Carneiro da Silva, as memórias de Leonard Woolf e passeei por alguns autores do grupo de Bloomsbury. Foi aí que me apaixonei pelo Lytton Strachey e toda aquela turma, a Ottoline, a Dora Carrington, a Rebecca West. Há inclusive um filme muito sensível, Carrington (95), do Christopher Hampton, com Emma Thompson e Jonathan Pryce, que retrata bem esses personagens. Meu interesse por John dos Passos e pelos escritores americanos, em geral, se deu através de Sartre e das memórias de Simone de Beauvoir, e também de um livro que todos nós da Abril Cultural lemos nos anos 70, Viver Bem É a Melhor Vingança, sobre Sarah e Gerald Murphy. Este casal me levou a Gertrude Stein, e esta a Sylvia Beach, fechando um ciclo, e uma época quando Paris era realmente uma festa. Muitos anos depois, eu reencontrei grande parte dessa fauna nas biografias de Chanel. Afinal todos eram amigos, todos se frequentavam, Picasso, Man Ray, Jean Cocteau, Hemingway, Fitzgerald, estavam todos lá, conhecidos, familiares, em suas rivalidades, em sua loucura e sua genialidade. Nos anos 80, mergulhei em Henry Miller, que na verdade pertencia à geração seguinte. Para mim, é um dos melhores autores do Século XX (DWEK, 2005, pp. 297).

Entre renúncias e trabalhos, períodos de formação, atividades domésticas e engajamento político, Maria Adelaide pode se orgulhar do fato de ter tido disposições e posições favoráveis para que pudesse conquistar a consagração e o reconhecimento. A experiência da escritora como jornalista foi determinante para a dedicação aos seus trabalhos, como a própria autora afirma, no prefácio da publicação de Mademoiselle Chanel:

Esclareci que tinha sido mordida pelo vício da pesquisa na Abril Cultural, onde havia trabalhado por quase vinte anos. E era de tal maneira apaixonada pela investigação e descoberta, que mesmo a competente Vitalina me subsidiando – como de fato me subsidiou – eu não iria abrir mão de uma intensa e extensa pesquisa pessoal (AMARAL, 2004b, p. 8).

Os trabalhos teledramatúrgicos de Maria Adelaide, que datam de 2000, são minisséries de época. Isto é reflexo também de que as produções televisivas, deste período, intentaram levar para as telas um retrato do país e sua construção como nação (MERY, 2007, p. 9).

A Produção Teatral

A produção teatral no Brasil, na primeira metade do século XX, é caracterizada por um teatro comercial. Os atores eram os responsáveis pelas companhias e a principal atração nas peças apresentadas. Oduvaldo Vianna surgiu para romper com essa prática: alia-se a grandes intérpretes, como Procópio Ferreira e Dulcina de Moraes, e introduz a prosódia brasileira no teatro, até então ainda muito ligado a um tipo de linguagem aportuguesada.

Nesse contexto de mudanças no teatro brasileiro, Maria Adelaide começa a escrever peças teatrais na década de 1970, chegando, assim, a mais de catorze obras para o teatro, entre elas: Chiquinha Gonzaga, De braços abertos e Querida mamãe, todas vencedoras do Prêmio Moliére de melhor autor nacional. Em meados de 1980, lançou seu primeiro romance: Luísa – Quase uma história de amor, vencedor do prêmio Jabuti de 1986. Outros títulos da escritora são Aos meus amigos, Dercy de cabo a rabo, O bruxo e o livro infanto-juvenil Coração solitário. Ela também é autora das peças de sucesso Tarsila e Querido estranho, encenadas nas principais cidades do país. Ainda no teatro, adaptou o livro Evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago. Em 2005, seu espetáculo Mademoiselle Chanel, com Marília Pêra, foi encenado com grande sucesso no teatro da FAAP – Fundação Álvaro Penteado –, em São Paulo.

A Produção Televisiva

O percurso de Maria Adelaide Amaral na televisão começou em 1990, como colaboradora de Cassiano Gabus Mendes na telenovela Meu bem, meu mal (Rede Globo, 19h), dirigida por Paulo Ubiratan, Reynaldo Boury e Ricardo Waddington. Três anos depois, voltaria a trabalhar com o autor em Mapa da Mina (Rede Globo, 19h), dirigida por Denise Saraceni, Gonzaga Blota e Flávio Colatrello. Esse foi o último trabalho de Cassiano, que morreu dias antes do final da novela. Contratada como autora da TV Globo, Maria Adelaide Amaral trabalhou ainda com Silvio de Abreu e Alcides Nogueira, em Deus nos acuda (1992, 19h) e A próxima vítima (1995, 20h).  Como autora ou roteirista principal, seu primeiro trabalho foi o remake da novela Anjo Mau (1997-1998, 19h), de Cassiano Gabus Mendes.

