Hermes: o guia das almas

O Deus Hermes é um deus extremamente popular na Mitologia Grega. É uma divindade muito antiga, já sendo cultuado na história pré-Grécia antiga.

Cheio de atributos, é um deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da divinação, das estradas e viagens, entre outros atributos.

Filho do deus Zeus e da deusa Maia, nasceu em um dia quatro (número que lhe era consagrado), em uma caverna do monte Cilene, ao sul da Arcádia. O menino revelou-se de uma precocidade extraordinária, apesar de enfaixado e colocado no vão de um salgueiro, árvore sagrada, símbolo da fecundidade e da imortalidade, o que traduz, de inicio, um rito iniciático.

No mesmo dia em que veio à luz, desligou-se de suas faixas, dando uma demonstração clara de seu poder de ligar e desligar, e viajou até a Tessália. Lá furtou uma parte do rebanho de Admeto, guardado por Apolo.

Efetuou o furto amarrando ramos na cauda dos componentes do rebanho, para que, enquanto andassem, fossem apagando os próprios rastros. Chegando a uma gruta sacrificou duas novilhas aos deuses, dividindo-as em doze porções, embora os deuses olímpicos fossem apenas onze. Nesse instante Hermes acabava de promover-se a décimo segundo e a mensageiro dos deuses.

Após esse episódio, encontrou uma tartaruga no caminho, retirou-lhe a carapaça e, com as tripas das novilhas sacrificadas, fabricou a lira. Mostrando toda sua inteligência.

Hermes e Argos – Negri Petri 1635-40.

Apolo, irmão de Hermes, descobriu o roubo e o acusou formalmente perante Maia, que negou que pudesse o menino, nascido há poucos dias, ter praticado semelhante delito. Apolo apelou para Zeus, que interrogou ao filho, persistindo este na negativa. Zeus, convencido da mentira do filho, obrigou-o a prometer que nunca mais mentiria. Zeus, contudo, acrescentou que Hermes não estaria obrigado a dizer a verdade por inteiro.

Como Apolo encantado com o som que Hermes arrancava da lira, trocou seu rebanho roubado pelo instrumento.

Em outra ocasião, Hermes criou a “flauta de Pã”. Tendo Apolo gostado da flauta, propôs-lhe uma troca: ofereceu em troca o “cajado de ouro” (Caduceu), que usava para guardar o gado. Hermes aceitou, pedindo, além do cajado de ouro, lições de adivinhação.

Apolo assentiu. Desse modo, o caduceu de ouro passou a figurar entre os atributos principais de Hermes, que, de resto, ainda aperfeiçoou a arte divinatória, auxiliando a leitura do futuro por meio de pequenos seixos.

A Mitologia descreve Hermes como uma divindade complexa, com muitos atributos e funções.

Suas principais qualidades são a flexibilidade, inconstância, imparcialidade, ausência de fixação, e também a sedução, a mentira, a adivinhação e astúcia. Mas principalmente a inteligência.

Hermes é o deus da inteligência no sentido mais amplo do termo.

Devido ao roubo do rebanho, Hermes se tornou um deus agrário, protetor dos pastores nômades e dos rebanhos.

Pela astúcia utilizada ao furtar o rebanho de Apolo, pode-se observar no deus qualidades de “Trickster”.

Conforme Carl Jung (2002) o Trickster possui uma tendência às travessuras astutas, em parte divertidas, em parte malignas, mutabilidade, dupla natureza animal-divina, vulnerabilidade a todo tipo de tortura e uma proximidade a figura de um salvador.

Hermes, então, enquanto Trickster representa o símbolo de tudo que remeta a astúcia, ardil e trapaça; sendo considerado amigo e protetor dos comerciantes e dos ladrões.

