Nanã – a mãe terra

Nanã é um orixá muito antigo, e que está associada às águas paradas, à lama dos pântanos, ao lodo do fundo dos rios e mares. Pierre Verger ressalta que Nanã é um termo de deferência empregado na região de Ashanti para as pessoas idosas e respeitáveis e que esse mesmo termo significa “mãe” para os fon, os ewe e os guang da atual Gana.

Nanã é representada como uma senhora idosa, que quando se manifesta em seus iniciados, possui um andar lento e penoso, curvados para frente. Por essa razão é chamada carinhosamente de avó. Ela é mãe de Omulu, Ewá, Ossaim e Oxumarê. No Brasil, é sincretizada com Sant’Ana, a avó de Jesus Cristo.

O seu dia de consagração é a segunda-feira, juntamente com seu filho Obaluaê; ou o sábado, ao lado das outras divindades das águas. Sua saudação é Salubá! E seu símbolo é o Íbíri (um feixe de ramos de folha de palmeira com a ponta curvada e enfeitado com búzios). Foi o único Orixá que não reconheceu a soberania de Ogum como dono dos metais, pois seu culto é anterior à descoberta do ferro e, em seus rituais, não costumam ser utilizados objetos cortantes de metal.

Nanã é a junção dos elementos água e terra, ou seja, o barro.

Do barro surgiu o homem, portanto Nanã é o feminino ancestral, participante da criação, podendo ser comparada a Sofia. Além disso, ela é a senhora da morte, das coisas pútridas. É aquela que recebe seus filhos em seu ventre, após a morte, onde ocorre a decomposição dos corpos, para que surja nova vida. Disso surge a associação dela à operação alquímica putrefactio.

Enquanto arquétipo, Nanã corresponde a “Mãe-Terra Primordial”, Gaia.

Ela é uma figura austera, justiceira e absolutamente incapaz de uma brincadeira ou de alguma forma de explosão emocional. Ela é o feminino autoritário e controlador. A grande matriarca!

Considerada a mais antiga divindade das águas, não das ondas turbulentas do mar, como Iemanjá, ou das águas calmas dos rios, como Oxum, mas das águas paradas dos lagos e lamacentas dos pântanos, que lembram as águas primordiais que Odùduà encontrou no mundo quando criou a terra. E como divindade das águas rege os processos da fertilidade feminina, mas em outro pólo do que o referente a Oxum e Iemanjá.

Nanã rege o fim da maternidade, e do poder de procriação. Ela é encontrada na menopausa. Oxum é aquela que estimula a sexualidade feminina para que possa gerar filhos; Iemanjá estimula a maternidade e o cuidado com os filhos; e no fim está Nanã, paralisa tanto a sexualidade quanto a geração de filhos.

Ela, portanto, representa o fim de ciclos, a maturidade.

Nanã também representa o feminino ancestral que foi ferido e subjugado pelo patriarcado. Por isso ela não rende homenagens a Ogum, pois com o advento do ferro, o patriarcado se instituiu e assim sua influência foi diminuída.

Ela é a epítome do poder do Matriarcado, que possui como característica a Lei de Talião, o “olho por olho, dente por dente”. O Eu explica o seu caráter vingativo. E esse poder feminino quando destronado se tornou vingativo e rancoroso, e hoje clama por ser ouvido e reverenciado novamente.

Essa passagem do matriarcado para o patriarcado é narrado em várias mitologias. Na Mitologia grega, o mito de Orestes retrata essa passagem. Orestes matou a própria mãe Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai Agamêmnon, assassinado por ela e o amante Egisto. Orestes recebeu ordens der Apolo, um deus essencialmente patriarcal, para matar sua mãe.

Ao matar sua mãe, Orestes é, imediatamente, envolvido pelas Erínias, as vingadoras do sangue parental derramado. Orestes então se refugia no santuário de Apolo em Delfos. Julgado por seu crime em Atenas, o voto da deusa Atena desempatou o resultado a seu favor.

O perdão e a absolvição de Orestes representam a ascensão dos valores do patriarcado, enquanto a permissão do matricídio representa o desprezo aos valores do matriarcado.

Essa passagem do matriarcado para o patriarcado foi necessária, uma vez que se fez necessário implantar a lei, a ordem e a justiça. Entretanto, isso se deu à custa e repressão dos princípios femininos. Hoje uma nova ordem se torna urgente, o que foi reprimido deve voltar a ser reverenciado e o arquétipo da alteridade, onde masculino e feminino convivem de forma harmônica, clama para vir à consciência.

De forma pessoal cada individuo pode colaborar nesse processo com o resgate da sabedoria de Nanã. A mulher quando chega à menopausa se encontra em um grande impasse, e há uma grande crise nesse processo. Sua capacidade geradora findou!

Ela pode se ressentir pela perda de poder sobre os filhos que cresceram e pela diminuição de sua atividade sexual. E é nesse momento que esse arquétipo em sua grandeza se constela, podendo auxiliá-la a encontrar um feminino mais profundo e sábio.

Quando mulheres e homens (por meio da anima) se empenham em resgatar esse poder feminino, e aprendem a honrá-lo podem encontra a verdadeira sabedoria que somente a maturidade pode trazer.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.