Exú – o guardião dos caminhos

 Exú é uma das figuras mais controvertidas do panteão das religiões afro-descendentes e o mais humano dos Orixás. Exú faz parte tanto do candomblé como da umbanda. No candomblé se apresenta como orixá e na umbanda se apresenta como entidade. Mesmo apresentando algumas diferenças nos rituais, esse arquétipo mantém as características básicas nas duas religiões.

O campo de ação de Exú é ilimitado. Possui múltiplas facetas dependendo da função exercida. O termo Exu em yorubá quer dizer esfera, elemento que realiza o círculo na terceira dimensão, criando o espaço em profundidade.

No candomblé, ele é o principal responsável pela ligação do mundo espiritual com o mundo material, entre os deuses e as pessoas, pois realiza a comunicação entre os homens e os Orixás, levando oferendas para os deuses e expressando suas vontades no jogo de búzios. Também é ele quem faz com que os ritos sejam cumpridos.

Segundo Pierre Verger em seu livro Orixás, antes de começar o “xirê” dos orixás no barracão de candomblé, deve-se fazer sempre o “padê”, palavra que significa “encontro” em ioruba; um encontro, principalmente com Exu, para acalmá-lo e dele obter a promessa de não perturbar a boa ordem da cerimônia que se aproxima.

É o Orixá guardião dos caminhos que levam e trazem e fazem as pessoas se encontrarem ou se distanciarem.

É conhecido como supervisor das atividades do mercado, padroeiro dos ladrões e arruaceiros, além de guardar templos e casas. Transita entre os limites do mundo, rua e casa, fora e dentro, imanente e transcendente, pessoas e deuses.

Originalmente é conhecido como um Orixá masculino, provido de um grande falo de madeira chamado opa-ogó, que teria a propriedade de transportá-lo, em algumas horas, a centenas de quilômetros e de atrair, por um poder magnético, objetos situados a distâncias igualmente grandes. Este objeto também representa a truculência e irreverência, bem como a fertilidade, que é resultado da comunicação e interação entre os princípios masculinos e femininos.

Além do opa-ogó, suas ferramentas e símbolos também são a chave e o tridente.

Sendo um orixá do fogo está ligado à criação dos seres, à procriação e à fertilidade. Ele é o primogênito da criação e o mensageiro dos orixás, quem abre e fecha os caminhos, portanto senhor das encruzilhadas, portador da fortuna ou do infortúnio.

Exú é representado como um ser impulsivo e de fácil comunicação, sabe envolver com palavras sendo irreverente e satírico. Prefere a convivência das ruas e bares, na companhia estimulante de boêmios e malandros. Apresenta caráter intelectualizado, criando intrigas e sofismas enigmáticos. Pode ficar de ambos os lados de uma questão por simples diversão, gostando de debates e discussão, tendendo a inverter a lógica de maneira criativa e zombeteira.

Apresenta qualidade de Trickster. Ou seja, é moleque, brincalhão, zombeteiro, malicioso e arrogante, e sendo somente coerente com sua própria incoerência.

É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, comparam-no ao diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus.

Outra característica é a de corromper os limites do tempo e do espaço, invertendo o estabelecido e trazendo o inusitado e absurdo. Possibilitando o rompimento dos limites impostos sugerindo, por exemplo, que o sol brilhe a noite e a lua durante o dia.

Exu também não se submete ao estabelecido, pois representa todas as possibilidades e contradições.

Como princípio criador, também expressa à consumação de tudo o que foi criado. Duas lendas contam que Exú resolveu devorar todas as coisas que existem, começando por alimentos, passando por animais e plantas, até a sua própria mãe. Diante dessa ameaça, Orunmilá, seu pai, parte em seu encalço com uma espada e a cada encontro com Exú, cortava-lhe uma parte do corpo, essa perseguição se estende até aos nove níveis de Orum (céu), portanto ele é cortado em 201 pedaços. Ao chegar ao último nível eles fazem um acordo e Exú devolve tudo que havia devorado, inclusive sua mãe, com a promessa de que sempre seria servido primeiro. Em virtude disso, Exú deve ser alimentado sempre antes de qualquer atividade.

Contraditório em si mesmo, pode promover disputas e catástrofes – se as pessoas se esquecerem de lhe oferecer sacrifícios e oferendas. No entanto, dependendo de como é tratado, torna-se prestativo e protetor.

Revela-se, dessa, maneira o mais humano dos orixás, nem completamente mau, nem completamente bom – assim como seu equivalente grego Hermes, o romano Mercúrio, o hindu Ganesha e o egípcio Thot.

Exú está associado às funções de mensageiro, de condutor de mortos, transmutador de elementos; de aplicador de justiça de forma indireta, de restabelecimento da justa medida, das trocas e do comércio; dos caminhos e das entradas, das porteiras e dos umbrais, deus dos limites entre mundos, das artimanhas e dos embustes, da esperteza e da jocosidade.

Em termos psicológicos, podemos dizer que Exú representa a constelação de um arquétipo. Este arquétipo atua no sentido do desenvolvimento da psique e da construção dos aspectos pessoais de cada indivíduo, pois não pode haver troca, comunicação e criatividade onde não haja diferenciação – que é o objetivo final da psique.

O arquétipo constelado por Exu é o arquétipo do psicopompo. Psicopompo é uma palavra que tem origem no grego psychopompós, junção de psyché (alma) e pompós (guia) e designa um ente cuja função é guiar ou conduzir a percepção de um ser humano entre dois ou mais eventos significantes.

Este é um arquétipo presente na maioria dos registros mitológicos, sonhos, filmes e contos populares, e surge espontaneamente assumindo a tarefa de revelar um símbolo ou sentido de orientação, necessário para a continuidade da trajetória individual de quem o encontra.

Este guia interior pode ser de natureza humana, (na mitologia como Ariadne), animal (coelho de Alice no País das Maravilhas) ou espiritual (Hermes, Daimon).

A capacidade de lidar com os três níveis – o inferior, o terreno e o superior, o torna capaz de transitar e trazer mensagens destes planos. Em uma análise profunda, é capaz de trazer mensagens do inconsciente para a consciência, possibilitando que os conteúdos reprimidos (sombra) e o lado não digno tanto do analisando quanto do analista sejam elaborados e ressignificados.

Pessoas muito comprometidas com a vida consciente é comum serem surpreendidas por eventos que desestruturam seu frágil equilíbrio emocional. Nessas ocasiões, este arquétipo estará sempre presente, a fim de restabelecer a integridade psíquica, levando o individuo a lidar com neuroses, pânicos ou sumarizações.

Além disso, a capacidade de conduzir almas por estes planos o torna, sob o ponto de vista da psicologia analítica, um condutor dos seres em sua transmutação e em seu processo de individuação.

Portanto, a presença deste arquétipo é de importância vital para o processo psicoterapêutico, uma vez que esse é um trabalho em conjunto de negociação entre inconsciente e consciente.

O ato de se tornar consciente, portanto, deve passar pelo nosso lado menos bonito, menos digno, o nosso lado Exu, aquele que constantemente desprezamos, mas que é extremamente necessário para entrarmos em contato com outros lados de nossa personalidade.

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.