Hera – A grande mãe

Hera é a grande deusa da Mitologia Grega. A rainha dos deuses é irmã e esposa de Zeus. Em Roma é conhecida como Juno. Preside o casamento e a fidelidade conjugal.

O nome Hera significaria a Protetora, a Guardiã. É uma deusa solene, e comumente retratada com o pólos (uma coroa usada por várias deusas).

Sua ave favorita é o pavão por possuir muitos olhos como os quais podem vigiar o esposo. O lírio, símbolo da pureza e a romã, símbolo da fecundidade também lhe eram consagrados. A vaca também lhe está associada, sendo um símbolo da Grande Mãe, mas no caso de Hera, daquela que derrama o leite dos céus, da via-láctea.

Junto com Zeus, ela exerce uma ação poderosa sobre os fenômenos celestes. Hera pode desencadear tempestades e comandar os astros que adornam a abóbada celeste. O casal celeste controla o sol e a chuva que promovem a fecundação da terra.

Hera é uma deusa cretense, sendo uma transposição da grande Mãe. Como grande Mãe teve um culto especial na Lacônia, Arcádia e Beócia em seu aspecto de fecundidade. Mas posteriormente ela foi convertida em deusa do casamento.

Geralmente retratada como ciumenta, agressiva e vingativa. Vive se vingando das traições do marido, perseguindo as amantes e os filhos do adultério. Uma de suas vítimas foi Heracles (Hércules) a qual impôs os célebres 12 trabalhos.

Conforme Brandão (1986), Hera é a esposa rabugenta de Zeus. A deusa que nunca sorriu! Penetrando nos desígnios do marido, vive a fazer-lhe exigências e irrita-se profundamente quando não atendida com presteza. Para ela os fins sempre justificam os meios. Para atingi-los usa de todos os estratagemas a seu alcance: alia-se a outros deuses, bajula, ameaça, mente.

Mas apesar da mitologia grega enfatizar a humilhação e a índole vingativa de Hera, ela era por contraste grandemente honrada e venerada. A despeito da infidelidade de Zeus, a relação dos dois nunca foi muito normal. A raiva e a vingança pontuam sua relação em outros aspectos, mostrando que elas se originam de outro motivo.

Certa vez, como narra o mito de Narciso, Hera discutia com o marido para saber quem conseguia usufruir de maior prazer no amor, se o homem ou a mulher. Como não conseguissem chegar a uma conclusão, porque Zeus dizia ser a mulher a favorecida, enquanto Hera achava que era o homem, resolveram consultar Tirésias, que tivera sucessivamente a experiência dos dois sexos. Este respondeu que o prazer da mulher estava na proporção de dez para um relativamente ao do homem. Furiosa com a verdade, Hera prontamente o cegou (Brandão, 1986).

Dificilmente podemos citar uma história mítica onde Hera não tenha uma participação mais ou menos importante.

Podemos citar como seus principais mitos (Wikipédia, 2014):

  • Seu casamento com Zeus: e a sedução feita pelo deus sob a forma de um pássaro cuco;
  • O nascimento de Hefesto: que ela teria gerado sozinha e lançado do céu, porque ele era aleijado;
  • Sua perseguição aos consortes de Zeus: especialmente Leto, Semele e Alkmene;
  • Sua perseguição aos filhos bastardos de Zeus, como Herácles;
  • A punição de Ixion que foi acorrentado a uma roda de fogo por tentar violar a deusa;
  • A assistência aos Argonautas em sua busca pelo velo de ouro, sendo o líder Jasão um de seus heróis favoritos;
  • O julgamento de Paris, no qual ela concorreu com Afrodite e Atena, para o prêmio da maçã de ouro;
  • A Guerra de Tróia, em que ela favoreceu os gregos;

Hera é uma deusa obstinada e com uma disposição a brigas, que às vezes fazia seu próprio marido tremer. Tanto que um dos poucos filhos que ambos tiveram foi Ares, o deus da guerra. Simbolizando os conflitos conjugais do casal, mas também a discórdia e a rixa entre o patriarcado e o matriarcado que havia perdido a sua força.

Essa disposição para a briga já fez com que Zeus batesse várias vezes nela. Hera geralmente cede diante da raiva do marido, mas recorre à astúcia e intrigas para atingir seus objetivos. Hera é a deusa que apresenta qualidades e defeitos de forma mais marcante em todo panteão grego.

