Princesas Disney: estereótipos e o universo feminino

 

Maçãs do rosto rosadas, anjos de pura candura. A juventude pulsa ainda tenra e ingênua quando desejos estranhos surgem naquele corpinho nem mais tão menina, tampouco ainda mulher. Nele, uma polpa macia amadurece rubra, viscosa, úmida, muito próxima de estar pronta para ser fartamente saboreada por ávidos alazões que bufam hormônios em franca ebulição. São muitos os adjetivos e atributos que poderíamos dar a essas damas tão graciosas que povoaram o ideário de crianças e adolescentes através da imaginação de Walt Disney e suas princesinhas encantadas. Ao lembrar-me delas, imediatamente penso cor de rosa, ouço passarinhos cantando de felicidade eterna e vejo se formarem caminhos de luz com arco-íris gigantes e reluzentes etc… Mas, digamos, parece que a coisa não é bem essa baboseira toda, ou mais bem dizendo, não é só isso o que acontece!

É certo que o gênio de Disney ao resgatar contos de fadas, alguns deles do século XVII (ou anteriores) recriados pelos irmãos Grimm (século XIX), reinventou o estereótipo da doce criatura púbere e angelical da princesa. O mundo ganhou em 1937 Branca de Neve como a primeira das três que inauguraria a série de ninfetas pré-adolescentes que encantariam pessoas do mundo inteiro por muitos e muitos anos.

 

 

 

Porém, valho-me aqui de um grande pensador, pai da psicanálise, Sigmund Freud para apimentar um pouco a questão. Ao postular a interpretação dos sonhos em 1900, Freud nos traz a ideia de que o sonho tem dois componentes básicos: um manifesto e outro latente. Quis dizer com isso que as cenas e vivências que se passam por nossa consciência onírica, muitas vezes lembradas quando acordamos, se chama conteúdo manifesto. Este é formado por resquícios de memórias recentes, cenas e situações vividas que darão o palco para o sonho. Mas, para que esse sonho seja realmente compreendido naquilo que ele quer expressar (lembrando que para Freud sonho seria a realização do desejo inconsciente), devemos saber o que está por de trás daquelas cenas, escondido, disfarçado e enigmático, e que estaria a serviço da instância psíquica chamada Inconsciente. A isso ele chamou de conteúdo latente. Na realidade, para Freud, o conteúdo latente era totalmente distorcido pelo trabalho do sonho, pois haveria uma censura que impediria que fosse escancarado, pois a cultura em que vivemos é feita por normas, regras e interditos. O sonho, como a realização de desejos e verdades profundas, não poderia ser revelado em sua forma nua e crua.

Pois bem, no que se refere às nossas donzelas, se aplicarmos este raciocínio veremos que a extrema inocência esconde muitas outras coisas que os desenhos, aqui representados pelo conteúdo manifesto do sonho, não diziam. Aliás, isso é fascinante, pois os contos de fadas, conforme muitos autores já estudaram, (Bruno Bettelheim, por exemplo), são histórias fantásticas que expressam todo o universo infantil latente com seus temores, conflitos e desejos.

Mas o que então estaria por trás daqueles belos rostinhos encantadores das princesinhas e suas vidinhas que terminavam sempre no famoso ‘felizes para sempre? Não irei particularizar cada uma delas, mas é importante sabermos reconhecer que as três primeiras tinham mais ou menos as mesmas características. Falo aqui de Branca de neve, Cinderela e Aurora (A Bela Adormecida).

 

 

Todas elas, mais ou menos na casa dos 14 anos, isto é entrando na adolescência, tinham relações parentais muito complicadas, que variavam da ausência da mãe à presença de madrastas terríveis, figuras paternas fracas ou inexistentes, submissão, sujeitas a maus tratos, passividade e uma virgindade incontestável cuja finalidade era descobrir o sexo com seu grande amor e pertencer somente a ele por toda vida, isto é, a um príncipe. Todas elas, por caminhos distintos, tinham essas finalidades: serem posse de um macho alfa (príncipe) e fim de papo.

 

 

Bingo! Eis aqui o arquétipo que se esperava de uma jovem prestes a se tornar mulher. Por trás de toda aquela pureza essas três princesinhas representavam as mulheres e a submissão delas, fadadas a serem apenas amantes, mães e donas de casa, obedientes aos seus senhores, devendo perpetuar o império do macho que sempre existiu no mundo até o final da primeira metade do século vinte. Walt Disney foi acusado de antissemitismo, sexismo etc., mas deixando isso de lado, pois não é o objetivo deste ensaio, é claro que essas três princesinhas eram o protótipo da extrema submissão, recalques sexuais e conflitos parentais imensos que tinham na criação de seus desenhos maravilhosos um veículo de expressão de toda uma cultura machista que foi preponderante em nossa civilização.

