A mulher e a arte em Nise – O Coração da Loucura

Nise da Silveira é um nome forte quando o assunto é revolução. Mais especificamente revolução no modelo tradicional de psiquiatria e tratamento da loucura. De forma merecida, essa mulher espetacular recebeu uma homenagem em forma de filme. Nise: O Coração da Loucura é uma produção brasileira, lançada em 2016, que conta a trajetória da transformação provocada por essa psiquiatra alagoana (1905-1999), cuja é representada pela atriz Gloria Pires.

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O filme inicia com a volta de Nise para o hospital psiquiátrico Engenho de Dentro. Nesse momento, ela presencia uma cena marcante e, infelizmente, comum nos centros psiquiátricos entre os anos de 1936 e 1956. Se trata da lobotomia e da eletroconvulsoterapia. De acordo com Masiero (2003):

A lobotomia e leucotomia foram utilizadas em pacientes de instituições asilares brasileiras, entre 1936 e 1956. Também chamadas de psicocirurgias, eram intervenções que consistiam em desligar os lobos frontais direito e esquerdo de todo o encéfalo, visando modificar comportamentos ou curar doenças mentais. A técnica, idealizada pelo neurologista português Egas Moniz em 1935 e aperfeiçoada pelo americano Walter Freeman, chegou ao Brasil por intermédio de Aloysio Mattos Pimenta, neurocirurgião do Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, logo seguido por outros médicos. Esta medida foi aplicada em mais de mil pacientes internados não só para fins curativos, mas também para aprimorar tecnicamente a cirurgia, uma vez que os experimentos preliminares com animais eram escassos. No Brasil, a técnica foi adotada até 1956, passando a ferir o Código de Nuremberg, de 1947, concebido para regulamentar e conter os abusos da experimentação médica em seres humanos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial.

E é justamente esse tratamento abusivo, experimental e desumano que Nise se recusou a aplicar. Como a ciência considerada em evolução na época se dava por meio dessas técnicas, a psiquiatra foi colocada no setor abandonado de terapia ocupacional. E, mesmo com muitas dificuldades, como a não aceitação de seus métodos e até certo preconceito por ser mulher (visto em vários momentos do filme, mas, principalmente, em um trecho em que um de seus colegas fala que é difícil trabalhar com mulheres), deu início a uma revolução magnânima.

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Com toda a delicadeza e cuidado femininos, Nise torna esse setor mais agradável e acolhedor, ensinando que no local não há pacientes, mas clientes, pois ela e seus colegas estão ali a serviço deles e que a melhor forma de intervenção é tratando-os como humanos. A força, a coragem, a resistência e a persistência de Nise também são marcantes, mostrando esse aspecto que caracteriza a mulher em geral.

Contando com a ajuda do artista plástico Almir Mavignier, Nise implanta a arte-terapia no tratamento de doenças mentais. Indivíduos que antes eram tratados como farrapos, passaram a serem vistos como artistas. Interessada na trajetória das pinturas de cada cliente, Nise enxerga nelas um pouco da psicologia analítica, pois, muitas lembravam mandalas ou traziam formas circulares.

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Segundo Carl Gustav Jung (1875, apud Romano, 2015):

[…] ao fazermos uma mandala ocorre uma descarga de tensão e é comum surgir imagens espontâneas internas enviadas pelo inconsciente. Quando criamos uma mandala estamos produzindo nosso próprio espaço sagrado. A circunferência é um campo delimitado que remete à proteção, e o centro nos leva a olharmos para nós mesmos, saindo do externo, de tudo que nos tira do contato com nosso EU.

O que Jung fala fica bem claro nas obras produzidas pelos clientes de Nise. No início, as pinturas eram abstratas, sem formas. Depois, conforme o tratamento da arte-terapia ia evoluindo, as pinturas também foram ganhando formas e vida, mostrando que esses indivíduos de fato expressavam o seu mundo interno, ora bagunçado e assustado, ora organizado e tranquilo. Essas obras estão expostas hoje no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.

Fonte: http://migre.me/wbMs4
Fonte: http://migre.me/wbMs4

Nise da Silveira deu voz à loucura. Diferente de todos os envolvidos naquele lugar hostil, ela não tinha medo dos indivíduos que estavam sob os seus cuidados. Ela permitiu que eles se expressassem e, o mais importante, fossem tratados com dignidade e humanidade. Seu nome marca uma revolução e a história na psiquiatria brasileira, além da implantação da arte-terapia como tratamento para as doenças mentais e da abordagem junguiana no país. Mas, além de tudo, ela marca uma história de mulheres que fizeram a diferença, não se conformando com o que havia de errado em seu meio e lutando para conseguir melhorias e transformação.

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“Meu medo é não saber morrer como um gato, embora a morte propriamente não me faça medo. É não saber como morrer como os gatos sabem. É isso que peço que eles me ensinem. Um gato, quando não quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não parece que esteja com emoção de raiva como eu fico às vezes. Desprezo. Sutileza completa. Eles são grandes mestres.” – Trecho de entrevista com Nise da Silveira.

REFERÊNCIAS:

SANTOS, L. G. P.   Nise da Silveira – Entrevista. Scielo Brasil, Psicol. cienc. prof. vol.14 no.1-3 Brasília 1994. Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931994000100005.Acesso em 04 mar 2017.

VELOSO, A. M. A.  Quem foi Nise da Silveira, a mulher que revolucionou o tratamento da loucura no Brasil.  HuffPost Brasil, 27/01/2017. Disponível em: http://www.huffpostbrasil.com/2016/04/19/quem-foi-nise-da-silveira_n_9671732.html Acesso em: 04 mar 2017.

MASIERO, A. L. A lobotomia e a leucotomia nos manicômios brasileiros. Scielo Brasil, Hist. cienc. saúde-Manguinhos vol.10 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2003. Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702003000200004.Acesso em: 04 mar 2017.

ROMANO, C. T. Mandalas: a expressão do inconsciente. Clínica de Psicologia Relacional. Disponível em: http://terapiarelacional.com.br/mandalas-a-expressao-do-inconsciente. Acesso em: 04 mar 2017.

FICHA TÉCNICA DO FILME: 

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NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA

Diretor: Roberto Berliner
Elenco: Glória Pires, Fabrício Boliveira, Roberta Rodrigues, Augusto Madeira
País: Brasil
Ano: 2015
Classificação: 12

Psicóloga em formação no Centro Universitário Luterano de Palmas - CEULP/ULBRA e estagiária no Portal (En)Cena
Autor / Co-Autores: