Requiem-For-A-Dream-photo-1

Rumo ao inverno de Sara

O diretor Darren Aronofsky conduziu o filme Requiem for a Dream como se fosse uma ópera. Tendo esse conceito inicial, dividiu-o em estações de forma literal, ou seja, o filme inicia-se no Verão, passa depois para o Outono, finalizando-se no Inverno. Cada estação é construída, especialmente, através da psique dos quatro personagens principais. Essa análise terá como foco a personagem Sara Goldfard, justamente por ser – das personagens apresentadas – a mais impactante (ao menos, para mim).

Sara Goldfard é uma senhora solitária, de meia idade, viúva, tem um único filho e passa a maior parte do seu tempo assistindo à TV, sua mais fiel companheira. A TV é usada como a droga necessária para sua sobrevivência solitária, sem esperança e objetivos concretos. Como uma ode ao claro verão do Brooklin, o filme é iniciado. Ainda nesse momento, Sara tem como vício apenas sua TV e, a partir desse vício, começa a elaborar sonhos antagônicos à sua reduzida realidade.

O verão da vida de Sara é iluminado por um telefonema. Nele, ela é convidada a participar de seu programa favorito. Diante disso, sua vida passa a ter um novo sentido, agora já não é somente mais uma viúva solitária, ela vai aparecer em um programa de televisão e o vislumbre dessa imagem é maior que qualquer imagem que ela poderia pensar em construir (se tivesse força para dar os primeiros passos rumo a isso). Com o convite, vira celebridade entre suas companheiras de “banho-de-sol”. Em virtude de seu novo status de celebridade emergente, ganha até um local especial durante as tardes de sol na porta do prédio. Esse é o estopim para a nova obsessão que se forma em sua mente. Agora ela precisa voltar a ser a mulher que vestiu o vestido vermelho. Esse vestido representa uma época em que seu marido existia, que seu filho era um promissor rapaz recém-formado do ensino médio. Representa, de certa forma, tudo aquilo que ela perdeu, que vinha à tona somente por intermédio de lembranças longínquas.

A Sara que ela via no espelho estava com um peso acima do padrão estabelecido pelo vestido vermelho. Não tinha nem mais a beleza de outrora. Mas, a esperança de ser alguém através da luminosidade atraente da tela da TV, deu-lhe forças para iniciar uma mudança radical em seu corpo (o que resultaria numa mudança em sua vida, pensava ela). Como deixar os doces que lhe davam alento era uma atitude que requeria uma força que ela não tinha, seguiu o conselho das senhoras do prédio e foi ao médico na esperança de que ele lhe desse uma saída mais fácil. O médico, mostrando a frieza de alguns profissionais da área que dão pouco ou nenhuma relevância ao contexto no qual vive seu paciente, receitou-lhe umas pílulas mágicas que lhe permitiriam o emagrecimento tão sonhado. Essa nova Sara, com esperança, objetivos, show de TV e pílulas milagrosas e que negava-se a enxergar o vício do seu próprio filho (e sua própria situação) era a figura que fechava o verão para iniciar um ciclo que desencadearia numa fragmentação quase total de sua “triste figura”.

É outono. E isso é constatado não somente nas folhas caídas pelo chão, mas pelos restos dos personagens principais desta história jogados no abismo de suas próprias vidas. As pílulas de anfetaminas, que a princípio ajudaram a consolidar o sonho do vestido vermelho, começaram a surtir o efeito devastador que advém de sua ingestão sem controle e exagerada. A mulher do vestido vermelho, ao invés de parecer mais próxima com a significativa perda de peso, assemelha-se mais a um borrão distante na mente da Sara. Sua existência pacata foi transformada num show de horrores e a esperança deu lugar ao delírio. A Sara que a cada semana comprava sua própria televisão – continuamente vendida pelo seu filho drogado – ainda espera o convite para participar do programa, que parece ser tão ilusório quanto a mudança de vida trazida pelo adentrar-se no vestido vermelho. A droga e seu efeito tranquilizador e facilitador para algumas ações, agora é o botão que aciona as alucinações (não mais interessantes) em sua mente. Por causa da própria miséria que compõe sua existência, ela insiste no aumento do consumo das anfetaminas para tentar apaziguar algo que já saiu do seu controle. Esse algo é sua própria mente, sua capacidade de discernir entre o real e o fantasioso, sua capacidade de lutar para a sustentação da sua unicidade e identidade. A Sara torna-se parte de sua casa obscura. É parte da geladeira que a assombra, do programa que antes a divertia e que agora a atormenta, ou seja, a Sara é seu próprio delírio.

Há um momento em que o sonho passa a ser um veneno para a saúde mental? Se existe, como identificá-lo? Há vida saudável perante um contexto doente? Há algo que possa ser feito para mudar o rumo de nossas próprias vidas se tivermos sujeitado o nosso organismo a determinadas substâncias? O diretor do filme não tenta responder a nenhuma dessas perguntas de forma literal. Apresenta em seu Inverno não um gabarito simples para perguntas muitas vezes estúpidas, mas um ambiente trágico e seco, cruel e devastador, como é o final da maioria das grandes óperas.

O inverno de Sara é o fim de sua esperança. É a constatação de sua doença mental pelas poucas pessoas que a cercam. Uma doença obviamente exponencializada pelo vício nas pílulas mágicas, mas iniciada muito antes, através da solidão, do medo, das promessas advindas da televisão (ainda que acreditar nisso tenha sido apenas um reflexo das duas primeiras situações). É nesse cenário devastador que a caminhada de Sara rumo ao sucesso almejado em participar de um programa de TV chega ao fim. Em seu delírio no hospital psiquiátrico, ela ainda sonha com o vestido vermelho, com o show que prometia ascensão social, com seu filho bem sucedido vindo ao seu encontro, com uma vida que não lhe pertence, mas que permanece vívida em algum local de sua conturbada mente.


Texto apresentado na disciplina Bases Biológicas do curso de Psicologia do CEULP


FICHA TÉCNICA DO FILME

Réquiem para um sonho (Requiem for a Dream, EUA, 2000)

Gênero: Drama
Duração: 100 min.
Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Louise Lasser, Keith David, Sean Gullette
Compositor: Clint Mansell
Roteirista: Hubert Selby Jr.
Diretor: Darren Aronofsky

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.