Em 2000, ao lado de João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, escreveu a minissérie A Muralha, inspirada no livro homônimo de Dinah Silveira de Queiroz, com direção geral de Denise Saraceni. Em 2001, Maria Adelaide Amaral assinou Os Maias1 e dois anos depois, adaptou A Casa das Sete Mulheres (2003), a partir da obra homônima de Letícia Wierzchowski, que conta a história da Revolução da Farroupilha, um dos mais longos movimentos separatistas da primeira metade do século XIX. A minissérie teve direção de Jayme Monjardim e Marcos Schechtman. Em 2004, escreveu com Alcides Nogueira Um só coração, minissérie que homenageou os 450 anos  da cidade de São Paulo, e que contextualizou a Semana de Arte Moderna de 1922, a crise financeira de 1929, a era Vargas, o nazismo e o fascismo. Com direção de Carlos Araújo e Ulisses Cruz. JK(2006), baseada na biografia do ex-presidente Juscelino Kubitschek, foi sua quinta minissérie na TV Globo. Escrita em parceria com Alcides Nogueira, JK foi dirigida por Dennis Carvalho, Amora Mautner, Vinícius Coimbra, Maria de Médicis e Cristiano Marques. Em 2010, foi responsável pela minissérie Dalva e Herivelto: uma canção de amor com Geraldo Carneiro e Letícia Mey, com direção de Denis Carvalho e Cristiano Marques2. Em 2012, assinou a minissérie Dercy de Verdade, com a direção de Jorge Fernando, e reeditou a biografia Dercy de cabo a rabo.

Sucesso e Reconhecimento

O primeiro texto de Maria Adelaide foi A Resistência. Ela relata que o escreveu muito rápido, movida pelos problemas vividos pelos funcionários da Editora Abril, na década de 1970. Em seu relato, após escrever, envia o texto para um consultor de teatro da editora: Sábato Magaldi3. Ao ler, Magaldi respondeu que aquilo era teatro dos bons. Assim nasceu a dramaturga.

Na televisão, o caso da minissérie A Muralha é bem conhecido entre os produtores e diretores da Rede Globo. Daniel Filho (2001) comenta a “astúcia” de Maria Adelaide Amaral em propor a minissérie para representar o século XVI do Brasil. Quando lemos o texto de Dwek (2005), podemos visualizar o que Daniel Filho dizia: segundo Amaral, no final de 1999, Daniel Filho convocou uma reunião em que estavam presentes cinco diretores e cinco autores para pensarem cinco minisséries que comemorariam os 500 anos do Brasil, em 2000. Além da autora (que trabalharia com Denise Saraceni), estavam presentes: Dias Gomes (que morreria semanas depois), Lauro César Muniz, Sérgio Marques e Ferreira Gullar. As minisséries teriam de oito a vinte e quatro capítulos e o que se sucedeu foi que:

