Mulan – a ruptura de estereótipos e a polissemia feminina

Tsiektsiek e novamente tsiektsiek,
Mulan tece, de frente para a porta.
Você só ouve os suspiros da filha…
Perguntam o que está em seu coração,
perguntam o que está em sua mente.
Ninguém está no coração da filha,
ninguém está na mente da filha.

(Balada de Mulan – anônimo – sec.Vd.C)

 

Provavelmente está esclarecido ao público que a proposta dessa série, intitulada “Princesas: estereótipos e o universo feminino” é o de discutir como os contos de fada, que engendram o universo infantil feminino, influenciam a internalização subjetiva no que se refere às relações humanas, principalmente as conjugais. De forma genérica, poderíamos analisar sobre como a empresa produtora dos filmes de princesas embute valores em seus enredos, compondo e transformando os processos subjetivos das pessoas através de sua influência midiática, porém não analisamos com tanto afinco ou crítica sobre como a mídia nos compõe em particular.

Em meio a isso não esqueçamos que até pouco tempo não existia no universo de princesas da Disney qualquer uma que fosse negra, assim como não havia aquela que no final da história não casasse, ou com isso não sonhasse. São inúmeras as questões passíveis de análises. Não é minha pretensão nesse texto rebuscar acordos e desacordos sócio-políticos entre a Walt Disney Company e governos (capitalistas, comunistas, ou o que seja), mas acho interessante, até mesmo como escudo contra a alienação midiática, que saibamos os contextos de surgimento dos filmes e desenhos, e os oportunismos nas entrelinhas, como sugere Averbach (2003):

É importante mencionar que os valores que se apresentam nos filmes da Disney vão mudando conforme a evolução das novas sociedades. Isto se pode observar de forma clara desde o filme de Branca de Neve, onde a mulher representava o papel típico de dona de casa. Por outro lado, com as novas produções, se pode observar uma evolução dentro dos filmes, onde as protagonistas como Bela, Mulan, Ariel, Jasmine, entre outras, desempenham papéis distintos, desafiando a sociedade tradicional. Essa mudança se dá em consequência de que o papel que as mulheres vem desempenhando na sociedade vem mudando. A nova geração de princesas, como é considerada por muitos, busca promover um ambiente de justiça, igualdade, reconhecimento e sobretudo de mostrar que são completamente capazes de defenderem-se. Estes são valores que muitos dos pais ocidentais desejam que suas filhas pequenas cultivem, para que elas tenham uma mente mais aberta ao mundo de hoje (Averbach, 2003).

Diante das histórias de princesas da Disney é impossível não recorrer à literatura que trata da instituição do casamento, uma vez que é essa a temática basilar da maioria dos roteiros. Embora a história originária da personagem Mulan não aborde o tema do casamento, a versão adaptada e, portanto, circulante e conhecida, o aborda. Nos contos de fadas e princesas, os finais felizes sempre se apresentam através da cena do matrimônio. É curioso como não é relatada ou mostrada a vida do casal após união simbólica do casamento. Desse fato, várias questões – creio que já abordadas em outros textos da série – surgem, como, por exemplo, a associação que é feita entre ideal de felicidade e casamento clássico, entre homem e mulher.

A personagem escolhida por mim foi a Mulan. Poderia, sem muitos esforços, me ancorar à temática do matrimônio para dizer sobre a sua história, embora acredite que nos textos de outras princesas tal tema esteja mais relevado.

Ademais, escolhi falar de Mulan porque através de aspectos de sua história consigo introduzir ideias sobre o feminismo e as transformações dos estereótipos com o passar dos tempos.

Para tanto, precisamos primeiramente entender que um estereótipo pode ser. Segundo Barzabal & Hernández (2005) é um conjunto de traços típicos os quais se supõem inerentes aos membros de um grupo. Tais traços são transmitidos por meio da repetição de normas de comportamentos, e assimilados e construídos a partir dessa repetição.Trata-se de uma ideia pré-concebida a respeito de algo. Tal ideia pode ser reforçada ou enfraquecida. Isso depende de como ela se desenvolve e comunica com outras ideias, pré-concebidas ou não.Diante do mundo midiático, estereótipos convertidos em modelos a seguir estão em disparate como criadores de valores e formadores de subjetividades.

De acordo com Gómez (2005), o modelo de realidade proposto pela mídia está pleno de papéis estereotipados, que são internalizados e assumidos de maneira inconsciente pelos espectadores, já que tais papéis não são algo real e sim ideal, o que facilita a assimilação. Gómez (2005) defende que os estereótipos são os responsáveis por atraírem audiências massivas, sendo essa a sua maior utilidade. Outrossim, podem ser compreendidos por crianças, como é o caso das histórias de princesas.