Ela se consolidou como deusa do casamento na época em que as regras, normas e leis do patriarcado entravam em vigência e nesse caso eles necessitavam de um representante da monogamia. O que é muito estranho para uma deusa representante da Grande Mãe ser eleita de forma a simbolizar uma lei, já que o matriarcado é justamente pontuado pela falta de regras e pela sensualidade e fecundidade.

Hera pode ser considerada uma deusa ferida, em sua feminilidade. Pois como uma poderosa deusa da fecundidade e que precedeu Zeus em veneração, ela assume um papel secundário que lhe foi dado a lado do marido com o advento do patriarcado. Zeus é o macho fecundador e ela apenas a sua consorte. Seus aspectos de fecundidade foram relegados suprimidos.

Como vimos na discussão da sexualidade masculina e feminina entre o casal celeste, Hera passou assumir um requisito patriarcal para organização da instituição familiar, a fidelidade. Enquanto que Zeus, inquestionavelmente pai e soberano dos deuses é uma expressão exuberante do fertilizador, que é a característica essencial da sensualidade matriarcal (Byington, xx).

Entretanto ela ainda carrega consigo traços matriarcais, como o famoso “olho por olho, dente por dente”. E enquanto feminino desprezado e humilhado ela então passa a perseguir e se vingar justamente das mulheres isentado seu esposo do adultério. É como se ela quisesse dizer: “Já que sou humilhada você também será!”. No plano pessoal vemos Hera em muitas mulheres que em nome da instituição do casamento suporta agressões e infidelidade. Anulando seus desejos em prol da imagem de esposa perfeita.

O arquétipo de Hera proporciona capacidade de estabelecer elo, de ser leal e fiel, de suportar e passar pelas dificuldades com companheiro (Bolen, xx). Em termos psicológicos ela simboliza um amadurecimento da psique onde homens e mulheres assumem um compromisso de lealdade com seus processos psíquicos e suportam as provações em nome de algo maior, que não se sabe explicar nem nomear. Esse compromisso pode ser projetado no outro, entretanto, é um compromisso consigo mesmo.

O casamento é uma forma de se chegar à totalidade e iniciar o processo de individuação e Hera representa a fidelidade ao inconsciente e ao próprio processo de individuação. Seu amor é um amor amadurecido, em oposição ao amor erótico e passional de Afrodite, e por isso Hera tinha nessa deusa sua maior rival.

Ela representa o amor onde a fase da paixão acaba e as projeções começam a serem retiradas e passamos a ver o cônjuge como ele é, sem os idealismos do animus ou da anima. E nesse momento, em que vemos o outro como ele é, podemos nos sentir traídos, pois aquele homem ou mulher com quem nos casamos não é mais o mesmo. Na verdade vemos a pessoa sem as máscaras e nossas ilusões caem trazendo uma carga de sofrimento. Mas é nessa hora que a personalidade pode dar um salto de desenvolvimento com a assimilação das qualidades que projetávamos em outro.

O arquétipo de Hera é poderosíssimo e extremamente realizador. É um símbolo da coniunctio, operação alquímica onde ocorre o casamento sagrado com nossa contraparte interior (animus ou anima). Entretanto é um dos mais destrutivos em seu aspecto negativo. Por essa razão, Hera era adorada e ao mesmo tempo desprezada.

Hera e Zeus formam um par de opostos em nossa psique, nossas necessidades de união e compromisso e nossas necessidades de transgressão as normas e fecundidade que gera um processo criativo. Ficar preso demais as regras e leis pode ser estagnador e nocivo, e ficar preso à pura sensualidade não traz desenvolvimento psíquico, nem amadurecimento. Por isso Hera e Zeus representam duas forças colossais com as quais a humanidade tenta se entender a séculos. E a busca do equilíbrio entre elas é algo que demanda muita energia e trabalho.

Quando o arquétipo de Hera é constelado, sabe-se que há uma busca de comprometimento da psique, uma união sagrada ocorrerá em breve, mas que trará também o estigma da traição e da transgressão que poderá gerar frutos se ambas forem compreendidas e reverenciadas.

 

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.
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