No subsolo com Dostoiévski

    Arte: Bruna Thabata Ribeiro de Souza

O escritor russo Dostoiévski escreveu Memórias do Subsolo na segunda metade do século XIX e a obra foi publicada pela primeira vez em 1864. É um livro denso, narrado em primeira pessoa, por um sujeito não nomeado (um dos poucos personagens de Dostoiévski que apresenta tal característica), de 40 anos de idade, cuja vida parece ser um eterno deslizar de significados sem sentido. Para uma melhor condução do texto, denominarei o personagem principal de Homem do Subsolo.

O Homem do Subsolo tem dilemas e angústias atemporais, logo o fato do livro ter sido escrito no século XIX não implicará um distanciamento das vivências contemporâneas. O livro é dividido em duas partes: a primeira parte tem relação com o subsolo, que é, de certa forma, uma metáfora do inconsciente e a segunda parte é a narração que o personagem faz de alguns fatos de sua juventude (por volta dos 24 anos). Ao final, é realizada uma exposição breve sobre a existência no tempo atual do personagem (já na idade na qual ele se encontra).

A maior dificuldade em analisar uma figura saída de um romance de Dostoiévski reside no entendimento que a maior parte de seus personagens tem de suas angustias, medos, fraquezas, maldades, em suma, de sua essência. Assim, o Homem do Subsolo não é um sujeito alienado de sua própria natureza ou que pensa ser uma formiga (de forma literal) ou que acredita ser o dono da verdade (de forma absoluta). Ele é apenas alguém que resolveu compartilhar suas memórias e escrever sobre os pensamentos que ocupam sua mente na maior parte do tempo.  Assim, se não há a necessidade de ajudá-lo a ter uma compreensão de si próprio (já que ele parece fazer isso muito bem, ainda que ele próprio compreenda que muito do que ele é dificilmente possa ser trazido à tona), torna-se complexo inferir quais das suas funções psíquicas possuem algum tipo de alteração (se é que existam tais alterações).

Na juventude, o Homem do Subsolo foi assessor colegial (um posto mediano da administração civil, no regime czarista) e tinha em seu chefe de seção um amigo, ainda que tal amizade se resumisse a uma necessidade de ambos em ter um ouvinte esporádico, mesmo que pouco ou nada compartilhassem de fato. Siétotchkin (o chefe de seção) era um senhor de meia idade que morava com suas duas filhas e as tias destas. Em uma das poucas passagens do livro que tem tal relação como foco, o Homem do Subsolo assim se pronuncia:

“Mas só ia visita-lo quando atingia aquela fase, quando os meus devaneios me traziam tamanha felicidade que me era inevitável e imediatamente necessário abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para este fim, necessitava contar ao menos com uma pessoa que existisse realmente.” (p. 73)

O Homem do Subsolo é um solitário. Uma pessoa que ficou órfã ainda criança e que foi enviado a um colégio interno onde teve péssimas experiências. Vive em meio a um eterno paradoxo: ao mesmo tempo em que acredita ser uma pessoa esclarecida, extremamente inteligente (até superiormente inteligente), a vida cotidiana com suas minúcias e necessidades simplórias mostra-lhe o quão ele está distante da imagem de homem bem sucedido projetada pela sociedade.

Vale ressaltar que um Homem do Subsolo não existe apenas como resultado de uma determinada sequência de DNA. É necessário que se entenda o contexto no qual tal história foi erigida, mesmo que a dimensão psicológica desse romance existencial extrapole qualquer tempo ou espaço. Como o livro foi escrito no século XIX, em meio ao apogeu da Revolução Industrial e do Sistema Capitalista, do abandono de explicações metafísicas e da supervalorização do pensamento positivista, é interessante o fato de ele ser uma crítica à supervalorização da razão e da lógica. Nesse ínterim, as palavras do Homem do Subsolo mostram o quão tal preocupação exacerbada da sociedade em viver em prol de uma racionalidade delimitada e de uma lógica inflexível podem causar a fragmentação de indivíduos que vivem à margem de tal sistema.

Após essa breve contextualização do personagem, seguir-se-á a realização do exame de algumas das suas funções psíquicas. Para tanto, trechos citados por ele serão apresentados.

