Hécate – a deusa ctônica

O nome Hécate em grego significa aquela que “fere à vontade”, que “age como lhe apraz”. Hécate não possui um mito próprio, ela é mais conhecida por seus atributos. Sendo uma deusa descendente dos titãs é independente do Olimpo.

Ela é uma deusa misteriosa, que na época pré-olimpica possuía atributos benéficos como dispensadora de bens e favores, concessora de prosperidade material, dispensadora do dom da eloquência em assembleias, da vitória nas batalhas e nos jogos e da abundância de peixes aos pescadores. Faz prosperar o rebanho ou o aniquila, a seu bel-prazer (Brandão, 1986).

 

Entretanto com o advento do patriarcado houve uma modificação em suas características que passaram a ser vistas de forma negativa. Hécate passou a presidir a magia e os encantamentos, a bruxaria, o conhecimento de ervas e plantas venenosas, a necromancia e a feitiçaria. Passou a presidir as encruzilhadas, local consagrado a feitiçaria.

 

Ilustração: Hekate – Maximilian Pirner, 1901.

 

Costuma ser representada segurando duas tochas, ou uma chave. Não raro suas estátuas representam-na sob a forma de mulher com três corpos e três cabeças. Aparece sempre seguida de éguas, lobas e cadelas.

Dessa forma Hécate foi associada a figuras mitológicas da bruxaria por excelência: Eetes, Circe e Medéia. Sendo tardiamente colocada como mãe de Circe e tia de Medéia. Hécate, assim como Perséfone, é uma deusa dos mortos. Mas enquanto Perséfone preside o encaminhamento das almas ao Hades, Hécate preside a aparição dos fantasmas dos mortos e sua comunicação.

Deusa ctônica (ligada ao mundo subterrâneo) e lunar preside a germinação e o parto, protege a navegação e também concede a eloquência e a vitória. Já seu lado sombrio é infernal, presidindo os horrores noturnos, os fantasmas, os espectros e monstros apavorantes.

 

 

Como deusa das encruzilhadas, Hécate simboliza as escolhas de caminhos que por vezes devemos tomar em nossas vidas. E essa decisão pode ser infernal e trazer fantasmas e espectros de nosso inconsciente à tona.

Apesar de posteriormente Artemis assumir a fase de lua crescente, a aparência tríplice de Hécate mostra que ela representa as três fases da lua: crescente, minguante e nova. A fase cheia é representada por Selene.

A lua mostra os domínios do nosso inconsciente, aquilo que não conseguimos enxergar, ou que vemos de forma deturpada. Sua luz difusa não nos deixa enxergar com clareza, mostrando apenas sombras. Por essa razão é que em nosso inconsciente se agitam monstros, espectros e fantasmas, simplesmente porque nos são desconhecidos e nos trazem uma sensação de incerteza.

 

 

De um lado, então ela simboliza o inferno vivo do psiquismo, mas de outro uma imensa reserva de energias que se devem ordenar por meio da objetividade e da paciência.

Ela é o feminino primordial, o caos e as potencialidades todas misturadas, por essa razão sua forma tríplice também representa os três níveis simbolizados pelo céu, terra e mundo subterrâneo. Dependendo de nossa escolha diante de uma encruzilhada, não tomamos apenas um caminho horizontal, mas também um caminho vertical rumo a um desses níveis.

 

Na busca de nossa própria identidade é necessário antes passar pelo caos, pela noite escura da alma, pois nesse estado o ego aprende a esperar para que novas potencialidades se manifestem. É um momento cheio de conflitos, de ansiedades e de confusões. Mas que precede um novo nascimento e que nos mostra que nossa vida permanece eternamente fértil e eternamente incompleta.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.