Segundo Alafita et.al. (2012), “(…) a realidade criada pela mídia pode ir se incorporando desde a tenra idade nos esquemas cognitivos e emocionais, assim como nos esquemas de pensamentos e comportamento”. Segundo os autores, o desenvolvimento do processo de socialização se dá através da empatia, que envolve a forma como as crianças percebem os entornos da história, internalizam suas normas, seus valores, e as propostas de condutas sociais, como num recado que sucintamente diz “se você se comportar como a princesa do filme, você será feliz”.

A formação de um estereótipo depende de aspectos como: cenários, apetrechos, comportamentos, conversas, sonhos, fantasias etc.

Mediante estas informações, podemos lançar uma primeira indagação: quais os estereótipos proeminentes da história de Mulan?

Adianto a vocês que a história do filmeé baseada na e antecedida pela “Balada de Mulan.” Reza a lenda que a história de Hua Mulan é verídica e aconteceu na China antiga do século 5 d.C. A Balada, escrita nessa época, é a fonte de toda a história, embora tenha tomado diversas vertentes no decorrer dos anos em que foi contada e repassada entre as gerações. Configura-se como o primeiro poema chinês a abordar a igualdade de gêneros (tema ainda polêmico no país asiático). Além da história de Mulan, há o boato de que o primeiro conto de Cinderela seja de origem chinesa, (com algumas peculiares diferenças), o que também nos faz refletir a respeito da repercussão da cultura e folclore orientais pelo mundo.

Não analiso a história de Mulan como um proeminente de estereótipos. Pelo contrário, acredito que sua história traga vários e fortes aspectos que rompem com estereótipos caducos.

Muitos são os aspectos divergentes entre a Balada de Mulan e a história mostrada nos filmes da Disney. Tentarei, no decorrer do texto, apresentar algumas destas diferenças, adiantando que a maior e mais significativa delas é a de que na Balada, a personagem Mulan não se casa. Classificaria este ponto como a primeira ruptura com o estereótipo do casamento (embora a personagem se case ao fim do segundo filme).

Lembremos que a história de Mulan foi adotada pela Walt Disney em 1998, quando virou filme de animação, fazendo dessa personagem mais uma princesa do reino do entretenimento, imaginação e fantasia. Em 2005 foi lançada a segunda versão de sua história através do filme Mulan 2, que possui um roteiro completamente independente da Balada originária. Na versão original, Mulan é tida como a maior mulher guerreira da China.

Na época em que o filme sobre Mulan foi lançado, o mundo (principalmente a parte ocidental dele) rodava junto à disseminação dos movimentos feministas. Segundo a história do feminismo no mundo, há três momentos distintos e marcantes. O primeiro deles é datado entre o século XIX e o início do XX, onde a luta voltava-se aos direitos trabalhistas e educacionais das mulheres; o segundo momento, datado entre as décadas de 1960 a 1980, é marcado pela luta pelos direitos legais e culturais da mulher na sociedade e o terceiro momento, datado entre o final dos anos de 1980 até o início do novo milênio, é marcado pela continuação da luta anterior, onde as mulheres buscavam o fortalecimento do que já havia sido conquistado e a conquista do que ainda não havia. É em meio a esse terceiro momento que os filmes de Mulan são lançados, ou seja, é em meio a um momento onde a mulher foi incorporando novos papéis na sociedade em que vivia, assumindo-se cada vez mais como o ser polissêmico que é.

Voltando à história de Mulan, conta o enredo que estando a antiga China em guerra, o imperador decide convocar um membro de cada família para lutar contra a invasão dos bárbaros. O pai de Mulan, já idoso e debilitado, é convocado para a guerra, mas sua filha decide tomar seu lugar, se disfarçando de homem.

Segundo a Balada, a batalha entre os chineses e os nômades se estendeu por doze anos e Mulanfoi se destacando ao passar desses anos por suas estratégias de batalha, chegando a ocupar o posto máximo de general, recebido mesmo após todos saberem que se tratava de uma mulher. No entanto, Mulan recusou tal posto para voltar para casa. Ainda pela história original, Mulan tem uma irmã mais velha e um irmão mais novo, que ainda é criança. No filme, Mulan é filha única.