Contradição

“Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. […] Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. […] Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.” (p. 15)

Nesse ponto é possível compreender os pensamentos contraditórios que permeiam a existência do personagem principal. Há, também, na forma irônica do seu discurso, a necessidade de refutação de toda e qualquer verdade absoluta, mesmo que essa verdade seja defendida por ele próprio. Ao mesmo tempo em que ele afirma algo, constrói, em seguida, uma refutação. É um escárnio ou uma forma de permanecer no subsolo, já que por mais que ele traga à tona suas memórias, ainda vive no subsolo e precisa manter certas verdades (mesmo que transitórias) submersas.

“Mas sabeis, senhores, em que consistia o ponto principal da minha raiva? O caso todo, a maior ignomínia, consistia justamente em que, a todo momento, mesmo no instante do meu mais intenso rancor, eu tinha consciência, e de modo vergonhoso, de que não era uma pessoa má, nem mesmo enraivecida…” (p. 16)

A grande dificuldade em analisar uma personagem de Dostoiévski é que eles, muitas vezes, já compreendem seus próprios demônios e nos apresentam a fragilidade de seus discursos elegantes em nome de mentiras bem construídas. O Homem do Subsolo sabia que vivia com máscaras presas à face, só não tinha noção de como era seu rosto sem elas.

Inteligência

“Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve – de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem.” (p. 17)

“… tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta. […] Finalmente, sou culpado porque, mesmo que houvesse em mim generosidade, eu teria com isso apenas mais sofrimento devido à consciência de toda a sua inutilidade.” (p. 21)

“… talvez o homem normal deva mesmo ser estúpido.” (p. 22)

“Todos os homens diretos e de ação são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então, se acalmam; isto é de fato o mais importante.” (p. 29)

A partir desse argumento, inicia-se um discurso recorrente sobre sua superioridade intelectual, ainda que ele desconstrua tal superioridade a todo o momento. Isso porque mesmo que sua aparente exacerbada inteligência seja motivo de orgulho, também é uma forma de tortura. Pois o homem prático, de natureza idiotizada, acalma-se mais facilmente com suas ações vazias e pela substituição das suas causas primeiras por causas secundárias, sem tanta importância.

Então, até poderia ser suscitado que há a ocorrência de alteração do Juízo da Realidade, na forma de um Delírio de Grandeza. No entanto, a maneira como ele próprio desconstrói essa sua superioridade intelectual, faz com que tal pensamento não tenha força suficiente para ser definido como delírio.

Consciência

“Uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa.” (p. 18)

“Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é ‘belo e sublime’, tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo.” (p. 19)

“Com efeito, o resultado direto e legal da consciência é a inércia, isto é, o ato de ficar conscientemente sentado de braços cruzados”. (p. 29)

Aqui o Homem do Subsolo mostra que sua inteligência e sagacidade ao invés de lhe trazer melhores condições de vida, torna-o ainda mais submerso. A consciência, nesse caso compreendida como o entendimento das coisas, ao invés de potencializar sua ação em busca de uma melhoria de vida, exponencializa sua inércia perante a realidade na qual está inserido. Esse entorpecimento da ação pode ser um potencializador de um sentimento depressivo, já que uma das funções psíquicas afetadas é a Atenção, mais especificamente uma diminuição da atenção “passiva” (hipovigilância), pois ele quase não muda de foco, tendo em vista que as descobertas de certas verdades tiraram-lhe o desejo de buscar novos caminhos e, por outro lado, propicia o aumento da atenção “ativa” (hipertenacidade), ou seja, a inércia constitui o foco principal de sua atenção.

Ciência e Lógica

“A própria ciência há de ensinar ao homem que, na realidade, ele não tem vontade nem caprichos, e que nunca os teve, e que ele próprio não passa de tecla de piano ou de um pedal de órgão; e que, antes de mais nada, existem no mundo as leis da natureza, de modo que tudo o que ele faz não acontece por sua vontade, mas espontaneamente, de acordo com as leis da natureza. […] Todo os atos humanos serão calculados, está claro, de acordo com essas leis, matematicamente, como uma espécie de tábua de logaritmos.” (p. 37)

“… meus senhores, não será melhor dar um pontapé em toda essa sensatez unicamente a fim de que todos esses logaritmos vão para o diabo, e para que possamos mais uma vez viver de acordo com a nossa estúpida vontade?!” (p. 38)

“Não há dúvida, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida. […] E, embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes algo bem ignóbil, é sempre a vida e não apenas a extração de uma raiz quadrada.” (p. 41)

“Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer, enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente, e, embora minta, continua vivendo”. (p. 41)

