Oxóssi e o arquétipo da liberdade

Oxóssi é basicamente o Orixá da caça que vive nas florestas. E é retratado sempre munido de seu o arco e flecha. É o caçador por excelência. Conforme as lendas, teria sido o irmão caçula ou filho de Ogum.

Orixá da fartura e do sustento (pois provê os alimentos), Oxóssi está sempre presente nas refeições. Sendo o símbolo da ligeireza, da astúcia, da sabedoria e do jeito ardiloso para faturar sua caça. De acordo com Pierre Verger, em sua obra Orixás, Oxóssi significaria “o guarda noturno é popular”.

Oxossi vive na floresta e está relacionado com as árvores e os animais. As abelhas lhe pertencem e representam os espíritos dos antepassados femininos. Possui a habilidade de imitar os gritos dos animais com perfeição. E a sua principal função é propiciar, o alimento em forma de caça e proteger contra o ataque das feras.

Esse orixá tem uma estreita ligação com Ogum e Ossain, o senhor das ervas medicinais. Da sua ligação com Ogum, aprendeu a arte da caça, pois dele recebeu suas armas e com Ossain obteve o conhecimento do uso das folhas terapêuticas, atribuindo a si uma importância também de ordem médica.

Oxóssi, apesar de sua ligação amorosa com Iansã e Oxum (com quem teve um filho, Logun Edé) é retratado como um solitário, pois em sua qualidade de caçador, tem que se afastar das mulheres e de tudo que lhe atrapalhe a concentração. Orixá da mesa farta e do despojamento, não é dado a grandes conquistas, somente ao que lhe é necessário ao sustento. Sua saudação entre os adeptos é “Okê Arô” e seu dia da semana é quinta-feira.

Para começarmos a análise psicológica do arquétipo representado por Oxóssi, é importante analisarmos seu principal símbolo, o arco e flecha. Nele está contido muito da personalidade de Oxóssi. O arco e flecha pode ser caracterizado como uma das mais inteligentes invenções da história da humanidade. Com essa arma, o homem passou a evitar a luta corpo a corpo, à qual estava submetido

Na antiguidade, o homem precisava lutar corpo a corpo com os animais para caçá-los ou atirar dardos ou lanças, o que era extremamente perigoso e tornava praticamente impossível a caça às aves. O arco e flecha, então, passou a proteger o homem que podia atirar a uma distância segura e em silêncio. Levando a humanidade a um salto para frente em termos de melhoria quanto à sobrevivência.

Arco e flecha então é considerado uma invenção inteligente, fruto da função intuição, uma vez que veio se opor a força bruta. Além disso, para se utilizar o arco e flecha em uma caçada, era necessário não apenas ter uma boa pontaria, mas um estado psicológico adequado. Se antes disso o caçador houvesse tido uma briga, certamente erraria o alvo.

Portanto é necessário para se atingir um alvo buscar o equilíbrio interior. E com isso, chega-se a conclusão que Oxossi simboliza essa busca do equilíbrio interior para que se alcance uma meta. Acertar o alvo requer concentração, inteligência e intuição.

Oxóssi é o arquétipo que quando constelado, nos auxilia a encontrar o equilíbrio interior para alcançarmos uma meta. Ele auxilia no processo de individuação, pois a meta é estar consciente do Self, trazendo paciência, concentração, autocontrole. Não adianta usar de força bruta para acelerar a conscientização de aspectos obscuros. Isso demanda tempo, paciência.

Outro aspecto importante a ser analisado é a floresta. A floresta é símbolo de regiões obscuras, inexploradas e ainda primitivas. O ato de entrar em sair da floresta, do caçador, levando alimentos ao povo simboliza a entrada e saída do inconsciente em um movimento de regressão e progressão da libido.

Uma de suas lendas também mostra uma faceta de Oxóssi muito importante.

Vamos à lenda, tirada do livro Orixas de Pierre Verger.

“Olofin Odùduà, rei de Ifé, celebrava a festa dos novos inhames, um ritual indispensável no inicio da colheita, antes do quê, ninguém podia comer desses inhames. Chegado o dia, uma grande multidão reuniu-se no pátio do palácio real. Olofin estava sentado em grande estilo, magnificamente vestido, cercado de suas mulheres e de seus ministros, enquanto os escravos o abanavam e espantavam as moscas, os tambores batiam e louvores eram entoados para saudá-lo. As pessoas reunidas conversavam e festejavam alegremente, comendo dos novos inhames e bebendo vinho de palma. Subitamente um pássaro gigantesco voou sobre a festa, vindo pousar sobre o teto do prédio central do palácio. Esse pássaro malvado fora enviado pelas feiticeiras, as Ìyámi Òsòròngà, chamadas também as Eleye, isto é, as proprietárias dos pássaros, pois elas utilizam-nos para realizar seus nefastos trabalhos. A confusão e o desespero tomam conta da multidão. Decidiram, então, trazer sucessivamente Oxotogun, o caçador das vinte flechas, de Ido; Oxotogí, o caçador das quarenta flechas, de Moré; Oxotadotá, o caçador das cinqüenta flechas, de Ilarê, e finalmente Oxotokanxoxô, o caçador de uma só flecha, de Iremã. Os três primeiros muitos seguro de si e uns tanto fanfarrões, fracassaram em suas tentativas de atingir o pássaro, apesar do tamanho deste e da habilidade dos atiradores. Chegada a vez de Oxotokanxoxô, filho único, sua mãe foi rapidamente consultar um babalaô que lhe declarou: “Seu filho está a um passo da morte ou da riqueza. “Faça uma oferenda e a morte tornar-se-á riqueza”. Ela foi colocar na estrada uma galinha, que havia sacrificado, abrindo-lhe o peito, como deveriam ser feitas as oferendas as feiticeiras, e dizendo três vezes: “Quero o peito do pássaro receba esta oferenda”. Foi no momento preciso que seu filho lançava sua única flecha. O pássaro relaxou o encanto que o protegia, para que a oferenda chegasse ao seu peito, mas foi a flecha de Oxotokanxoxô que o atingiu profundamente. O pássaro caiu pesadamente, se debateu e morreu. Todo mundo começou a dançar e cantar: “Oxó é popular! Oxó é popular! Oxowussi! Oxowussi!! Oxowussi!”

As Iami Oxorongá representam as mães ancestrais. Elas são apresentadas como um misto de feiticeira e pássaro com um grito pavoroso e estão sempre iradas. São cruéis, chegando ao ponto de matar e devorar os próprios filhos. As Iami representam o inconsciente devorador, e o fato de matá-las representa o ato de se desprender do caráter regressivo e destrutivo do inconsciente. Levando a saida do paraíso representado pelo útero materno, para a vida adulta.

Esse tema do herói que mata o dragão, ou o animal terrível, é comum nas fábulas e contos de fada. E simboliza a saída do herói das garras da “mãe” terrível, possibilitando o encontro com a sua anima. Oxóssi, portanto, representa o arquétipo da liberdade. Mas a liberdade verdadeira só pode ser alcançada quando nos libertamos do caráter regressivo do inconsciente e de atitudes infantilizadas. Pois com a liberdade encontramos a responsabilidade. E Oxóssi é a responsabilidade de ganhar seu próprio sustento.

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.