Pois bem, mas os tempos mudaram, e como mudaram! A partir da década de 50, 60 do século vinte, houve a maior revolução que a humanidade já pode ter visto, e que, segundo o psicanalista Joel Birmam, se deu sem armas no espaço mais curto que se possa imaginar: entre o quarto e a cozinha. Foi a revolução feminista. Com o Advento de métodos anticonceptivos eficazes a mulher ganha autonomia, se desenvolve como cidadã e conquista espaços até então exclusivos ao universo masculino. Passa a poder optar se queria ou não ser mãe e o casamento se justificaria segundo seu desejo, não mais pela obrigação. Começa a diferenciar o mundo do prazer do mundo da maternidade. Parceiros daí em diante só se fossem promotores de seus ideais em outras dimensões da vida, do contrário, eles não serviriam mais. Pronto, já não havia espaço às patéticas e graciosas princesinhas que tinham no marido-príncipe o único ideal de vida.

Curiosamente houve um hiato de trinta anos depois da última das três primeiras princesas, a Bela Adormecida (1959), sem que outras fossem criadas pelos estúdios Disney, até que em 1989 surge Ariel, a Pequena Sereia.

 

 

Substancialmente diferente das anteriores, Ariel era briguenta, pirracenta, impulsiva, enfrentou e desobedeceu seu pai, se envolveu em lutas, foi presa por uma bruxa e bateu o pé até virar humana! Segue-se depois dela um rol de outras tantas que apesar de não abandonarem o ideal do amor, não tinham posturas conformistas ou submissas, mas libertárias, desejosas por conhecer o mundo e participar de batalhas. Não eram mais necessariamente louras caucasianas, mas mouras (Jasmine),  peles vermelhas (Pocahontas), chinesas (Mulan), Negra (Tiana)… Enfim, tudo de fato mudara no universo encantado, pois o mundo já não era o mesmo e não havia espaço para aquelas ninfetinhas com os seios se tornando protuberantes à espera de um falo para obedecerem para todo o sempre…

Bem, mas aqui surge então um questionamento. E hoje, em plena adolescência do século XXI, onde estarão as princesinhas? Procuro e não acho um estereótipo que vista qualquer ideal feminino num arquétipo adequado aos dias de hoje. Será porque não o tenhamos mais? Ou será porque estejamos apenas vivendo uma transição onde os extremos do feminismo foram descontruídos? Quem sabe, indo por terra toda a radicalidade da libertação absoluta da mulher, um meio termo onde a harmonia entre os gêneros, a construção de um novo modelo de amor, família, e relações ainda está se estruturando e sendo reinventado. Será? Não sei, mas ao falar isso, me vem à mente no exato momento alguém cujo nome também é BELA. Mas, posso garantir que esta Bela está muito longe daquela de Disney e dos castelos encantados. Essa Bela, ainda que tenha dormido um soninho como sua avó, a Bela Adormecida, assim o fez não para esperar um principezinho qualquer, mas para se tornar uma morta-viva!

 

 

Dividida entre o amor de um vampiro depressivo e um lobisomem irritado, passou a figurar entre os seres imortais que se alimentam de sangue e são amaldiçoados pela raça humana. Bela se torna uma vampira famosa e a saga Crepúsculo é a mais nova inspiração entre os adolescentes, seja lá o que isso possa representar.

Ah, lembrei-me também de uma versão tupiniquim de heroína, chamada, não de princesa, mas de ‘a rainha dos baixinhos’. Um exemplo não mais de ninfeta ingênua, mas de uma mulher, mulher, com passado, digamos, nada Disney que seduz, pelo poder midiático, meninas novas a deixarem logo de ser crianças, encurtando a infância através de uma sexualidade cada vez mais precoce. São meninas de 10 ou 11 anos maquiadas, cabelo feito, roupas ousadas que procuram mostrar protuberâncias onde ainda não existem e que idolatram príncipes televisivos que rebolam, usam calças apertadas e cantam todo tipo de bobagens; a exemplo das tristes crianças candidatas à miss América, como muito bem mostrou o Filme “Pequena Miss Sunshine…

 

 

Confesso ao final não saber ao certo qual modelo hoje se encaixa e a qual estereótipo de transição se encontra o universo púbere feminino.  Sei do impacto funesto do mercado gigantesco capitalista que impõe, através de mídias variadas, regras e costumes ligados ao consumismo como doutrina de vida e me encho de arrepios só de imaginar um ideal arquetípico de uma princesa vampira e seus vampirinhos ou lobisomenzinhos como seres amados. Como Zygmunt Bauman tanto chama a contemporaneidade de “líquida”, penso aqui (lembrando do sangue que Bela se alimenta) na “infância líquida” que se escoa pela ampulheta veloz da pós-modernidade, condenando talvez a infância ao fim…

Bem, desejo muito boa sorte a todos aos que forem se arvorar neste cativante desafio do universo, sempre mágico das princesas, em especial às do universo encantado e encantador do inesquecível gênio Walt Disney. Tenho certeza que cada uma delas será trazida com riqueza de detalhes que muito falarão e seduzirão o leitor na compreensão de suas personalidades, contextualizações e impacto nas gerações do tempo em que foram concebidas.

Médico Psiquiatra com pós graduação pela Universidade Complutense de Madrid-Espanha e Servizio di Saluti Mental de Trieste-Itália; especialista em psiquiatria pela AMB e ABP. Mestre em Ciências da Saúde pela UNB.