“Ter o direito de desejar para si mesmo algo nocivo e estúpido, sem estar comprometido com a obrigação de desejar apenas o que é inteligente”. (p. 42)

“… continuaria convicto de ser um homem e não uma tecla de piano! Se me disserdes que tudo isso também se pode calcular numa tabela, o caos, a treva, a maldição – de modo que a simples possibilidade de um cálculo prévio vai tudo deter, prevalecendo a razão -, vou responder-vos que o homem se tornará louco intencionalmente, para não ter razão e insistir no que é seu!” (p. 44)

“Dois e dois são quatro mesmo sem a minha vontade.” (p. 45)

“… na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora. Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontra-lo realmente… juro por Deus, tem medo. […] Ele ama o ato de alcançar, mas, alcançar de fato, nem sempre. E isso, está claro, é ridículo ao extremo. […] Mas dois e dois são quatro é, apesar de tudo, algo totalmente insuportável.” (p. 47)

“Dois mais dois são quatro” representa uma impossibilidade de mudança perante os fatos da natureza. A lógica que há em tudo parece extinguir qualquer fagulha de livre arbítrio que há no homem. A existência desse axioma (que é, de certa forma, representado pela vitória da razão) pode incitar no personagem a alteração na função psíquica Humor e Afeto, já que tal ação pode ser capaz de provocar-lhe a alteração do humor denominada Ansiedade, pois há um enorme desconforto perante as evidências de que tudo está preso a uma lógica, assim ele não vê uma saída para o futuro, pois “dois mais dois são quatro” mesmo sem a sua vontade.

Essa ideia do imperativo da lógica como fonte de alienação do indivíduo pode, em alguns contextos, ser considerada uma alteração do conteúdo do Pensamento, já que pode ser compreendida como uma Ideia Prevalente, dada a recorrência de tal pensamento em forma de um loop profundo.

O Jovem Homem do Subsolo

“Eu tinha apenas 24 anos. Minha vida já era, mesmo então, desordenada e sombria até a selvageria. Não me dava com ninguém, evitava até conversar, e cada vez mais me encolhia em meu canto. […] Notei bem que os meus colegas não só me considerava um tipo original, como até – tinha esta impressão continuamente – pareciam olhar-me com certa aversão. […] Atualmente, percebo com toda a nitidez, que eu mesmo, em virtude da minha ilimitada vaidade e, por conseguinte, da exigência em relação a mim mesmo, olhava-me com muita frequência, com enfurecida insatisfação que chegava à repugnância e, por isso, atribuía mentalmente a cada um o meu próprio olhar.” (p. 55, 56)

Em um primeiro momento acreditei que ele poderia ter uma alteração no Juízo da Realidade, em forma de um Delírio de Referência, dado o fato que ele acreditava constantemente que os outros estavam zombando-o ou criticando-o. Mas, o entendimento dele (ainda que só aos 40 anos) de que, na verdade, o olhar dos outros sobre ele era uma projeção de seu próprio olhar, fez a ideia do delírio cair por terra.

“Torturava-me o fato de que ninguém se parecesse comigo e eu não fosse parecido com ninguém. ‘Eu sou sozinho, e eles são todos’, dizia de mim para mim, e ficava pensativo.” (p. 58)

Essa crença pode ser representada por uma alteração do conteúdo do Pensamento, o Juízo da Realidade, em forma de uma Ideia Deliróide, pois há uma convicção por parte do personagem de que estará sempre sozinho, sempre afastado de todos os outros, sem nunca encontrar uma equivalência ou, ao menos, um semelhante.

“… ora desprezava alguém, ora colocava-o acima de mim. (p. 57)

“Sempre tive consciência deste meu ponto fraco e, às vezes, temia-o ao extremo: ‘Exagero em tudo, e é isto que me faz capengar’”. (p. 126)

“Era o cúmulo do suplício, uma humilhação incessante e insuportável, suscitada pelo pensamento, que se transformava numa sensação contínua e direta de que eu era uma mosca perante todo aquele mundo, mosca vil e desnecessária, mais inteligente, mais culta e mais nobre que todos os demais, está claro, mas uma mosca cedendo sem parar diante de todos, por todos humilhada e por todos ofendida.” (p. 66)

“Mais ainda: no mais intenso paroxismo da febre do medo, sonhava sobrepujá-los, vencê-los, arrastá-los, obriga-los a amar-me; bem, ainda que fosse ‘pela elevação das ideias e pelo meu indiscutível espírito’”. (p. 84)

