Shakespeare: Cenas da vida, o eterno duelo na arte de AMAR

“O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.”

William Shakespeare

 

William Shakespeare é considerado o maior escritor inglês e um dos mais influentes dramaturgos do mundo. Esse status de relevância decorre, dentre outros aspectos, pelo teor de sua obra versar acerca do sentimento que move o drama da vida: O AMOR.

Para se escrever sobre esse sentimento, necessita-se, precipuamente, pedir licença à Razão. Pois o significado da palavra AMOR (do latim amor), em si, potencializa a multiplicidade semântica que impede uma única definição. Afinal, pode significar compaixão, paixão, desejo, querer o outro, desejar para si alguém ou alguma coisa.

Nesse labutar com as palavras para encontrar uma conceituação mais precisa, sentimo-nos seduzidos, visto que ao penetrar no Mundo da Escrita, as palavras parecem se ornar de flores e se debruçar nas janelas do vocabulário com o intuito de serem escolhidas para nos auxiliar na interpretação dos desígnios do AMOR.

Acredito que essa sedução pelo indefinível representa um dos insignes cernes inspiradores da dramaturgia Shakespeareana. Partindo desta premissa, abrem-se as cortinas textuais para a representação, baseada em obras de William Shakespeare, na busca da acepção do AMOR.

Na estruturação desse primeiro Ato de análise, a remissão aos versículos bíblicos ”Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente” e ”Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'” (cf. Mt 22,37-40) consiste caráter obrigatório. Justifica-se essa assertiva em decorrência do AMOR ser o maior mandamento da Lei de Deus.

Na contemporaneidade, esse exercício do Amor incondicional consiste, ainda, um desafio. Instigação esta que foi brilhantemente retratada nas obras deste autor, que também é conhecido como “Bardo do Avon”, designação alusiva ao fato de haver nascido e morrido em Stratford-upon-Avon, em 23 de abril de 1564 e 23 de abril de 1616, respectivamente.

Torna-se relevante afirmar que Shakespeare desmistifica o AMOR quando o apresenta como um “querer” desassociado da perspectiva pragmática e habitual de altruísmo e generosidade, concepção esta pertencente ao estilo grego, Philia, de Amar. Referenda-se essa afirmação, inicialmente, na análise de sua obra HAMLET. Uma vez que, segundo o enredo, no momento em que o príncipe dinamarquês Hamlet, para descobrir quem matara seu pai, decide se fingir de louco, infere-se que o sentimento que move suas ações é o AMOR à Vingança.

Esse sentimento compulsivo conduz o personagem à obsessão desmedida, pois ao matar Polônio, para continuar suas investigações na constatação se Claudius, o rei que ocupava o trono da Dinamarca, era o assassino de seu pai, fica claro o desapego à forma tradicional de contemplar o AMOR. Mas nem por isso, esse sentimento deixa de mover a luta de Hamlet. Concordemos ser paradoxalmente reflexiva essa constatação.

Dando continuidade à análise da obra, quando Laertes, filho de Polônio, retorna à Dinamarca para vingar a morte de seu pai, o Rei da Noruega, e Claudius organiza um torneio de esgrima com a finalidade de, neste duelo entre Laertes versus Hamlet, aquele mate este seu oponente. O AMOR se paramenta com as vestes da Traição. Por isso, embora Hamlet seja ferido pela espada de seu adversário, ele consegue golpear mortalmente Laertes. Episódio que comprova ser a Traição prima-irmã da Morte.

Nesse ínterim, a Rainha, mãe de Hamlet, bebe uma taça de vinho com veneno, que lhe fora destinada. Percebendo o plano para matá-la, ela alerta o filho alegando que a espada usada por Laertes está também envenenada.Então, Hamlet, ciente da morte iminente, dirige-se a Claudius e o transpassa com a espada com veneno, matando-o. Denota-se que no AMOR, a Traição sugere a chamada da Morte, e ambas adoram a Tragédia.

Essa obra de Shakespeare, se assim fosse finalizada, permitiria a apologia da Tragédia do Amor motivada pela Vingança e pelo Poder. Contudo, o autor atribuiu à Hamlet a perspectivado Amor que redime. Asseveração constatada quando, antes de sua morte, Hamlet decide que Fortimbrás, filho do Rei da Noruega, ocupará o trono da Dinamarca.

O Amor, diante do exposto, passa a ser contemplado como REDENÇÃO, tendo em vista que liberta Hamlet da vingança que marcou sua história. Entende-se que Hamlet, ao declarar o filho do Rei da Noruega como Rei de seu país; neste momento, possibilita com que toda a tragédia concorra para a remissão de todos os seus pecados anteriormente cometidos. Constata-se, assim, que o AMOR é um ator com várias facetas dentro de um único ser. Uma alusão barroca dada sua contradição fusionista da Punição e do Perdão.

No segundo Ato desta análise, observa-se essa envolvente imprevisibilidade no duelo que constantemente envolve o AMOR ser retratada, também, na obra Macbeth de Shakespeare. Essa afirmação se justifica pela observância a todas as ações realizadas por Macbeth com o intuito de concretizar a profecia das três bruxas que lhe relataram o presságio de que ele seria o Rei da Escócia. Nessa obra, o AMOR pelo Poder é o fio condutor da história.