Imediatamente, o Dias anunciou que a dele já estava escrita, era sobre Getúlio Vargas, ou seja, sobre o século XX. O Lauro, em seguida, disse que já tinha uma sinopse aprovada: faria Castro Alves, portanto o século XIX seria dele. Sérgio Marques lembrou seu antigo projeto de escrever sobre Chico Rei e a mineração no século XVIII. Quando Ferreira Gullar manifestou o desejo de falar sobre as Invasões Holandesas, fiquei em pânico. Era o período histórico que eu queria abordar. Tinha levado comigo inclusive um livro sobre o assunto, que no final da reunião acabei dando a ele. Então quando chegou a minha vez, o Daniel me disse: “Bom, sobrou o século XVI e o que é que você vai fazer?” Eu disse: “São Paulo” – assim, sem nem muito pensar. Ele me perguntou o que seria São Paulo do século XVI, e respondi sem pensar: “A Muralha”. A Denise Sarraceni, com quem eu faria parceria, disse que era boa ideia. […] Porém, A Muralha foi um romance que eu tinha lido logo que chegara ao Brasil, e tinha sido escrito em 1954 para homenagear o Quarto Centenário de São Paulo. Ainda nos anos 50, fora transformado em rádio-novela na Rádio Bandeirantes e, nos anos 60, numa telenovela da TV Excelsior. Acontece que A Muralha não se passava no século XVI, e sim no início do século XVIII, na época da Guerra dos Emboabas, quando os bandeirantes, já tendo descoberto as Minas Gerais, entraram em conflito com os portugueses e com brasileiros de outras regiões, que com eles disputavam a exploração de ouro e de pedras preciosas. Quando cheguei a São Paulo e descobri que a ação se desenrolava em 1708 e não no século XVI, meu primeiro pensamento foi: Me ferrei! Porém, logo em seguida concluí que o equívoco poderia ser contornado. Conservaria os personagens e a ideia central das tramas e mudaria o pano de fundo histórico. Ao invés de falar sobre as Minas Gerais e sobre a Guerra dos Emboabas, iria falar sobre o início do Movimento Bandeirantista, ou seja, sobre aqueles homens que primeiro avançaram para o interior em busca de mão-de-obra indígena, quando o ouro ainda não era o objetivo principal. Era isso que iria fazer. Falar sobre os avós de Raposo Tavares e de Fernão Dias Paes (DWEK, 2005, p. 223).

Depois de algum tempo pesquisando para a minissérie, Maria Adelaide foi informada de que somente A Muralha seria produzida e que deveria ter quarenta e oito capítulos e não mais vinte e quatro. Foi quando foram inseridos os núcleos narrativos dos cristãos novos (e marranos) e a Inquisição (Dona Ana e Dom Jerônimo) e o tema da evangelização dos índios pelos jesuítas (Padre Simão e Padre Miguel).

Esta expressão de “astúcia” foi repetida na produção de A Casa das Sete Mulheres. Ao ser consultada por Jaime Monjardim sobre o projeto para uma minissérie sobre o Capitão Mouro, Maria Adelaide declinou do convite porque achava que o projeto era mais de Denise Saraceni do que dela mesma. Assim, como descreve em suas entrevistas, tinha recebido um livro da editora da Record com a recomendação de que daria uma minissérie (como comumente recebe). Assim, ao receber o telefonema da produção da Globo sobre o assunto, a escritora, olhando para a estante viu o tal livro recomendado e sugeriu que a adaptação deveria ser a próxima minissérie: A casa das sete mulheres. A sinopse empolgou e o tema também. Walter Negrão, que estava pesquisando sobre o Rio Grande do Sul, também foi convidado para escrever junto o que se tornou um sucesso de audiência em 2003.

Mais do que simples astúcia, a produção de Maria Adelaide Amaral é reflexo de seu percurso e de sua formação, que em seu discurso parece fluir como consequência e com facilidade. A relação entre a origem social e o espaço das possibilidades (ou dos possíveis) parece ir ficando clara quando olhamos as posições e as disposições assumidas pela autora. Gomes e Araújo (2009), analisando Tarsila, apresentam características da obra de Amaral que podem ser possíveis pela facilidade de trânsito entre os meios:

Em Tarsila percebe-se a influência de uma cultura audiovisual que se aproxima muito mais da narrativa seriada da televisão do que propriamente do cinema, como, por exemplo, pela sua divisão em “capítulos” da vida da pintora modernista, com longos saltos temporais, que se inicia na primeira cena, onde rememora sua infância e termina quando vai conceder sua última entrevista, num prenúncio de sua morte. Ao mesmo tempo, estas cenas fragmentadas representam episódios da vida de Tarsila, mas apenas juntas compõem o “todo”, ou seja, sua biografia, que a peça se propõe a contar.

A formação da escritora se fortalece a partir de seu trabalho na Editora Abril, durante a juventude. Lá, o contato com os textos da literatura universal proporciona o conhecimento de história e cultura, além da “facilidade” e a engenhosidade para lidar ou adaptar textos para os palcos ou para a televisão:

Isso do romance gerar uma peça que gera um romance e suas variações só acontece porque sou basicamente uma autora de teatro, que de vez em quando excursiona pela literatura. E, segundo críticos e amigos, o melhor da minha ficção transparece nos meus diálogos, ou seja, a matéria-prima de qualquer obra dramatúrgica. Mas o fato é que as minhas peças também se enriquecem da literatura e, aliás, algumas delas estão cheias de citações. E quando algum jovem me pergunta o que fazer para se tornar um autor eu respondo: Leia muito, e faço uma lista dos escritores que foram fundamentais para a minha formação, na esperança que também seja para a dele. Dostoievski, Machado de Assis, Thomas Mann, Tolstoi, James Joyce, Joseph Conrad, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Stendhal, Gustave Flaubert, Marcel Proust, Lawrence Durrell são alguns dos nomes que sugiro (DWEK, 2005, p. 296).

