A Onda: uma análise sobre persuasão, construção do self e realidade social

O presente trabalho tem a intenção de relacionar os conteúdos da disciplina Psicologia Social com o filme “A Onda”. O filme foi lançado em 2008, com direção de Dennis Gansel, apresenta enredo baseado em fatos reais e narra a semana pedagógica de uma escola nos Estados Unidos, enfatizando uma turma do Ensino Médio que discutiu o tema Autocracia. Ao longo da trama, o professor Rainer Wenger que conduz as aulas, mostra para os jovens como ainda é possível viverem numa ditatura nos dias atuais. Isto, através de um movimento intitulado “A Onda”, que faz com que os alunos cheguem a um estado de alienação, resultando em uma grande tragédia.

A partir do filme é possível dizer que muitos são os conteúdos de Psicologia Social que se apresentam ao longo da história. Tendo em vista que a Psicologia Social visa estudar “o comportamento de indivíduos no que ele é influenciado socialmente” (LANE, 2006, p. 8). Assim, a partir do contexto em que os jovens da “Onda” estavam inseridos, foram transformando-se e constituindo-se a partir de suas experiências no movimento social. Com relação aos temas da disciplina, serão apresentadas articulações entre o filme e os temas Identidade, segundo Jacques (1998) e Persuasão de acordo com Myers (2014), a partir de textos que foram discutidos durantes as aulas.

O filme “A Onda” a partir da perspectiva da psicologia social

No início do filme, foi apresentado um pouco do professor Wenger, uma pessoa aparentemente bem liberal, que gosta de “Rock andRoll” e tem um estilo descontraído. A trama começa quando ele é informado que irá ministrar um curso de uma semana sobre Autocracia, com o qual não se identifica. De início, Wenger tenta trocar com o professor que abordaria o assunto Anarquia, porém isso não foi possível. Articulando o filme com o conteúdo da disciplina, é possível dizer que a identidade do professor é constituída por elementos de uma pessoa descontraída e divertida. Identidade, conforme apontado por Jacques (1998, p.161) refere-se a “um conjunto de representações para responder a pergunta quem és”.

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Segundo Erik Erikson (1972, apud Jacques, 1998), um dos autores cujos estudos sobre o tema são bastante difundidos, a identidade tem como modelo o indivíduo em situação de competência e eficácia sociais. No primeiro dia de curso Wenger se espanta, pois devido sua popularidade e por ser visto como um professor bacana, sua turma estava cheia, mesmo sendo um assunto pouco interessante. A turma era constituída pelas mais variadas “tribos” alunos de todos os estilos e culturas diferentes. O professor pergunta se eles sabem o que significa “Autocracia”, surgem alguns palpites, uns em tom de brincadeira e outros que se aproximam do que realmente o assunto aborda.

Inicialmente, Rainer não sabia ao certo como abordar tal assunto e questionou a turma se atualmente seria possível uma ditadura na Alemanha, os alunos alegam que não e acabam debatendo sobre o isso, abrindo espaço para o professor iniciar seu experimento prático sobre o tema. Ao retornarem de um breve intervalo os alunos viram que as disposições das carteiras estavam de maneira diferente, a partir da qual todos podiam sentar-se de maneira organizada.

Analisando as condutas do professor a partir dos elementos da persuasão, entende-se que Wenger utilizou da rota periférica para influenciar os alunos. Segundo Myers (2014) esta implica em menos reflexão, neste traço são explorados elementos que gerem aceitação sem recorrer ao pensamento. Ou seja, tenta-se tornar a mensagem atrativa por meio de associações favoráveis. A maioria dos alunos não sistematizavam hipóteses e argumentos sobre o que lhes era dito, eram deixados levar pela simpatia e emoções. O ideal de bem comum e ser aceito independentemente do que se é, foi atrativo aos alunos. Assim, Wenger utilizou da estratégia para persuadir os jovens e levá-los a mudanças de comportamento.

Nesse mesmo contexto, no decorrer das aulas de Autocracia e a partir das metodologias utilizadas, foi possível verificar que conteúdos como conjuntos de traços, de imagens, de sentimentos pertencentes a cada aluno, ou seja, a identidade pessoal – ou “self” termo norte-americano – é gradativamente moldada, tomando forma uma identidade social pautada em atributos que assinalam a pertença em um grupo (JACQUES, 1998).

