Iansã – Senhora dos relâmpagos e das tempestades

Iansã ou Oya é um Orixá muito famoso e popular no Brasil. Oya-Iansã foi mulher de Xangô, juntamente com Obá e Oxum. É a deusa das tempestades e dos relâmpagos. Rege os ventos, o fogo e as paixões. Seus seguidores a saúdam gritando: “Epa Hey Oya!”.

É saudada como a deusa do rio Níger. E mesmo estando relacionada à água pelo rio e pela tempestade, ela também está relacionada com o fogo e com o ar (furacões, ventania). Isto indica a união de elementos contraditórios e conflitantes, o que vai influenciar diretamente a personalidade da deusa.

Domina o mundo dos mortos (Eguns), sendo o único orixá capaz de enfrentá-los e dominá-los. Para isso utiliza um instrumento litúrgico chamado Eruexim, uma chibata feita de rabo de um cavalo atado a um cabo de osso, madeira ou metal. No Brasil foi sincretizada com Santa Bárbara.

Oya é uma Orixá guerreira. Representante da força feminina e das mulheres que querem se firmar em um mundo masculino. Seu temperamento é ardente, impetuoso e transgressor. E essa tendência transgressora lhe permitiu ampliar ainda seus conhecimentos. Em Orixás, de Pierre Verger:

“Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Oya, desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.”

Representante da sensualidade desenfreada e das paixões avassaladoras, seus sentimentos são intensos. Não há meio termo com ela, ama e odeia com a mesma intensidade. Demonstrando seu amor e alegria da mesma forma desmedida com que exterioriza sua cólera.

Iansã, apesar de ser feminina e vaidosa se aproxima mais dos terrenos consagrados tradicionalmente ao homem. Em sua mitologia está sempre presente em campos de batalha e em caminhos onde riscos e aventuras se misturam. Enfim, não é o feminino apregoado pela cultura vigente. Não aprecia afazeres domésticos, e está sempre longe do lar. Mesmo assim, é extremamente sensual e fogosa.

Tendo muitos amores e verdadeiramente se apaixonando por eles (ela foi casada com quase todos os Orixás, adquirindo seus poderes com eles). Todavia, a fidelidade dela não está necessariamente relacionada a um homem, mas às suas convicções e aos seus princípios. Em uma de suas lendas, Iansã usava uma pele de búfalo, relacionando a deusa com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade. Os chifres de búfalo, um de seus símbolos a liga à virilidade e à caça.

Iansã é aquela mulher que quer um homem ao seu lado para ser seu companheiro e não para dominá-la, nem sustentá-la. Não é dada a picuinhas, mostrando que nada nela é medíocre ou discreto. Enquanto figura arquetípica Iansã revela-se cheia de nuances. Ela pode ser associada à grega Afrodite, a suméria Inanna e a romana Vênus, enquanto deusa das paixões, do erotismo e do arrebatamento. Lembrando que Afrodite, assim como Iansã não possui pudores, sendo fiel ao principio do amor e da paixão.

Enquanto deusa ctônica e senhora dos mortos, tece paralelos com a grega Perséfone e com a suméria Ereshkigal. Perséfone era responsável por receber os mortos e encaminhá-los, assim como Iansã, que juntamente com Obaluaye servia de guia para as almas. Isso confere um caráter de psicopompo a Iansã, ou seja, de guia para as almas.  Em seu aspecto guerreiro, Iansã se aproxima da hindu Durga, que é uma Deusa Guerreira, por excelência.

A Grande Durga é extremamente bela, nascida da fusão da cólera de todos os deuses. Em alguns contos, possui 8 braços, em outros, 10, 12 ou até 18. Sempre segurando armas sagradas e realizando mudrás (gestos simbólicos com as mãos), montada em um leão, ou tigre, feroz. Assim como Iansã é representada com a cor vermelha, que simboliza movimento, ação, fogo, destruição, sexualidade.

Iansã, assim como Durga e suas armas, com sua espada está sempre em prontidão para combater o mal e a dominar os aspectos sombrios da psique. Durga matou o búfalo-demônio Mahishasura, outra ligação com Iansã, que utilizava pele de búfalo para se disfarçar. O búfalo simboliza o aspecto viril, instintivo e combativo, representa também o elemento terra, sendo dominado pelo feminino. Além disso, Durga aparece representada montada em um leão ou um tigre. Iansã também se liga ao leão, por meio de Xangô, que foi seu marido.

Essa ligação com as feras, como o leão, remete ao simbolismo do arcano 11 do tarô, a Força. E aqui o arquétipo de Oya-Iansã pode ser aprofundado e melhor compreendido. Essa lâmina do tarô apresenta uma mulher abrindo, com as duas mãos, as mandíbulas de um leão, tem como significado o domínio sobre as emoções instintivas, poderosas e selvagens.

Note que a dama não mata o leão, ela o doma; portanto o simbolismo consiste em não desprezar o inferior, em não aniquilar o que é bestial, destrutivo, mas sim aprender a utilizá-lo. A dama faz isso, de modo a conter a fera preservando o instinto criativo e instintivo presente no leão. O leão é um animal ligado a realeza, é o rei dos animais. E representa um aspecto infantilizado da psique, o egocentrismo, o “eu primeiro”, extremamente destrutivo se mal canalizado. Essa carta, então representa a coragem e a disciplina necessárias para dominar a raiva e usá-la a seu favor.

Para concluirmos esse estudo, Oya-Iansã, então representa a energia criativa do feminino. Ela destrói, por meio dos raios, para criar nova vida. Remetendo a outra lâmina do taro, o Arcano 16, A Torre. Energia que rompe padrões pré-estabelecidos. Quando a estrutura egóica está ultrapassada e cristalizada.

Iansã, em termos arquetípicos, representa também a perda do controle, por isso ela é considerada o Orixá do arrebatamento. A paixão nos toma como um relâmpago, com a força de um furacão e retira o chão de nossos pés. O ego perde totalmente seu controle. A paixão é experimentada como uma morte do ego. A perda do controle, por meio de uma paixão por alguém, ou por algo, ou por um ideal, é um baque para o ego, que muitas vezes se amedronta e foge. Entretanto, tão necessária para o processo de individuação.

Iansã é a quebra dos limites impostos pelas normas, que impedem o desenvolvimento da psique. Ela avança, de forma dinâmica, em direção aos aspectos regressivos, trazendo a uma nova vida aquilo que estava morto. Esse arquétipo, quando constelado, pode trazer a coragem para quebrar paradigmas e romper com limites já desgastados.

Pode ser conflitante e estranho o fato da deusa das paixões ser a que doma os instintos, mas somente um encontro genuíno e franco com esse aspecto instintivo pode levar a um entendimento e compreensão dessas forças. O que remete a frase de Carl Jung “O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera.” Iansã, portanto, quando constelada, ajuda-nos a atravessar nossas paixões, mantendo a lealdade a nós mesmos, levando-nos assim a alcançar a sabedoria e a força de nosso guerreiro interior.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.