Dessa forma, para trilhar sua caminhada rumo ao trono escocês, Macbeth inicia uma série de assassinatos, começando pela morte de seu amigo Banquo. Em seguida, aliado com sua esposa, Lady Macbeth, ele trama a morte do Rei da Escócia, Duncan. Após a morte do rei, Lady Macbeth, alucinada pelo egoísmo e ganância pelo poder, comete suicídio. Macbeth, agora Rei da Escócia, ama tanto esse poder majestoso que ignora a morte da esposa, bem como não atenta aos sinais do perigo que se aproxima. Essas atitudes sustentam a alusão ao Amor que cega, que tudo pode; logo tudo justifica.

Comprovação definida, pois embora as bruxas tenham advertido Macbeth de que ele só perderia o trono caso “um bosque chegasse ao castelo”, bem como “ nenhum homem nascido de mulher” poderia matá-lo, ele, encantado pela concretização e em pleno exercício do AMOR pelo Poder, não percebe quando se aproximam do seu castelo 10.000 homens do exército inglês que, camuflados, levantavam troncos e galhos de árvores. Ele não compreende que se realizava a primeira profecia. Era o bosque que chegava ao castelo. O Amor excessivo deixa-nos desatentos e desarmados diante do imprevisível.

Assim, Macbeth não atentou que o Rei Duncan, por ele assassinado, possuía um filho, Macduff, que, naquela investida, comandava o exército inglês. Em meio ao combate, Macduff revela que fora tirado prematuramente do ventre de sua mãe. Logo, se não era “homem nascido de mulher” nada o impedira de matar Macbeth. Assim o faz, degolando-o. Concretizavam-se as predestinações.

Nesta obra, Shakespeare nos faz refletir que o AMOR concretizado, muitas vezes, cega-nos a todos os presságios. Logo, reflitamos que o AMOR exige atenção redobrada e constante, porque a efemeridade e a inconstância das coisas da vida precisam ser respeitadas como preconizava Camões “Sente-se a firmeza somente na inconstância”

Nesse último ato de nossas divagações sobre Shakespeare, aludir-se-á à obra Romeu e Julieta, clássico revisitado e enaltecido com prazerosa exaustão na dramaturgia. O estudo desse drama nos conduz à observância do AMOR concebido, pelo autor, de maneira usual. Contempla-se, nessa obra, o Amor subjetivo, sentimentalista, egocêntrico e condicionante do Viver ou Morrer.

Pondera-se acerca do atributo incondicional da arte de Amar, fato decorrente pelo fato de o AMOR protagonizado por Romeu e Julieta desafiar não somente a rivalidade das famílias Montecchios e Capuletos. Contudo, provocar a inevitável necessidade da concretização do sentimento vivido pelos amantes. Se isso não ocorre, idealiza-se o fatalismo do Morrer por Amor.  Posteriormente, essa tragédia de amar, também, inspirou Goethe a escrever “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, bem como Camilo Castelo Branco em sua obra “Amor de Perdição.

Na obra de Shakespeare, Romeu, após acreditar que Julieta havia falecido, ingere veneno e morre. Quando Julieta, ao acordar, percebe o acontecido, suicida-se com o punhal de seu amado Romeu. Essa tragédia romântica envolve os arroubos sentimentais imensuráveis que fogem à racionalidade.

Destarte, como preconizava Drummond “O Amor foge a dicionários e a regulamentos vários”. Podendo, ainda, o Amor ser laudado, conforme poetizou Almeida Garret “Esse inferno de Amar/ Como eu amo….. Essa chama que alenta e consome/ que é a vida – e a vida destrói”. Nesse sentido, William Shakespeare notabilizou o AMOR e a tragédia de AMAR.

Diante destas postulações, reflete-se que no cenário de nossas vivências, o Amor protagoniza, sim, nossos duelos existenciais. Essa máxima incontestável permite a ousadia de afirmar que o importante, nas tramas do existir, é AMAR. Pois somente permitindo-nos vivenciar o AMOR, mergulharemos na Alma do Mundo. Possibilitando-nos o entendimento de que, dessa forma, o enredo da peça teatral de nossa vida tem sentido.

De posse desta constatação, as cortinas poderão ser fechadas. O espetáculo da vida terá valido a pena. Aplausos serão ouvidos, pois compreendeu-se, enfim, que nos duelos que envolvem o Amor , nem sempre seremos vencedores. Contudo, Shakespeare nos faz refletir que o importante é lutar, pois só se vive caso se permita morrer de amar.

Principais obras de Shakespeare:

– Tragédias: Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Julio César, Macbeth, Antônio e Cleópatra, Coriolano, Timon de Atenas, O Rei Lear, Otelo e Hamlet.

– Dramas Históricos: Henrique IV, Ricardo III, Henrique V, Henrique VIII.

– Comédias: O Mercador de Veneza, Sonho de uma noite de verão, A Comédia dos Erros, Os dois fidalgos de Verona, Muito barulho por coisa nenhuma, Noite de reis, Medida por medida, Conto do Inverno, Cimbelino, Megera Domada e A Tempestade.

Elienai Ferreira de Oliveira
Mestre em Letras, com ênfase em Linguística. Professora de Comunicação e Expressão do CEULP/ULBRA. Amante das Letras e da Literatura. Colaboradora do (En)Cena.
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