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O professor pergunta a turma quais são os requisitos de um sistema autocrático, são apontadas questões de vigilância, insatisfação e liderança. Wegner organiza com a turma um grupo, a partir dos princípios autocráticos. Os alunos o elegeram como líder e então o professor impõem algumas regras que deverão ser seguidas no decorrer da semana. A princípio, alguns alunos relutam, mas ele tenta mostrar-lhes os benefícios das novas condutas e assim atinge bons resultados.

Wegner se mostra como especialista uma vez que é professor, por isso tem certa credibilidade para falar sobre o tema. Bem como, é confiante ao falar. Ao longo do filme é firme em suas falas, tornando-as mais convincentes. Tudo isso, segundo Myers (2014) faz com que o indivíduo pareça mais crível e a persuasão seja mais eficaz. O título de professor refere-se a sua identidade social. Esta classificação é uma das subdivisões dos sistemas identificatórios e segundo Jacques (1998, p. 161) está relacionado a “atributos que assinalam a pertença a grupos ou categorias”. Neste caso, está relacionado à sua profissão.

Apesar disso, alguns alunos não concordavam com as regras, por isso, foram convidados a se retirarem caso não aceitassem as imposições. Essa situação pode ser caracterizada como uma tentativa do professor de eliminar possíveis contra-argumentos, que possam levar os alunos a refletirem contra suas propostas (Myers 2014). Em seguida, começam os debates sobre autocracia, já com maior participação dos alunos. Mesmo após a aula, os jovens ainda se comportavam conforme as imposições de Wegner, embora ele alegasse que estas normas eram apenas para o momento de aula. Isto demonstra que os alunos já estavam sendo influenciados pelo discurso do professor.

Wegner treina seus alunos para persuadirem outras pessoas, no intuito de mostrá-los como a ditadura pode voltar a existir. Um exemplo disso é quando Lisa vai responder aos seus questionamentos, a aluna inicia com insegurança, então ele busca orientá-la a responder de forma curta e precisa. Para assim, quando eles forem falar com outras pessoas o discurso seja mais eficaz, pois conforme citado anteriormente, falas concisas e seguras podem ser mais influentes. Os alunos não conscientes de que estavam sendo persuadidos, chegam em suas casas falando com empolgação sobre o que haviam aprendido. Como também já adotaram algumas medidas de disciplina que lhes foram impostas, se levantavam para falar, se dirigem ao professor com título de autoridade, além de tentar convencer os demais sobre atratividade a aula.

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Para Myers (2014) alguns dos aspectos que contribuem para a percepção de fidedignidade do comunicador são: falar olhando nos olhos, a audiência crer que não estão tentando persuadi-los, e falar rápido. O professor Wegner utilizou esses princípios para convencer os alunos, sempre fitava a classe, a turma não percebia que estava sendo manipulada e Wegner falava firme, sem titubear e rápido. Isto pode ter contribuído para a adesão dos alunos as propostas do professor.

No segundo dia o professor pede aos alunos que repitam alguns movimentos feitos por ele. Por fim, todos estavam batendo os pés como se estivessem marchando em um único ritmo. Alegando que “aos poucos a gente está se tornando uma unidade, este é o poder da união”. Finaliza dizendo “União é poder”. Tudo isso, com um propósito de interação, desmanchar grupinhos, desfazer as diferenças sociais que existiam entre os alunos para que ambos possam se ajudar.

O discurso do professor a respeito da união e de quão importante é estarem juntos para atingir seus objetivos, também é uma das características para uma persuasão eficaz. Segundo Myers (2014) é relevante que o comunicador inicie utilizando argumentos que a maioria concorda. A partir das cenas anteriores, é possível perceber como os alunos valorizavam essa interação, alguns até relatavam, ainda que de forma sútil, como era importante acabar com os preconceitos e estigmas existentes.

A fim de delinear a suscetibilidade da turma para a persuasão através do discurso da união e bem comum de todos é importante relembrar uma das primeiras cenas, na qual numa festa no bar, os jovens em uma conversa dizem: “Martin, me diz uma coisa não tem mais nada, contra o que é que a gente vai se revoltar hoje em dia? Parece que nada mais vale a pena sabe, tipo, a gente só quer se divertir o que falta pra nossa geração é um objetivo comum, pra unir a gente”. Neste momento já era possível perceber como os alunos desejavam essa união.

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Analisar a audiência é um dos elementos imprescindíveis, para assim, delinear estratégias realmente eficazes para influenciar quem recebe a informação. Para isso, é importante considerar a idade dos ouvintes (Myers, 2014). O autor acrescenta que jovens são mais instáveis, logo persuadi-los é mais fácil. Diante dessa afirmação, é possível dizer que os adolescentes, frente às dúvidas e possibilidades se deixaram levar pelo discurso do professor, já que a partir do movimento passaram a conviver em grupo e suprir algumas de suas necessidades, além desconstituírem suas identidades a partir da experimentação do meio agitado da “onda”.

