Héstia e o fogo sagrado da purificação

Héstia, para os gregos, Vesta para os romanos, é uma deusa que simboliza os laços familiares, o fogo da lareira e a cidade. De acordo com a mitologia, é filha de Cronos e Reia, sendo uma das doze divindades olímpicas, e irmã mais velha de Demeter, Hera, Zeus, Poseidon, Hades.

Héstia era uma deusa casta. Rejeitou todas as investidas amorosas para se manter virgem, especialmente do belo Apolo e de Poseidon.Jurou virgindade perante seu irmão Zeus, e dele recebeu a honra de ser venerada em todos os lares e de ser incluída em todos os sacrifícios e permanecer em paz, em seu palácio, cercada do respeito de deuses e mortais.

Era representada como uma mulher jovem, com uma larga túnica e um véu sobre a cabeça e sobre os ombros. Havia imagens nas suas principais cidades, mas sua figura severa e simples não ofereceu muito material para os artistas. Sendo a mais velha entre os irmãos, Héstia era a mais sábia e a mais honrada e, além disso, evitava completamente o poder.

Uma Deusa com um temperamento introvertido, cujo enfoque era a interioridade e a espiritualidade. Estava mais para um conceito abstrato, o conceito do fogo, da lareira, do que para uma personificação como os outros deuses. Bastava o fogo para representá-la. Isso explica o fato de ela não ser tomada como uma divindade pessoal.

Conforme Junito Brandão (1986), Héstia é a personificação da lareira colocada no centro do altar; depois, sucessivamente, da lareira localizada no meio da habitação, da lareira da cidade, da lareira da Grécia; da lareira como fogo central da terra; enfim, da lareira do universo. É, portanto, a lareira em sentido estritamente religioso.

Personificação da moradia estável, onde as pessoas se reuniam para orar e oferecer sacrifícios aos deuses. Sendo, adorada como protetora das cidades, das famílias e das colônias.

Héstia simbolizava o lar e o centro sagrado onde se encontra nossa interioridade. Esse significado de interior e centralização faz alusão ao Self. Sendo que o processo de individuação é uma constante busca de relacionamento com esse centro chamado Self, ousi-mesmo. Podendo ter como alegoria a volta para casa, para o lar, para a intimidade mais profunda.

Outro aspecto interessante, é que os antigos costumavam se reunir ao redor do fogo da lareira para contar histórias. Esse círculo remete a umamandala. E reunir-se ao redor de um centro contando “causos” nada mais é que um acesso ao inconsciente coletivo.

Enquanto arquétipo, então, pode-se afirmar que Héstia representa a atenção para o centro espiritual da personalidade.Um arquétipo de centralização interior.

Portanto, pode-se afirmar que a interiorização é extremamentenecessária para a busca do si mesmo. Uma vez que o processo de individuação é bastante solitário. Não dá para individuarmos em meio a uma multidão, ou em um barzinho.

Portanto, Héstia vem nos mostrar, por meio do seu mito, que momentos de solitude são essenciais para esse desenvolvimento. Apesar de não ser uma deusa aventureira como Artemis e Atena, Héstia compartilha com essas duas deusas o título de virgem. Ou seja, ela não era vitimada pelas divindades masculinas ou pelos mortais. Isso lhe confere um caráter de inteireza, unicidade e integridade. Outra referência à totalidade. Estar inteiro em si mesmo, é a meta da individuação.

Outra característica importante dessa deusa é a sua ligação com o fogo. Na antiga Roma, as Vestais (sacerdotisas da deusa Vesta, a Héstia romana), deveriam permanecer virgens durante todo o sacerdócio, que durava cerca de 30 anos. E durante o sacerdócio a principal atividade desenvolvida por elas, era a de manter o fogo sagradoaedesvestae, localizado ao lado da Casa das vestais e ao sudoeste do Fórum Romano, sempre aceso.

O fogo é o representante das paixões, das fortes emoções que queimam a pele, do desejo, da libido. O fogo queima, reduz às cinzas. Também é um elemento que opera no centro das coisas, pois écentrado em si mesmo. Além disso, ele está em constante evolução, pois não consegue ficar “parado”.

O elemento fogo é um dos mais frágeis dentre os quatro elementos. Basta observá-lo e perceber que tanto a água, quanto o ar e a terra podem eliminá-lo. É o único elemento que pode ser extinto. Portanto, vemos um paradoxo no fogo, além de ser extremamente destrutivo ele possui em si a fragilidade.

Na Alquimia, o fogo estava ligado àoperação conhecida como Calcinatio. Cujo processo químico consiste no intenso aquecimento de um sólido a fim de retirar dele toda a sua água.

Retirar toda a água significa evaporar as emoções que não servem mais. É uma renovação das emoções, pois a água parada cria limo, atrai insetos e perde, portanto a sua pureza, contaminando a psique com o veneno da emoção não trabalhada. Mas como um elemento que simboliza emoções fortes, destrutividade, libido e até sexualidade pode estar relacionado a uma deusa comedida, virgem e pura?

Parece incoerente, mas não é. Edinger(1995) diz que o processo da Calcinatio vem da frustração dos desejos famintos e instintivos. Somente a provação do desejo frustrado pode levar ao desenvolvimento da personalidade.

Portanto, suportar a frustração do desejo (representado em Héstia pelo desejo sexual) leva a interiorização e ao centro de si mesmo. A queima dos afetos pelo fogo leva a uma desidentificação com eles.

A pureza de Héstia nos lembra que o fogo destrói tudo o que é impuro, sendo então,o arquétipo de purificação. A purificação pela compreensão, levando a conscientização dos instintos até então inconscientes, os levando então a sua forma mais espiritual, pela luz da verdade e da consciência.

Héstia, portanto, simboliza o significado da personalidade, conferindo um ponto de referência interior que permite ao indivíduo permanecer firme em meio da confusão, desordem e afobação do dia-a-dia. Com Héstia entramos em contato com a luz e o calor interior nos sentindo aquecidos pelo fogo espiritual do si-mesmo.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.