Em alguns trechos do livro é possível verificar a mudança de humor e afeto na relação que ele tem com as pessoas e na representação dessas pessoas para ele. Observa-se na “fala” da personagem a falta de esperança, a desmotivação, a descrença no ser humano e um constante sentimento de negatividade, além de uma vida social limitada e conturbada. Apesar de ser visto como uma mosca (asqueroso, desnecessário e vil), acreditava que da caverna reluzente e límpida na qual viviam os outros, as sombras que se formavam diante de seus olhos “lógicos” eram ainda mais enganosas. Já no subsolo, sombras e coisas confundiam-se e fundiam-se, mas quem ali vivia era capaz de distinguir tais intersecções e as formas percebidas assemelhavam-se mais àquilo que ele entendia como real.

Amor / Tirania / Desesperança

“Eu e você… nos unimos… ainda há pouco, e nem uma palavra dissemos um ao outro, e, depois, você ficou a examinar-me como uma selvagem; e eu a você, também. É assim que se ama? É assim que uma pessoa deve unir-se a outra?” (p. 108)

“É que você… fala como se estivesse lendo um livro”. (p.113)

“Eu não sabia falar de outro modo a não ser ‘exatamente como um livro’”. (p. 119)

“Acostumara-me a tal ponto a pensar e a imaginar tudo de acordo com os livros, e a representar a mim mesmo tudo no mundo como eu mesmo anteriormente compusera nos meus devaneios, que então nem compreendi imediatamente aquele estranho fato. E eis o que sucedeu: ofendida e esmagada por mim, Liza compreendera muito mais do que eu imaginara. Ela compreendera de tudo aquilo justamente o que a mulher sempre compreende em primeiro lugar, quando ama sinceramente, isto é, compreendera que eu mesmo era infeliz.” (p. 139)

“… amar significava para mim tiranizar e dominar moralmente. […] O amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. […] Queria que ela sumisse. Queria ‘tranquilidade’, ficar sozinho no subsolo. A ‘vida viva’, por falta de hábito, comprimira-me tanto que era até difícil respirar.” (p. 142)

“Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos o fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isto nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma ideia.” (p. 146, 147)

No trecho supracitado, pode ser observada uma alteração quantitativa da Afetividade, com a diminuição na intensidade e duração dos afetos (hipotomia), bem como na incapacidade que o personagem tem de formular respostas afetivas adequadas e pela própria rigidez afetiva apresentada em vários momentos do texto (hipomodulação).

E, por fim, podemos ser levados a acreditar em uma alteração do Juízo da Realidade, na representação da ideia delirante denominada Niilista. Isso é evidenciado na constatação final do Homem do Subsolo de que somos natimortos, de que não sabemos mais ser gente no sentido real da palavra, de que o futuro é obscuro, especialmente pela grande probabilidade do fato observável e concreto eliminar o desejo e da razão sobrepujar qualquer outra manifestação de sentimento humano.

Com os fatos apresentados acima, é ainda complexo inferir uma patologia, pois seria por demais simplório apontar a Depressão, por exemplo. Mesmo porque as alterações nas funções psíquicas apresentadas não podem ser confirmadas apenas com o que foi citado pelo personagem, há uma carência de informações e dados para uma análise mais minuciosa e com um maior grau de certeza.

A princípio, ousei acreditar que ele não apresenta alteração de função psíquica alguma, apenas tem que lidar com reflexões que sua mente trouxe à tona do subsolo quando, na verdade, seriam mais saudáveis que permanecessem submersas. O personagem tem noção de tudo que vive, até os delírios seguem uma lógica de difícil refutação por outras pessoas. A única questão apresentada no livro que considero extremamente complexa e, por vezes, doentia é o sentimento exacerbado de inveja. Essa característica fez-me crer que ele não está suportando tão bem os fatos que emergiram do subsolo. E, se há uma recorrente manifestação de sua inabilidade em lidar com seus pensamentos, então talvez uma patologia ou já esteja enraizada nele ou a caminho. Mas, não há nada que garanta que tais sentimentos ou pensamentos transformar-se-ão em uma patologia de fato. Talvez seja mais prudente a compreensão de que o ato de viver signifique encontrar formas de lidar com nossa percepção do mundo, mesmo que esta percepção advenha de sentidos construídos a partir de fatos que possam refutar muito daquilo que uma dada cultura e época entendam por normalidade.

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.