Nesse sentido, Myers (2014, p. 145) aponta que “se a mensagem desperta pensamentos favoráveis, pode nos persuadir”. A cada aula os alunos articulavam o discurso com pensamentos agradáveis, como o de bem comum, a possibilidade de serem aceitos e pertencer a um grupo, tudo isso potencializava a persuasão. Alguns alunos da turma de anarquia começaram se interessar pelo que está acontecendo na turma de autocracia e mudaram de curso. O professor lança alguns assuntos e faz com que os alunos façam aquilo que ele gostaria que fizessem, por exemplo, ele fala sobre uniformidade, grupos e igualdade social, então os alunos falam sobre uniformes, e o professor propõem que durante essa semana todos usem um uniforme como camisa branca e calça jeans, assim os alunos aceitam.

Diante dessa ideia de igualdade e ausência de preconceitos, os alunos se envolvem. Um dos alunos alega não ter dinheiro para comprar o uniforme, outro já influenciado pela ideia de bem comum e união, diz ter duas camisetas e oferece uma ao colega. Liza, diante dessa necessidade de se sentir pertencente compra uma camisa branca, apesar da dificuldade financeira. Esse envolvimento dos alunos mostra que eles já estão sendo influenciados e está havendo uma mudança de comportamento.

Apesar do engajamento de alguns alunos, as táticas de persuasão não influenciaram todo mundo. Algumas alunas com características diferentes não estavam tão suscetíveis, por isso é possível dizer que precisariam de outras técnicas de persuasão de acordo com suas peculiaridades. Karo e Mona apresentavam uma identidade mais reflexiva e voltada para a argumentação, o que ia de encontro às estratégias utilizadas por Wenger.

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No terceiro dia, quase todos os alunos vão à aula uniformizados, com exceção de Karo, que vai sem camiseta branca, e é repreendia por alguns colegas. Mona abandona o curso por não estar contente com o rumo que está tomando a disciplina e a turma tem novos alunos. Em seguida, é sugerido que o grupo tenha um nome, vários alunos dão sugestões, Karo que está sem uniforme é ignorada por algum tempo. Por fim, os alunos votam e optam por “A Onda”, e um dos alunos é escolhido para fazer a logo do movimento.

Wenger diz que “ação é poder” questionando qual o objetivo das boas ideias se não virarem ações, dizendo que “a onda” é o bem maior, que todos podem cooperar criativamente, os alunos se empolgam e surgem muitas ideias de como divulgar o movimento, como tornar “A Onda” conhecida. Segundo Myers (2014) uma das possibilidades para tornar a persuasão mais eficaz é tornar o membro ativo no movimento, ou seja, lhe dar atividades para executar.

É então que surgem os papéis que cada um do grupo vai desempenhar, segundo Erving Goffman (1985, apud Jacques, 1998), cada personagem atua conforme a função que vai desempenhar no palco social. Sendo assim, “os papéis sociais caracterizam a identidade do outro e o lugar no grupo social; o personagem, enquanto representa um papel social, representa uma identidade coletiva a ele associada, construída e mediada através das relações sociais”.

O professor gosta de ver que a turma está envolvida e Karo se sente excluída. A partir daí os alunos começam a falar para outras pessoas que o movimento é legal, que devem participar, e já se assumem como membros do grupo. O professor está empolgado com a participação dos alunos e que todos têm demonstrado pelo assunto. Tim, um dos alunos, começa a se envolver verdadeiramente com o movimento, levando tudo muito a sério. Isto pode estar relacionado com sua história pregressa e ausência de reforçadores, o que aumentou sua suscetibilidade, uma vez que estar no grupo lhe proporcionava experiências de inclusão e reconhecimento. Outros alunos fazem moldes e adesivos, deixando as marcas da “Onda” pela cidade. O movimento se tornou muito atrativo aos demais jovens.

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Na quinta-feira, o movimento está mais forte, os alunos se assumem para outros colegas como participantes de um grupo, e criam uma saudação. Wenger gosta da ideia e diz que todos devem aderir à saudação. Karo chama o professor para conversar e diz que “A Onda” está fora de controle, e pede para o professor parar, ele diz que falta somente um dia que ela não deveria desistir tão fácil. A aluna não aceita os desdobramentos do movimento e o estado de alienação de todos, então Wenger pede que ela mude de turma. Mais uma vez, nota-se a exclusão de pessoas que possam contra argumentar e influenciar os membros negativamente.

