Peter Pan e o arquétipo Puer Aeternus

O conto Peter Pan foi criado por James Matthew Barrie quando contava histórias aos filhos da sua amiga Sylvia Llewelyn Davies. Inicialmente foi idealizada para uma peça de teatro. Essa parte da vida do autor foi tema do filme Em busca da terra do nunca, com Johnny Depp. Peter Pan apareceu pela primeira vez 1902 em um livro intitulado The Little White Bird, uma versão ficcionada da relação de Barrie com as crianças de Sylvia Davies e que foi adaptada ao teatro. Em 1911, Barrie fez outra adaptação que chamou de Peter e Wendy, mas que normalmente é chamada simplesmente de Peter Pan (Wikipedia 2015).

Peter Pan é um pequeno rapaz que se recusa a crescer e que vive em busca de aventuras mágicas. Ele é apresentado como um menino adorável vestido de folhas e coberto da seiva que brota das árvores. Ele toca flauta e tem dentes de leite. O tema central da estória de Peter Pan gira em torno da descoberta infantil de que não será mais criança para sempre e irá crescer e se tornar adulto. A personagem Wendy mostra claramente a angustia e o medo gerados por essa descoberta.

A menina Wendy e seus dois irmãos recebem a visita de Pan todas as noites. A princípio ele aparece em sonhos para as crianças, mas a mãe deles – que já o conhecia de sua própria infância – percebe algo de errado, e passa a dormir com as crianças. Mas em uma noite em que precisa se ausentar com o marido a tragédia acontece e as crianças vão com Pan para a Terra do Nunca.

O autor do livro menciona que a partir dos dois anos a criança percebe que irá crescer. Por volta dessa idade a criança começa a ter noção do “eu”, ou seja, seu ego começa a se formar e ela começa a distinguir o eu e o objeto. Como o ego possui uma base somática, ligado ao corpo, ele passa então a ter o sentido de finitude. No livro não é mencionada a idade de Wendy, mas observamos pela narrativa que a menina está saindo da fase infantil e entrando na adolescência. Vemos essa passagem da saída da infância pelo fato de ela se interessar por Peter como homem e desejar um beijo, ou seja, ela está entrando na fase do encontro com o outro. Vemos que ela deseja ser mãe e formar sua família. E é ai que reside a força do conflito e da angustia da criança. Wendy é a heroína da história e sua angustia se manifesta na fuga da realidade com a ida à Terra do Nunca. Lá Wendy fantasia apenas que formou uma família. É tudo apenas uma brincadeira onde ela não precisa se comprometer.

Peter Pan toca flauta, o que o aproxima ao deus grego, deus dos bosques, dos rebanhos e dos pastores, e do pavor súbito. Por essa razão do seu nome se deriva o pânico. Mostrando que Peter é muito ligado a natureza, mas que também é apavorante e assustador. Pan também se aproxima do arquétipo que Carl Jung denominou de puer aeternus, ou seja, a eterna criança.

Conforme Von Franz (2005)

“Puer aeternus é o nome de um deus da antigüidade. As palavras vêm de Metarmophoses de Ovídio e são aplicadas ao deus-criança nos mistérios eleusinianos. Ovídio fala do deus- criança Iaco, dirigindo-se a ele como puer aeternus e cultuando- o em seu papel nesses mistérios. Posteriormente, o deus-criança foi identificado com Dionísio e com o deus Eros.”

Von Franz (2005) também aponta que se trata de um deus da vida, da morte e da ressurreição — o deus da juventude divina. Pan, após seu confronto com Gancho, é questionado pelo pirata sobre quem ele é. E o menino responde: “Eu sou a juventude, sou a alegria, sou um passarinho que acabou de sair do ovo”. Isso confirma que se trata de uma imagem arquetípica do Puer Aeternus.

Em termos individuais Peter Pan indica certo tipo de jovem tomado por um complexo materno fora do comum. Alguns homens se identificam com esse padrão e se comportam a vida toda como adolescentes. Tendo comportamentos que seriam absolutamente normais para os adolescentes, mas que não condizem mais com a vida adulta. Peter não só não tinha mãe, como não sentia a menor vontade de ter. Achava que se dava a elas um valor exagerado. No entanto, ele se liga a Wendy e a leva para a Terra do Nunca na pretensão de transformar a menina em sua mãe e dos meninos perdidos.

Isso mostra que o homem identificado com esse complexo só relaciona com uma mulher de forma a buscar uma substituta da mãe. Ele não quer uma mulher, mas alguém que cuide dele com amor maternal, pois o homem dominado por esse complexo é dependente da mãe. Ele procura uma mãe-deusa, portanto, cada vez que se apaixona por uma mulher, mas logo descobre que ela é um ser humano comum (Von Franz, 2005).