Além disso, é considerado o “menos olímpico dos imortais”, pois sempre gostou de se misturar com os homens. Zeus disse-lhe certa vez; -“Hermes, tua mais agradável tarefa é ser o companheiro do homem; ouves quem estimas”, ampliando-lhe, assim, as funções e tornando-o companheiro do homem e dispensador de bens.

É também regente das estradas, pois se locomove com incrível velocidade, devido às sandálias aladas que usa.

Hermes não se perdia na noite devido ao seu domínio sobre as trevas, o que o torna um deus lunar.

Conhecedor dos caminhos, sem ponto fixo e sem morada definida, Hermes é o mensageiro dos deuses entre eles, e mensageiro entre deuses e homens. É aquele que transmite toda ciência secreta.

Hermes possui parentescos como o romano Mercúrio, o africano Exu, o egípcio Thot e o hindu Ganesha. Ambos representantes do mensageiro e deuses de grande inteligência e astucia.

No âmbito da psicologia analítica, Hermes pode ser considerado o arquétipo do psicopompo.

Psicopompo é uma palavra que tem origem no grego psychopompós, junção de psyché (alma) e pompós (guia) e designa um ente cuja função é guiar ou conduzir a percepção de um ser humano entre dois ou mais eventos significantes. Este guia interior pode ser de natureza humana, (na mitologia grega como Ariadne), animal (coelho de Alice no País das Maravilhas) ou espiritual (como no caso de Hermes).

Hermes por diversas vezes conduziu as almas dos mortos a Hades, e também as trouxe à luz, quando solicitado. Um exemplo disto é quando Hermes conduz Perséfone do mundo de Hades novamente para a sua mãe Demeter.

Portanto, a capacidade desse Deus de lidar com os três níveis – o inferior, o terreno e o superior, o torna capaz de trazer mensagens do inconsciente para a consciência, possibilitando que os conteúdos reprimidos (sombra) e o nosso lado não digno sejam elaborados e resignificados. Sendo então, um aquele que possibilita a revelação de um símbolo ou sentido de orientação, necessário para a continuidade da trajetória individual de quem o encontra.

Quando o indivíduo se encontra em um estado de identificação unilateral com o ego e a vida consciente, podemos ser surpreendidos por eventos que desestruturam nosso equilíbrio emocional. Nessas ocasiões Hermes se fará presente, fazendo traquinagens a fim de restabelecer a integridade psíquica, e promovendo a enantiodromia, levando o indivíduo a lidar com o seu inconsciente por meio de neuroses, somatizações e outras dificuldades psíquicas.

Hermes é também a inspiração criativa. É aquele que guia a idéia certa, a palavra certa no momento certo.

Sua presença se constela muitas vezes no processo psicoterapêutico conduzindo o individuo em sua transmutação e em seu processo de individuação.

Portanto, a presença deste arquétipo é de grande importância para o processo de individuação, uma vez que o individuo deve aprender a negociar (assim como Hermes negociou com Apolo) com as demandas do inconsciente e do mundo externo.

Além disso, esse arquétipo vem nos lembrar que ato de se tornar consciente, deve passar pelo nosso lado menos bonito, menos digno, aquilo que não agrada o coletivo e que constantemente desprezamos, mas que é extremamente necessário para entrarmos em contato com outros lados de nossa personalidade. Pois somente aquilo que evitamos é que pode nos curar!

Hermes tem o poder de lutar contra as forças sombrias, porque as conhece. Ele conhece o lado bom e ruim. Sabe distinguir opostos e lidar com eles. Ele possui a flexibilidade de se deslocar entre os opostos e não se identificar fortemente com nenhum dos lados.

Não sendo apenas um deus olímpico, mas igualmente ou, sobretudo um “companheiro do homem”, pode fornecer o conhecimento a todo aquele que o buscar tornando-se invulnerável a toda e qualquer obscuridade. Aquele que é iniciado pelo luminoso Hermes é capaz de resistir a todas as atrações das trevas, porque se tornou igualmente um “perito”.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.
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