Memórias de um menino morto

“Tudo está morto, e há cadáveres por toda a parte.”
“Eu jazia e, estranho -, nada esperava,
aceitando sem discussão que um morto nada tem a esperar.
Mas ali estava úmido.”

(A dócil, O sonho de um homem ridículo, Narrativa Fantástica, Dostoiévski, 1877)

Ontem, eu morri. Ou melhor, há muito tempo morri. Tinha 10 ou 12 anos. Tinha pais, mas não me lembro deles, apenas da sensação de tê-los. Mas isso são detalhes da minha história e queria contar a história da menina que me observava através do vidro da sepultura.

A primeira vez que a vi, ela ainda tinha o cabelo curto e parecia ser bem mais nova do que eu. Entrou no cemitério devagar, silenciosa. Os outros seguiram adiante e ela parou ainda na entrada, diante de mim. Nunca entendi porque tinha que ficar ali, perto do portão, mas nunca fui bom para entender coisa alguma, logo se ser um morto enterrado diante de um portão era minha sina, então iria cumprir tal desígnio com louvor. Ela (a menina) lia devagar as poucas palavras contidas em meu sepulcro: apenas duas datas e um nome. Alguém aproximou-se e disse-lhe que eu havia morrido depois de ter contraído uma doença denominada “raiva”, acho que ela não entendeu o significado disso, mas tão pouco eu, a vítima, algum dia entendi. Ela ficou mais um tempo observando meus olhos estáticos na fotografia e depois correu para o centro do cemitério, para encontrar seus pais e acender uma vela, o momento mais eufórico do seu bucólico passeio familiar. Depois ela partiu, não sem antes observar meu rosto através do vidro e ler novamente as duas datas e o nome.

Era dois de novembro, dia dos mortos, dia que recebia visitas e a via perscrutando cada detalhe do meu lar. Todos os outros dias era um marasmo. Mas isso não me aborrecia de fato, pois tinha um lar para cuidar, detalhes para observar e um dia para aguardar. Andava pelo meu sepulcro tão familiar, sentia o cheiro das flores que morriam mais rápidas do que eu e da fumaça das velas apagadas pela chuva. Sempre amei a chuva. Posso viver morrendo eternamente se tiver como ouvir o barulho da água caindo, o cheiro da terra molhada, o contorno rebelde das poças de lama.

Uma vez, a menina apareceu em um fim de tarde, em um dia que não era o “nosso”. Depois disso, passou a vir várias vezes ao cemitério nesse horário, mas já não me observava através do espelho. Caminhava entre as outras sepulturas, talvez tivesse encontrado alguma que fosse mais interessante do que a minha, que tivesse algo além das duas datas, um nome e uma foto amarelada. Observava-a do meu sepulcro, esperando, ansiando, desejando um olhar, um leve gesto que me fizesse compreender que eu ainda existia através dela (ou, por ela). Mas, nada. Até que ela simplesmente parou de vir. Assim, o portão, tão movimentado no dia dos finados e nos fins das tardes, já não me interessava mais. As crianças que passavam por ele nem tinham curiosidade em saber o que aquela foto amarelada representava, se era um menino, um fantasma, um monstro.

E eis que um dia, que não era dos mortos e não chovia, ela novamente atravessou o portão. Chorava. Nunca a tinha visto chorar antes, logo, assustei-me e recuei. No canto do meu sepulcro tentei entender o significado daquilo, mas quando levantei os olhos, ela já tinha ido embora.

Depois de algum tempo, finalmente compreendi: a menina havia crescido. Talvez alguém que ela amasse tivesse morrido. Assim, diante de um cemitério lotado, resultado daquilo que os vivos designam por “progresso”, tive a primeira sensação de solidão na minha vida-morta. E foi assim que cansei de ser menino. Já não era mais divertido viver os dias de morte cuidando de um sepulcro velho demais para causar curiosidade, ou ser guardião de um portão que possivelmente seria fechado para sempre em breve.

Peguei as poucas coisas que tinha (minhas duas datas, meu nome) e parti.

A foto ficou. Não me reconhecia mais naquele rosto que sorria.

Envelheci.

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.