Pan tem uma relação ambígua com a figura da mãe: apesar de desprezá-la ele deseja uma. Na verdade o que ele despreza é o aspecto da Mãe Terrível, aspecto esse ligado a figura da bruxa. A Mãe Terrível é um aspecto extremamente necessário para o desenvolvimento da personalidade e para o processo de individuação, uma vez que ele é quem impulsiona para a independência e saída do paraíso materno. Vemos isso representado claramente nos contos de fadas, quando o herói ou a heroína é perseguido (a) ou expulso (a) de casa pela bruxa.

Portanto, Pan deseja apenas a Mãe Boa, aquela que mantém o filho preso em um estado regressivo e infantil a vida toda. Pan se relaciona com várias fadas e com Wendy, mas não se apega a nenhuma e simplesmente se esquece delas quando se entendia. Os homens desse tipo podem ser bem sedutores, verdadeiros “Don Juan”, mas ao conviver com eles a falta de compromisso e responsabilidade gera vários transtornos nas mulheres por ele seduzidas. E um deles é o ciúmes! Sininho, a fada que está mais próxima ao menino morre de ciúmes quando ele traz Wendy para a ilha. E Peter demonstra uma total desconsideração pelo sentimento dela.

Pan mostra sua faceta de Don Juan e sedutor ao saber usar as palavras na hora certa para encantar Wendy. Ele diz que as meninas são “mais sabidas” e que ela pode conhecer as sereias e ser mãe dos meninos, o que atiça a vaidade da menina e acende o desejo dela de junção com o outro e o despertar do desejo pela maternidade. No começo essa proposta é muito tentadora. Mas com o tempo a menina percebe que eles querem coisas diferentes. Ela já esta se tornando mulher e quer um beijo. No entanto, ela também percebe que ainda não pode realizar essas fantasias, pois ainda está em uma fase intermediária em que ainda precisa dos pais.

Por isso a realidade não permite que ela viva em um mundo de brincadeiras: Ela ainda não está pronta para ser mãe, mas também não quer mais brincar como criança, por essa razão precisa do auxilio da mãe que a oriente nessa fase de transição. O Puer Aeternus geralmente possui grandes dificuldades de adaptação a situações sociais, pois ele possui um de individualismo anti-social devido ao fato de se sentir alguém especial. Dessa forma ele não sente necessidade de adaptar-se, pois as pessoas é que têm que adaptar-se a um gênio como ele, e assim por diante (VON FRANZ, 2002).

E vemos essas características em Peter Pan. Ele é retratado como um sujeito arrogante (algo que enfurece Capitão Gancho), exibicionista e convencido. Outra característica que o aproxima do Puer é a de gostar de variedade e de repente achar sem graça uma brincadeira que momentos anteriormente o encantara. Ou seja, o Puer possui inconstância em seus interesses, por essa razão não conseguem se encaixar em um trabalho.

Para Peter fantasia e realidade são a mesma coisa. Esse tipo de pensamento fantasioso é típico da criança e dos povos primitivos, onde a mitologia era uma realidade e não algo simbólico. Mostrando que a energia psíquica no Puer está em constante estado regressivo e não consegue progredir para construção de algo no mundo externo. Isso se manifesta na constante recusa interior de viver o presente.
Peter também não possui empatia e faz as coisas apenas por vaidade. Algo bem típico de alguém em estado infantilizado, pois no processo de crescimento ocorre o interesse pelo outro. Ele não se liga ao outro, por isso vive constantemente esquecendo quem é Wendy, João e Miguel.

No homem tipo Puer há um medo terrível de se ligar a qualquer coisa, de se prender, de entrar no tempo e no espaço totalmente (por isso Peter vive na Terra do nunca), e de ser o ser humano específico que ele é. O fato de voar mostra que Peter quer se afastar ao máximo da Terra e da vida comum. Por isso é comum os homens identificados com esse arquétipo buscarem esportes como alpinismo e aviação, simbolizando a separação da mãe, isto é, da terra com sua vida comum.