Devido a proporção do movimento, a diretora chama o professor para um conversa, pois alguns colegas não têm apoiado a atitude pedagógica dele. Porém, ela tem visto mudança nos alunos, inclusive pais tem elogiado o trabalho realizado durante a semana. Um grupo de anarquistas encontra alguns membros da “Onda” na rua e começam uma briga, Tim saca um arma e aponta para os “rivais”, fazendo que eles se retirem do local.

Os amigos de Tim se assustam, pois não sabiam que ele possuía uma arma, o garoto diz que a arma é de festim. Aqui já é possível perceber o nível de engajamento dos alunos, que não refletem mais sobre suas ações e chegam a se comportar de modo negativo em defesa da “Onda”. Os alunos se sentem amparados pela “Onda” como se fosse uma família, por meio dos vínculos estabelecidos.A noite o grupo faz uma festa, enquanto isso, Karo faz panfletos pedindo para pararem o movimento, a garota os espalha pela escola, porém os integrantes do movimento conseguem recolhe-los antes dos outros alunos verem.

Na sexta-feira Wenger vê no jornal que seus alunos fizeram pichações pela cidade e fica muito bravo com a situação, diz que isso está indo longe demais, e pede para os alunos escreverem sobre as experiências que tiveram durante essa semana. Pede também, para os alunos estarem no jogo de polo aquático, apoiando o time da escola. O movimento se organiza de tal maneira que todos que vão ao jogo de camisa branca, e bloqueiam a entrada de quem não aderiu ao grupo. Durante o jogo Karo e Mona distribuem os panfletos para pararem com “a Onda”, por isso começam brigas na piscina e na arquibancada.

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Em seguida, a esposa de Wenger diz que ele está manipulando a turma e que deve parar com isso. Marco também pede que o movimento pare, pois está tomando proporções que o próprio Wenger desconhece. Todos estão vivendo pela “Onda” e brigando com pessoas que não aceitam o movimento. Marco diz que a pseudo disciplina é totalmente fascista. Aqui é possível perceber que o aluno já está refletindo acerca de seus atos e do movimento. Sobre essa mudança de comportamento, Myers (2014) alega que apesar da persuasão pela rota periférica ser mais rápida é possível que ela também seja momentânea, o que pode justificar esse fato.

Na cena final, Wegner reúne os jovens no auditório para conversarem sobre o movimento “A onda”, ele inicia lendo os relatos dos alunos sobre a semana em que estiveram engajados no projeto. Nesse momento, notou-se como os alunos diziam estar felizes, por finalmente participarem de um movimento coletivo. A cena é marcada por frases como: “A onda nos tornou iguais”. “Sempre tive tudo que quis, roupas, dinheiro, tudo o que eu mais tinha era tédio, mas os últimos dias foram muito divertidos, não importa agora quem é o mais bonito, mais popular ou faz mais sucesso”. “Raça, religião e classe social não importam mais, pertencemos a um movimento, a onda deu significado a nossa vida, ideais pelos quais lutar… é muito melhor ser parte de uma causa”.

A partir dos relatos verifica-se que essa união da “Onda” e o sentimento de pertença constituíam para cada indivíduo sua identidade social, originada pelo grupo. Assim, ser membro do movimento se tornava um atributo para os jovens (JACQUES, 1998). Esse cenário serve de modelo ao que Jacques (1998) explica sobre identidade pessoal e identidade social como algo indissociável em plena construção do eu-social:

[…] é do contexto histórico e social em que o homem vive que decorrem as possibilidades e impossibilidades, os modos e alternativas de sua identidade (como formas histórico-sociais de individualidade). No entanto, como determinada, a identidade se configura, ao mesmo tempo, como determinante, pois o indivíduo tem um papel ativo quer na construção deste contexto a partir de sua inserção, quer na sua apropriação. Sob esta perspectiva é possível compreender a identidade pessoal como e ao mesmo tempo identidade social, superando a falsa dicotomia entre essas duas instâncias. Dito de outra forma: o indivíduo se configura ao mesmo tempo como personagem e autor – personagem de uma história que ele mesmo constrói e que, por sua vez, o vai constituindo como autor (JACQUES, 1998, p. 140).