As instâncias de reconhecimento e consagração da autora também são elementos importantes de se considerar, como podem ser identificados nos inúmeros prêmios recebidos e na audiência alcançada. Na análise de suas entrevistas, o lugar da audiência parece ter um apreço especial da autora: a preocupação em fazer um produto que seja, ao mesmo tempo, de qualidade e que tivesse grande audiência. Isso aconteceu, segundo ela, na televisão, principalmente com A Muralha e Um só Coração4.

Mas podemos ver que há um histórico de premiações que não pode ser ignorado:

Molière:
(1978)- Melhor Autor Nacional: BODAS DE PAPEL
(1983)- Melhor Autor Nacional: CHIQUINHA GONZAGA
(1984)- Melhor Autor Nacional: DE BRAÇOS ABERTOS
(1994)- Melhor Autor Nacional: QUERIDA MAMÃE (RJ)

Governador do Estado:
(1978)- Melhor Autor: BODAS DE PAPEL.
(1984)- Melhor Autor: DE BRAÇOS ABERTOS
Associação dos Críticos de Arte:
(1978)- Melhor Autor: BODAS DE PAPEL
(1996)- Melhor Autor: QUERIDA MAMÃE

Ziembinski:
(1978)- Melhor Autor: BODAS DE PAPEL

APETESP:
(1984)- Melhor Autor: DE BRAÇOS ABERTOS
Prêmio Jabuti (Literatura):
(1986)- Melhor Romance Nacional: LUÍSA

Mambembe:
(1984)- Melhor Autor: DE BRAÇOS ABERTOS (SP)
(1984)- Melhor Autor: DE BRAÇOS ABERTOS (RJ)
(1994)- Melhor Autor: PARA TÃO LONGO AMOR (SP)
(1994)- Melhor Autor: QUERIDA MAMÃE (RJ)

Prêmio Shell:
(1994)- QUERIDA MAMÃE (RJ)
(1995)- QUERIDA MAMÃE (SP)

Prêmio Sharp:
(1998) Melhor Autor Nacional – PARA SEMPRE

Prêmio APCA (TV):
(2001) Grande Prêmio da Crítica – A MURALHA
(2003) Grande Prêmio da Crítica – A CASA DAS SETE MULHERES
Prêmio Qualidade Brasil:
(2006) Melhor Minissérie: JK

Troféu Imprensa:
(2010) Melhor novela: TI-TI-TI

A análise das premiações da escritora mostra que sua consagração no teatro possibilitou sua entrada na televisão e sua autonomia como escritora de minisséries, advinda tempos depois. O poder de negociação de Maria Adelaide Amaral para desenvolver o projeto Os Maias adveio de seu percurso como autora de teatro e, posteriormente, como autora de televisão.

Dramas Familiares e Afetivos

As primeiras peças de Maria Adelaide Amaral tiveram temática política e social: Bodas de Papel, A Resistência, Ossos d’Ofício – o contexto político do final de 1960 e início da década de 1970 inspiravam dramaturgos como Lauro César Muniz (Sinal de Vida), Consuelo de Castro (O Grande Amor de Nossas Vidas), Vianinha (Papa Highirte e Rasga Coração) e Gianfrancesco Guarnieri (Um Grito Parado no Ar). A tradição melodramática que conhecemos em seus trabalhos na televisão surge com a peça De Braços Abertos, em 1984:

[…] De Braços Abertos foi também a primeira em que mudei o foco do social para mergulhar decisivamente no mundo dos sentimentos. Amor e ódio, admiração e inveja, ciúme e indiferença, impotência e medo de romper o círculo vicioso, mas confortável, da mediocridade. Críticos, psicólogos, psicanalistas escreveram muito sobre De Braços Abertos e depois sobre o romance que a originou, Luisa, e todos os que o fizeram destacaram o modo impiedoso como tratei os personagens e, ao mesmo tempo, a minha compaixão por eles e pelas suas fraquezas. O que quer que tenha sido, brotou da minha alma e atingiu em cheio o coração das pessoas. Elas se viam, se identificavam, se reconheciam, e muitas mudaram sua vida por causa dessa peça. E me senti recompensada pelas emoções que esse texto mobilizava, e pela força do teatro capaz de interferir de maneira tão contundente na vida das pessoas (DWEK, 2005, pp. 139-140).