Pan é extremamente sedutor e carismático, pois tem o charme da juventude e, portanto mostra nosso lado sedutor, mas que não quer enfrentar a realidade e assumir responsabilidades. Quantas vezes não nos pegamos sonhando em nos livrar das responsabilidades? Quantas vezes não sonhamos em voltar a sermos crianças livres e descompromissadas? Esse nosso lado pode ser extremamente estimulante e nos levar a situações não convencionais, nos tirando da rotina. Entretanto devemos tomar cuidado em intercalar as nossas vidas com responsabilidade e o compromisso, uma vez que dar vazão somente ao lado infantil de nossa personalidade pode nos levar a alienação e a consequências trágicas.Outro aspecto de Pan está relacionado com a crueldade e a sede de sangue que ele e os meninos perdidos apresentam. Os meninos são sanguinários e Peter os mata quando parecem estar crescendo, pois isso é contra as regras. Vemos o prazer em matar que os meninos têm ao enfrentar os piratas sanguinários. No conto temos na ilha os meninos, os piratas, os pele-vermelha e os animais. Isso forma um quatérnio que representa a sede de poder e sangue por trás de Peter. Esse quatérnio vive em relativo equilíbrio, como uma cadeia alimentar, até a chegada de Wendy. A presença da menina passa a atrapalhar os planos do Capitão Gancho, que representa aspectos sombrios de Peter.

Gancho também não tem mãe. Ele persegue a juventude de Pan, pois é o seu oposto: velho, ranzinza e desesperado pelo poder. Ele representa o aspecto sombrio do espírito na consciência coletiva que tenta impedir a renovação. A semelhança de Cronos ele tenta impedir o crescimento de uma nova vida, pois a criança é esse símbolo. O autor diz que quando as crianças morriam,Peter Pan as acompanhava durante um pedaço do caminho, para que não tivessem medo. Ou seja, ele também é um guia de almas. Esse pode ser um caminho para o desenvolvimento doPuer.

O homem com esse complexo pode desenvolver os aspectos de Hermes, deus grego que simboliza o guia das almas. O Puer ao assumir um compromisso com um trabalho criativo e não convencional pode ajudá-lo a se assemelhar a esse deus, símbolo da inteligência e da astucia e a se tornar um guia para aqueles que têm medo de atravessar a trajetória de suas vidas. Mas, além disso, é importante lembrar que Wendy é a heroína da história. Ela é levada a Terra do Nunca e lá passa a morar em uma casa subterrânea, dentro da terra, (a terra representa a mãe de forma simbólica). Ela passa a cozinhar, costurar, limpar e arrumar. Ela e os meninos moram dentro de árvores. Na psicologia analítica a árvore simboliza a vida humana, o desenvolvimento e o processo interior de formação da consciência no ser humano. O Self é a árvore — aquilo que no homem é maior que seu ego (VON FRANZ, 2002).

Von Franz (2002) aponta que quando o ser humano é suspenso em uma árvore é porque costuma se evadir, tentando se libertar e agir livre e conscientemente, e por isso ele é dolorosamente arrastado de volta ao seu processo interior. Como o Puer, muitos jovens, em determinado momento de suas vidas, têm que resolver seu complexo materno e perceber que o curso da vida não permite a permanência eterna nesse estado; ele tem que morrer.

Nesse caso, a presença de Wendy, que pode simbolizar a anima que faz o chamado para a individuação e a meta, traz a esses meninos a oportunidade de saírem de seu complexo materno. Por isso ela os chama para irem embora com ela. Os meninos vão, crescem e passam a viver uma vida normal. Mas infelizmente uma parte da libido de Wendy ainda fica presa na infantilidade, pois Peter se recusa a ir com ela.

Do ponto de vista de Wendy, pode-se afirmar que ela simboliza a mulher que possui um animus ainda em estado infantilizado. O animus geralmente é representado como um grupo, e no conto ela se relaciona com esse animus em seu inconsciente, aqui representado por vários grupos, inclusive dos animais. Se observarmos o pai de Wendy, ele é apresentado como um homem cujas emoções não foram diferenciadas. Ele é trabalhador, mas não consegue ganhar dinheiro suficiente para a família e vive sendo tomado por sua anima e se enchendo de humores inconstantes. Ele é quase uma criança mimada em termos de emoções. E essa experiência com o pai pessoal molda a relação de Wendy com seu animus e os homens.

Von Franz (puer) aponta que no caso da mulher com um animus do tipo Puer, a cura é infelizmente a mesma do homem, isto é, o trabalho e também pode também ser através da maternidade. Nesse caso, Wendy trabalha, e muito! E vemos que quando cresce ela se torna mãe e forma uma família. No entanto, ainda uma parte de seu animus ainda permanece indiferenciado e preso na infância. Assim o conto termina com sua filha e sua neta repetindo sua jornada a Terra do Nunca. Ou seja, o problema foi apenas parcialmente resolvido e Peter permanece em seu estado de eterno menino.

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.