Em seguida, o Professor Wenger relata que é impressionante o que aprenderam com o movimento e que a “Onda” não deve terminar. Marco diz que Wenger está manipulando os alunos. O professor em tom firme diz que “A Onda se espalhará pela Alemanha” e manda levarem Marco, o traidor até ele. Pergunta à turma o que devem fazer com o traidor, determina que o aluno que levou Marco ele, determine o que fazer. Mas, o aluno diz que só fez o que o professor mandou.

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Nesse momento, Wenger começa a mostrar o que fazem os líderes em uma ditadura, tenta mostrar para os alunos que o rumo que o movimento tomou não era o certo, que eles estavam sendo fascistas, que estavam excluindo os que não concordavam com a ideologia da “Onda”. Afirma que foram longe demais e que estava na hora de acabar. O aluno Tim não concorda, saca uma arma e diz que ninguém deve sair, ele não quer que o movimento termine.Um dos colegas diz que a arma é de festim e ele atira. Depois aponta a arma para Wenger e diz que “A Onda” era sua vida, ameaça o professor, pois está inconformado com o fim do movimento. Logo após, Tim se mata.

Para Tim, tal grupo social representava seu lugar no mundo. Ele tinha incorporado uma identidade pessoal que não condizia com a realidade e pensar em viver sem desempenhar esse papel no mundo era sobremaneira insustentável para ele. Por não mais saber responder a questão “quem és” o fez agir sem reflexão e impetuosamente pelo simples fato de ter sua identidade perdida no vão social. Em pânico, os alunos são tirados do auditório e o professor é preso, como corresponsável pelos atos dos alunos.

Segundo Myers (2014, p. 150) “os grupos tem poder para moldar opiniões e comportamentos de seus membros”. O autor acrescenta que a partir do mundo que os indivíduos se inserem num grupo é ele quem oferece identidade e define a realidade dos participantes. Assim, os alunos que ainda eram jovens, logo instáveis, perceberam no grupo uma oportunidade de afirmarem suas identidades, através dos reforços obtidos por meio de seus comportamentos, resultando em uma alienação total.

Diante do exposto e das articulações realizadas, podemos concluir que a identidade de cada indivíduo varia de acordo com a realidade social e o ambiente que este está inserido. Tudo isso, pois ao nascer o indivíduo traz consigo algumas características inatas, relacionadas a sua estrutura biológica e ao longo de sua vida é moldado pela influência cultural de outros com que ele convive (BONIN, 1998). A partir das vivências e interações são assumidos diversos papéis, como por exemplo, o papel de pai, filho, amigo, estudante. O grupo do enredo em questão possuía uma identidade antes da intervenção do professor, identidade essa que foi moldada e alterada de acordo com os desejos e interesses propostos pelo professor, que utilizou técnicas eficazes de persuasão, que alteraram o “self” e o comportamento em grupo dos alunos.

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A postura e a firmeza do professor Wenger tornaram a persuasão efetiva, fazendo o grupo acreditar que o movimento “A Onda” era o melhor para eles e para todos os que estavam a sua volta. Assim, os alunos persuadiram pessoas do seu convívio diário a participarem de tal movimento, alegando que os levaria a uma igualdade social tanto na questão de identidade como em oportunidades e unidade.

A partir das mudanças mostradas ao longo da trama notou-se como os comportamentos são influenciados pelo meio, como a persuasão pode ser efetiva e levar a novas ações. Bem como, a pertença em um grupo é capaz de moldar opiniões. A partir de tantas interferências, se o indivíduo não for souber de fato se apropriar do meio criativamente e ser ativo no processo de construção de si, ele de modo acrítico passa a fazer a ser conduzido por terceiros. São essas relações entre indivíduo e sociedade que viés para estudos da Psicologia da Social.

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REFERÊNCIAS:

BONIN, Luiz Fernando Rolim. Indivíduo, cultura e sociedade. In: JACQUES, Maria da Graça Corrêa et al. Psicologia Social Contemporânea. Petrópolis: Vozes, 1998.

JACQUES, M. G. C. Identidade. Em: JACQUES, M. G. C. Psicologia Social Contemporânea. Petrópolis: Vozes, 1998.

LANE, Silvia T. Maurer. O que é psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 2006.

MYERS, D. G. Persuasão. Em: MYERS, D. G. Psicologia Social. Porto Alegre: Artmed, 2014.

FICHA TÉCNICA:

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Direção: Dennis Gansel
Roteiro:  Dennis Gansel, Peter Thorwarth, Ron Birnbach, Johnny Dawkins
Elenco: Jürgen Vogel, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Frederick Lau, Dennis Gansel
Música composta por: Heiko Maile
Ano: 2008