Perséfone – a deusa virgem e rainha do submundo

Coré ou Perséfone é filha de Zeus, o senhor do Olimpo e Deméter, a Senhora da vegetação e da produtividade da terra. Conhecida como Prosérpina pelos romanos. A palavra Coré ou Kore, em grego, significa donzela ou filha. Por isso enquanto Coré é a Deusa doce e virgem.

Hades e Perséfone

Seu mito conta que vários deuses como Hermes, Ares, Apolo e Dioniso cortejaram Coré. Sua mãe Deméter, no entanto rejeitou a todos e escondeu a filha longe da companhia dos deuses.

Quando os sinais de sua grande beleza e feminilidade começaram a brilhar, em sua adolescência, Coré chamou a atenção de seu tio Hades que a pediu em casamento. Zeus, sem sequer consultar Deméter, atendeu ao pedido de seu irmão, que, impaciente, emergiu da terra e raptou-a enquanto ela colhia flores com as ninfas, ou segundo os hinos Homéricos, a deusa estava também junto de suas irmãs Atena e Artemis. Hades levou-a para seus domínios (o mundo dos mortos), desposando-a e fazendo dela sua rainha.

Irritada com Hades e Zeus, decidiu não mais retornar ao Olimpo, permanecendo na terra, abdicando de suas funções divinas, até que lhe devolvessem a filha. Inconsolável, acaba por se descuidar de suas tarefas levando as terras a tornarem-se estéreis e a escassez de alimentos.

Ela então se recusa a ingerir qualquer alimento e começa a definhar. Ninguém sabe lhe contar o que aconteceu com sua filha, mas Deméter depois de muito procurar finalmente descobre através de Hécate e Hélio que a jovem deusa havia sido levada para o mundo dos mortos, e junto com Hermes, vai buscá-la no reino de Hades (ou segundo outras fontes, Zeus ordena que Hades devolva a sua filha).

Como, entretanto Perséfone tinha comido uma semente de romã concluiu-se que não havia rejeitado inteiramente Hades. Assim, estabelece-se um acordo, ela passaria metade do ano junto a mãe, quando seria Koré, a eterna adolescente, e o restante com Hades, quando se tornaria a sombria Perséfone (Wikipedia, 2014).

Perséfone e Hades Plutão (com a cornucópia): gravura em fundo vermelho numa cílice, ca. 440–430 a.C.

A papoula e o narciso são as plantas a ela dedicadas. A papoula devido ao fato de ter abrandado a dor de sua mãe na ocasião de seu rapto. E o narciso, pois estava colhendo esta flor quando foi raptada por Hades. A ela também são associadas as serpentes.

Em seu mito podemos ver várias imagens arquetípicas importantes. Um deles é a imagem do rapto. A imagem do rapto representa um ritual de iniciação pertencente a ritos da vegetação. Normalmente, o rapto se consuma no outono, “quando os trabalhos agrícolas estão terminados”, os celeiros estão cheios e é, portanto, o momento de se pensar e preparar a próxima colheita (Brandão, 1986).

O rapto da noiva também era um costume entre os gregos e romanos onde a noiva sendo levada nos braços do noivo simula uma fuga e começa a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a acompanham. Psicologicamente isso significa que para a mulher o ato do casamento significa a morte. A morte de sua ligação com a mãe e de sua imaturidade enquanto mulher.

Pois para a relação mãe e filha o masculino é visto como violador e sequestrador.

Outro tema importante é o da heroína ou deusa que cai no sono da morte. Esse é um tema comum em contos de fadas. Heroínas como Branca de Neve e A Bela Adormecida ficaram adormecidas por um tempo devido a maldição de uma bruxa e despertaram por meio de um beijo de amor.

O mito de Perséfone pode fazer o seguinte paralelo com A Bela Adormecida: No conto a maldição do sono tem a duração de cem anos. Durante esse tempo o reino se tornou estéril e uma parede de espinhos cresceu ao redor do castelo. No mito a terra se torna estéril e sem vida, pois Demeter está sofrendo.

A esterilidade da Terra significa psicologicamente que o feminino está dormente, por essa razão não há fertilidade e tudo se tornou árido.

Ou seja, o mito da descida cíclica de Perséfone ao Hades e seu retorno a superfície simboliza as estações do ano e a fertilidade da terra, assim como os mistérios femininos, que inclui a espera pelo tempo certo para que algo amadureça.

Perséfone foi a figura central nos Mistérios de Elêusis, que por dois mil anos antes do cristianismo foi a principal religião dos gregos. Nos Mistérios de Elêusis os gregos experienciavam a volta ou renovação da vida depois da morte através da volta anual de Perséfone do Inferno (Bolen, 1990).

Era um rito centrado na Grande Mãe. Perséfone era uma deusa tipicamente cretense, assim como Hera, ou seja, ela era uma transposição da Grande Mãe, que foi assimilada pelos gregos, recebendo uma mãe grega, mas mantendo seu aspecto de fecundidade. Por essa razão era chamada de Hera infernal.

Perséfone também se liga a Afrodite, sendo que as duas rivalizavam em beleza. Com ela forma um par de opostos: a deusa da morte dos grãos e a deusa da vida dos grãos.

A híbrida Coré-Perséfone nos mostra dois arquétipos distintos em uma mesma divindade: o da jovem-virgem e o da rainha do mundo dos mortos.

Como a jovem Coré esbelta e bonita, está associada com símbolos de fertilidade: a romã, o grão, o milho, e também com o narciso. Como rainha do Inferno, simboliza uma deusa experiente que reina sobre os mortos, guia os vivos que visitam o mundo das trevas, e pede para si o que deseja.

Demeter e Perséfone

Coré representa a mulher presa a uma mãe dominadora e protetora. A eterna adolescente que não sabe o que quer e se deixa manipular por outras pessoas. Mesmo adulta está sempre voltada a agradar a mãe. Geralmente seu lado masculino é ausente e primitivo. O homem é visto como intruso nessa relação, sendo que somente um rapto, ou seja, uma possessão para ajudá-la a se relacionar com ele e adquirir características como objetividade e foco. Assim como A Bela Adormecida, espera para ser acordada de seu sono.

Já como Perséfone ela representa o aspecto feminino que empreendeu a descida ao inconsciente e ao sofrimento e por isso é capaz de guiar os outros em suas jornadas. Ela alcança um desenvolvimento psicológico e uma autonomia ao entrar em contato com sua subjetividade e não ficar presa a ela.

Perséfone é aquela que é capaz de regredir ao mundo interior quando necessário e de saber quando voltar para as exigências do mundo externo renovada.

Assim como Hera ela também é uma Rainha e ao contrário dela tem um casamento harmonioso com Hades, com raras brigas.

O rapto de Perséfone por Hades

Perséfone é o símbolo da função intuição, mas que amadureceu e mantém um relacionamento com sua contraparte inferior a sensação, representada pelo mundo subterrâneo e seu marido Hades. Nesse compromisso estabelecido com a função inferior é possível para a intuição materializar suas ideias no mundo exterior.

Para concluir, Perséfone é o arquétipo que nos auxilia em nossa descida a nossa própria profundeza. Ela é um guia, um psicopompo. A mediadora entre a realidade externa e a subjetividade interna. É ela, portanto, quem pode nos auxiliar na compreensão do significado simbólico de nossos próprios sofrimentos.

 

 

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.