Omulú e o arquétipo do curador ferido

Omulú ou Obaluaê, assim como Nanã Buruku é uma das divindades mais antigas do panteão iorubá.

Pierre Verger diz que a antiguidade dos cultos de Obaluaê e Nanã Buruku, frequentemente confundidos em certas partes da África, é indicada por um detalhe do ritual dos sacrifícios de animais que lhe são feitos. Esse ritual é realizado sem o emprego de instrumentos de ferro, indicando que essas duas divindades faziam parte de uma civilização anterior a Idade do Ferro e à chegada de Ogum (que veio com Odùduà).

Obaluaê (“Rei Dono da Terra”) ou Omulú (“Filho do Senhor”) são os nomes geralmente dados a Xapanan, cujo nome é perigoso pronunciar.

Omulí é a divindade da varíola e das doenças contagiosas. Ele pode tanto enviar a doença como curá-la. Sendo então, um Orixá das doenças e da saúde, e conseqüentemente da vida e da morte.

É tido como um Orixá sombrio, severo e terrível, caso não seja devidamente cultuado, porém pode ser um pai bondoso e fraternal para aqueles que se tornam merecedores, através de gestos humildes, honestos e leais.

Omulú seria, então, aquele que pune os malfeitores e insolentes enviando-lhes a varíola. Porém, mesmo com um caráter extremamente severo e punitivo é, por vezes capaz de completa abstração de seus próprios interesses e necessidades vitais em prol dos necessitados.

Em algumas lendas, é apresentado com o rosto e o corpo cobertos de palha para esconder as marcas da varíola, em outras, é também assim representado, mas já está curado, a palha seria apenas um artifício para impedir de ser olhado de frente por ser o próprio brilho do sol.

Seu símbolo é o Xaxará – um feixe de ramos de palmeira enfeitado com búzios.

É sincretizado com São Roque, na Bahia e em Cuba, e com São Sebastião no Recife e no Rio de Janeiro. Também se aproxima de São Lázaro na mitologia católica, pois como deus da varíola comumente é representado com o corpo cheio de feridas e abscessos, assim como o santo católico. Outra aproximação que pode ser feita é com o centauro grego Quiron. E sobre ele vale a pena falarmos um pouco mais.

Quíron era um centauro, considerado superior por seus próprios semelhantes. Pois ao contrário dos centauros que, como os sátiros, eram notórios por serem bebedores contumazes e indisciplinados, delinqüentes sem cultura e propensos à violência quando ébrios, Quíron era inteligente, civilizado, bondoso, e célebre por seu conhecimento e habilidade com a medicina.

Quiron é filho de Cronos e da ninfa Filira. Foi abandonado pela mãe quando nasceu que não suportou a figura de um ser metade homem, metade cavalo. Sendo posteriormente, encontrado e criado por Apolo, que como pai adotivo lhe ensinou todos os seus conhecimentos: artes, música, poesia, ética, filosofia, artes divinatóriase profecias, terapias curativase ciência.

Ele foi ferido na coxa por uma flecha lançada por Hércules. A flecha havia sido banhada no sangue da Hidra e era, portanto venenosa. Quíron não podia morrer, pois era imortal, e ficou com uma ferida incurável, se tornando impotente para curar seu próprio ferimento. Sofrendo intensamente, recolheu-se a uma gruta no monte Pélion onde, porém, continuou transmitindo seus conhecimentos aos discípulos. Teve como pupilos diversos heróis, como Asclépio, Aristeu, Ajax, Enéas, Actéon, Ceneu, Teseu, Aquiles, Jasão, Peleu, Télamon, Héracles, Oileu, Fênix, e em algumas versões do mito, Dionisio.

Quiron, assim como Omul, apresentam semelhanças em suas mitologias, como o fato de haverem sido abandonados no nascimento por suas mães, devido as suas características físicas (Omulú foi abandonado por Nanã devido às chagas que trazia em se corpo). Entretanto, Omulú foi criado por Iemanjá, diferente de Quiron que teve um pai adotivo, Apolo.

Com isso, podemos afirmar que ambos representam o mesmo arquétipo, o do curador ferido. Esse arquétipo representa aquele que mesmo ferido cura o outro. Isso porque entende o sofrimento humano.

Bons terapeutas apresentam esse arquétipo constelado, pois sem ter vivido a dor não poderá ajudar o outro em seu sofrimento. Mas há que se compreender essa dor. A dor não está tanto em suas chagas, mas sim no abandono. O fato de possuir as chagas ou a deficiência é que gera o abandono, mas é no abandono que o curador encontra a força e a compreensão que leva ao amadurecimento.

Zacharias (1998) aponta um aspecto interessante no mito de Omulú. Nanã representa outro aspecto da mãe terrível, o aspecto da mãe que abandona diferentemente de Iami Oxorongá que devora. O aspecto positivo do dinamismo materno está representado em Iemanjá, sendo aquela que cura as feridas físicas e emocionais, uma vez que ela leva Omulú novamente para Nanã para que se perdoem mutuamente. Portanto o mito aponta a solução que leva a cura. A cura está na compreensão e no perdão.

Nanã é a mãe terra que expulsa o filho de seu ventre. Se assim não o faz não há a possibilidade de amadurecimento. Querer permanecer no ventre materno, sendo aceito o tempo todo, em um paraíso utópico é um caráter regressivo, que irá nos manter refém.

Entender e compreender que no processo de individuação é necessário ser abandonado, para o desenvolvimento de nossa personalidade enquanto heróis de nossas vidas é o caminho para a cura. E em Iemanjá, que falaremos logo mais, encontra-se essa compreensão. Lembrando que estaremos novamente nos braços e ventre de Nanã em nossa morte. Seremos recebidos por ela novamente. Omulú compreendeu essa dinâmica, e isso o tornou um sábio professor da vida. Sua dor não desapareceu, mas a compreensão dela o faz transcende-la transformando o sofrimento em compaixão.

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.