A temática marcada pelos dramas familiares e afetivos estará presente nos textos do teatro e da televisão como em Querida mamãe (1994), Para tão longo amor (1994), Intensa magia (1995) ePara sempre (1997). Depois, sua obra será marcada por peças de caráter biográfico, experiência que a autora tivera na década de 1980, com Chiquinha Gonzaga, que se repetiu apenas recentemente, não somente nos palcos (com Tarsila, em 2001, e Mademoiselle Chanel, em 2004), mas principalmente na TV (com A casa das sete mulheres, em 2002, Um só coração, em 2004 e JK, em 2006). Ao falar de seu processo criador, Amaral diz que:

Nós somos feitos do que vivemos e das nossas referências literárias, estéticas, sensitivas. O que eu fiz, o que eu li, o que eu vi, o que eu busco, tudo isso é um modo de viver que se reflete num modo de escrever, de me expressar. Existem fatos que me impulsionam a escrever sobre determinados temas, e há os que rejeito sumariamente. São aqueles que não fazem parte do meu repertório, como o mundo das drogas, ou da violência, por exemplo. A minha paisagem favorita continua sendo o ser humano, a sua relação com os outros, e os sentimentos que os movem. Gosto de escrever sobre amor, sobre a minha geração e suas angústias. Gosto, sobretudo, que leitores e público se identifiquem com as minhas criaturas e que, de algum modo, se beneficiem dessa identificação. De modo geral, não sou muito original. Escrevo sobre aquilo que vi e vivi, e sobre alguns temas, como os de reencontro, que retomo frequentemente. Mas a minha experiência, vivida ou observada, é apenas o ponto de partida. A partir daí, é alquimia, recriação, transfiguração. E é dessa forma que o pessoal se torna universal. Desde a minha primeira peça, descobri que era possível transformar a minha miséria, transmutando-a num objeto capaz de tocar a emoção das pessoas, capaz de levá-las a transfigurar a sua própria miséria, operar essa coisa antiquíssima que os gregos chamam de catarse. Mágoas, ressentimentos, feridas não cicatrizadas, raivas sufocadas, ódio, culpas, esse chumbo que o autor carrega é a pedra de toque do seu trabalho, e é por meio do seu trabalho que ele se transforma em ouro. É um privilégio poder realizar essa alquimia, e um prazer enorme oferecê-la ao público. Numa edição da Vejinha de maio de 1997, na qual fui matéria de capa, a chamada é A Pena que Retrata as Grandes Emoções. Afinal foi isso que me tornei, alguém que fixa as grandes emoções, e também as pequenas, porque elas fazem parte da nossa humana condição (DWEK, 2005, pp. 305-6).

Na produção de Maria Adelaide Amaral, é possível depreender um percurso temático em que há, constantemente, uma tendência clara aos textos sobre dramas familiares e afetivos, perfis biográficos da preferência por adaptação de obras literárias. A disposição para os dramas familiares e afetivos tem início em sua carreira teatral e se configura em sua obra televisiva. Pode-se afirmar que as estratégias da autora para a produção televisiva convergem para o modo melodramático.

As marcas do melodrama podem ser vistas nas situações claras e fortes, no interesse dramático, na música melodiosa que reforça a intensidade das emoções, na necessidade de “ganhar” o espectador para que ele acredite no inverossímil: com fortes emoções e fortes impressões como recursos para seduzir o espectador, no espetáculo para “encher” os olhos, na expressão direta dos sentimentos na superfície do corpo, seja pelo gesto ou fisionomia, que demonstra uma intenção da personagem ou seu traço de caráter, fazendo-se traduzir na imagem do herói que destila virtude no asseio e na presença modesta e respeitosa, no mundo que espelha a moral cristã que deve fazer valer sua verdade, na exposição de traços de personalidade, de atitudes e desejos de modo exacerbado e claro, na presença de um olhar domesticado, acostumado com as linguagens do modo melodramático.

Referências

ALEXANDRE, Marcos Antônio. O imaginário feminino em Griselda Gambaro, Isadora Aguirre e Maria Adelaide Amaral. In: Caligrama. Belo Horizonte, n. 3, pp. 47-63, 1998. Disponível em:http://www.letras.ufmg.br/caligrama/ acesso em 2 de agosto de 2010.