O que mais difere Mulan (principalmente no primeiro filme) de outras princesas da Disney, ou melhor, das princesas mais clássicas, como Branca de Neve, por exemplo (que é a primeira da casa), é o próprio estereótipo de princesa. Poderíamos nos perguntar quais os diversos aspectos fazem de uma mulher uma princesa que nenhum deles seria tão mais bem adequado do que aquele que fala de uma princesa como uma mulher ou menina, ou menina-mulher, que precisa de proteção. Estereótipo tradicional sobre a mulher (ou  subjetivação feminina): “a mulher é um ser dependente”, discurso já batido com o termo “sexo frágil”. Assim como esse termo já está batido, o que a história de Mulan traz é uma segunda ruptura, nesse caso, com a conceituação do que uma princesa é ou pode ser. Percebemos não só em Mulan, mas nas mais recentes princesas da Disney, as mudanças do corporal feminino. Em Mulan, vemos alguém de postura salutar e imponível, esguia e ereta. Vemos o comportamento corporal de alguém que é forte e independente. De alguém que fala e argumenta.

Em Mulan, é ela quem é forte e protege. É ela quem salva todo um país. É pela história dela que a mulher concretiza sua emancipação em contextos sociais, culturais, políticos e históricos e é (também) através dela que o estereótipo de princesa vem mudando, principalmente a partir da tentativa de igualdade das identidades de gênero. No filme, Mulan é tão guerreira, inteligente e corajosa quanto seu marido. Através de sua história vê-se um afastamento com a ideia de submissão feminina e uma proximidade com a construção de novas subjetividades, feminina e masculina.

Se nos dispuséssemos a analisar mais profundamente a história de Mulan com relação à história da mulher na China, estaríamos a falar de uma crítica aguda e de cunho extremamente feminista ao sistema atrasado e excludente a que a mulher chinesa era submetida. Na história das mulheres na China, há partes tidas como vergonhosas e até humilhantes, a começar pela questa~o tradicional (que prevaleceu por muito tempo) dos pés pequenos, onde, na infância, os dedos dos pe´s das meninas eram quebrados e enrolados dos 4 aos 12 anos para que estas não conseguissem percorrer grandes distâncias para fugirem de seus proprietários (pais e maridos). Essa situaça~o so´ foi abolida em meados das décadas de 40 e 50. Além disso, a agência casamenteira chinesa, que adornava as mulheres como modelos de vitrines para que assim fossem escolhidas pelos homens, ajudou a manter o estereotipo de mulher-produto, tema amplamente mostrado nos filmes Mulan I e II.

Para nós ocidentais – os ditos modernos, que tanto falam de igualdade de gênero e afins – é cômodo tecer críticas do que está lá distante e nos é estranho, mas não esqueçamos que a análise do feminino, do que é essa identidade de gênero ou mesmo o que é o “tornar-se mulher”, requer sempre uma referência ao contexto a que pertence, que é o que lhe dá sentido e significado. Mulan nos apresenta uma faceta do feminino. Uma faceta que rompe algumas tradições, mas ao conservar outras nutre sua própria identidade.

A partir da personagem de Mulan nos é introduzido aspectos que em outro momento se transformam em estereótipos. Tais aspectos se apresentam por uma personagem (mulher) que tem desejo e o realiza, que não “se submete à” e “concorda com”, ao contrário, ela concilia, articula, escuta, discute, debate, concede, pede e se impõe circunstancialmente dentro do seu direito de falar, ser ouvida e também ouvir o que lhe falam.

Assim vemos que, com o passar dos anos, os enredos vão se adequando à forma como as pessoas existem no mundo. Os filmes de Mulan são recentes e concernentes à toda emancipação feminina de que falamos e vemos gradualmente acontecer. Os filmes nos fazem repensar sobre os inúmeros papéis que a mulher vem desempenhando em nossa sociedade e sobre como isso vai repercutir no fortalecimento de alguns estereótipos e enfraquecimento de outros. Além disso, podemos pensar em como o “tornar-se mulher” vem sendo internalizado a partir do que mostra a mídia, em especial, nos filmes de princesas. Que princesas estão sendo criadas e quais novos adornos vem sendo usados? Pensemos.

Referências:

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ANAVERBACH, Márgara. (2003) “Huellasimperiales” de Imago Mundi, Buenos Aires, pp.163-175. Disponível em: http://es.scribd.com/doc/55569918/averbach-maccarthismo  (acessado em 27/01/2014).

BARZABAL, LuisaMaría; HERNANDEZ, Antonio. (2005). “Enseñemos a  discriminar estereotipos sexistas enlatelevisión.” Comunicar: Revista científica iberoamericana de comunicación y educación, Huelva, España n°25. Disponível em: <http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=2929133> (acessado em 27/01/2014).

BONILLA, José. (2005). “El cine y los valores educativos. A labúsqueda de una herramienta eficaz de formación”. Pixel-Bit Revista de Medios y Educación, Sevilla, España, n°26, pp.39-54. González Alafita, Villasuso y Rivera Revista Comunicación, Nº10, Vol.1, año 2012, PP.1505-1520. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/pdf/368/36802604.pdf  (acessado em 27/01/2014).

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