ARAÚJO, Laura Castro de. Dramaturgia em trânsito: o teatro de Maria Adelaide Amaral da página às telas. Dissertação (Mestrado em Letras). Programa de Pós-Graduação em Literatura e Práticas Sociais – Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Instituto de Letras – Universidade de Brasília, 2009.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

___. Campo intelectual e projeto criador. Trad. Rosa Maria Ribeiro da Silva. In. POUILLON, Jean et. al. Problemas do estruturalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.

FILHO, Daniel. O Circo Eletrônico: fazendo TV no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

DWEK, Tuna. Maria Adelaide Amaral: a emoção libertária. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Cultura – Fundação Padre Anchieta, 2005.

GOMES, André Luís; ARAÚJO, Laura Castro. Teatro, dramaturgia e mídias: limites e confluências no teatro de Maria Adelaide Amaral. Anpoll 2009. Disponível emhttp://www.anpoll.org.br/revista/index.php/rev/article/view/151, acesso em 5 de agosto de 2010.

MEMÓRIA GLOBO. Autores: histórias da teledramaturgia. Livro 2. São Paulo: Globo, 2008.

SOUZA, Maria Carmem Jacob de. Telenovela e representação social: Benedito Ruy Barbosa e a representação do popular na telenovela Renascer. Rio de Janeiro: E-papers, 2004.

Notas:

1 O projeto de adaptação de Os Maias foi detalhado a seguir a nota.

2 Informação disponível em <www.memoriaglobo.com.br> acesso em 31 de maio de 2010.

3 Sábato Antônio Magaldi nasceu em Belo Horizonte (MG), em 9 de maio de 1927. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais, em 1949, obteve o certificado de Estética da Sorbonne, em 1953, com bolsa de estudos concedida pelo Governo francês. Quinto ocupante da Cadeira nº 24, eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 8 de dezembro de 1994, na sucessão de Ciro dos Anjos, e recebido em 25 de julho de 1995 pelo Acadêmico Lêdo Ivo. Foi crítico teatral do Diário Carioca de 1950 a 1953. Transferindo-se para São Paulo, nesse ano, a convite de Alfredo Mesquita, passou a lecionar História do Teatro na Escola de Arte Dramática, onde criou, em 1962, a disciplina de História do Teatro Brasileiro. Redator do jornal O Estado de S. Paulo, de 1953 a 1972, tornou-se, em 1956, titular da coluna de Teatro de seu Suplemento Literário. Redator-chefe e crítico teatral da revista Teatro Brasileiro, que se publicou em São Paulo (nove números, de novembro de 1955 a setembro de 1956). Crítico teatral do Jornal da Tarde, desde sua fundação, em 1966, aposentando-se do cargo em fins de 1988. Professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, desde 1970, doutorou-se na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, em 1972, com uma tese sobre o Teatro de Oswald de Andrade. Em 1983, fez livre-docência na ECA, defendendo a tese Nelson Rodrigues: Dramaturgia e Encenações. Prestou, em 1985, concurso para professor adjunto, tornando-se, em março de 1988, professor titular de Teatro Brasileiro. Nos anos letivos de 1985-86 e 1986-87, lecionou, como professor associado, no Instituto de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle), e, nos anos letivos de 1989-90 e 1990-91, também como professor associado, no Instituto de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Provence, em Aix-en-Provence. Proferiu conferências e deu cursos, em épocas diversas, no Chile, na França, na Alemanha, na Itália, em Portugal e na Áustria, além de numerosas cidades brasileiras. Texto disponível em <www.academia.org.br> acesso em 5 de agosto de 2010.

4 Informações disponíveis no sítio da autora < http://www.mariaadelaideamaral.com.br/> acesso em 5 de agosto de 2010.

Kyldes Batista Vicente
Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA (PosCom-UFBA). Mestre em Letras e Linguística (UFG). Licenciada em Letras (UFG). É professora da SEDUC e da Unitins. Atua em pesquisa e desenvolve projetos nas áreas de literatura, televisão, teleficção seriada e adaptação literária. Desenvolve, com outros pesquisadores do Grupo de Pesquisa Literatura, Arte e Mídia, os projetos de Extensão “Cinema e Literatura em Debate” e “Interlúdio Literário”. E-mail: kyldesv@gmail.com