Giddens: auto-identidade em tempos de insegurança

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Fonte: www.scooppick.com

Anthony Giddens nasceu na Inglaterra e aos 21 anos graduou-se na Universidade de Hull. É sociólogo, conferencista e professor, reconhecido pela sua “Teoria da Estruturação”. Tem mais de trinta obras publicadas, que se caracterizam em três fases de sua vida acadêmica. Inicialmente, redefine a nova visão sociológica apontando uma abordagem teórica e metodológica baseada em uma interpretação crítica dos clássicos da sociologia. Na segunda fase, desenvolveu a “Teoria da Especulação” que definiu como a forma da dependência mútua entre o “agente humano” e a estrutura social, que está intimamente implicada na produção da ação. A terceira fase compreende os trabalhos mais recentes, em que destaca a modernidade, a globalização e a política, principalmente o impacto da modernidade sobre o social e a vida pessoal dos indivíduos. Define os postulados da Terceira Via entre o Capitalismo Liberal e o Socialismo.

O livro Modernidade e Identidade é constituído por sete capítulos, sendo eles, nesta ordem: Os contornos da alta modernidade; O eu: segurança ontológica e ansiedade existencial; A trajetória do eu; Destino, risco e segurança; A segregação da experiência; Tribulações do eu, e O surgimento da política-vida. A obra traz como alvo principal “o eu” e tem como ênfase o surgimento de novos mecanismos de auto-identidade que são constituídos pelas instituições da modernidade. Apenas os dois primeiros capítulos serão abordados nessa resenha.

No primeiro capítulo, Giddens, inicia com a pesquisa “Segundas Chances”, de Judith Wallerstein e Sandra Blakeslee, que fala sobre o divórcio e um novo casamento, dando ênfase no processo da ruptura ao recomeço para que possa fazer uma conexão da vida pessoal a um plano mais institucional. Em seguida dá um sentido geral ao termo modernidade, que são instituições e modelos de comportamentos estabelecidos após o feudalismo, e que também deu inicio à “industrialização da guerra“. A modernidade produz formas sociais distintas como o estado-nação. As instituições modernas surgem como um extremo dinamismo, visto que ocorre um ritmo rápido de mudança social. O autor divide o caráter dinâmico da vida social moderna em três conjuntos de elementos, que são eles: Separação de tempo e espaço (a condição para a articulação das relações sociais ao longo de amplos intervalos de espaço-tempo, incluindo sistemas globais), seguido por Mecanismos de desencaixe (consiste em fichas simbólicas e sistemas especializados. Separam a interação das particularidades do lugar) e, por ultimo, Reflexividade institucional (o uso regularizado de conhecimentos sobre as circunstancias da vida social como elemento constitutivo de sua organização e transformação).

2Fonte: www.behance.net

As pessoas que vivem hoje nos países industrializados estão sujeitas a tensões para o “eu” e a sociedade como um todo. Embora relativamente mais protegidos da atuação das forças naturais, estão submetidos a outros riscos. Os perigos ambientais que ameaçam os ecossistemas da Terra são hoje muito mais presentes. Esses exemplos ilustram o que o autor denomina de dialética do local e do global e tanto a cultura quanto a economia e as dimensões sociais têm papel preponderante.

Segundo Giddens, o encontro entre o eu e a sociedade torna a auto-identidade problemática, mas que não se trata de situação de perda ou de aumento da ansiedade. Assim, tanto a terapia ao nível dos indivíduos quanto das instituições maiores da modernidade é um meio de lidar com uma expressão da reflexividade do eu.

No segundo capítulo, Giddens defende o ponto de vista explorado pela perspectiva fenomenológica existencial e da filosófica de Wittgenstein onde o ser humano é saber, quase sempre, em termos de uma descrição ou outra, tanto o que se está fazendo como por que se está fazendo. No decorrer do capítulo, o autor aborda segurança ontológica e a confiança. A noção de segurança ontológica liga-se intimamente ao caráter tácito da consciência prática e a confiança básica se liga de maneira essencial à organização interpessoal do tempo e do espaço. Para Giddens, ansiedade é um estado geral das emoções dos indivíduos e devemos ver a motivação como um estado de sentimento, envolvendo formas inconscientes de afeto bem como angústias e estímulos mais conscientes. A relação de confiança, ansiedade e segurança estão interligadas e o autor exemplifica com o cotidiano de uma criança e suas relações sociais.

3Fonte: infjunraveled.tumblr.com

O autor aborda a questão existencial da auto-identidade que está mesclada com a natureza frágil da biografia que o indivíduo deixa transparecer. A identidade de uma pessoa não se encontra no comportamento ou nas reações dos outros, mas na capacidade de manter em andamento uma narrativa particular. A biografia do indivíduo, para que ele mantenha uma interação regular com os outros no cotidiano, não pode ser inteiramente fictícia. O eu é analisado tanto em sua dimensão ontológica quanto em sua trajetória na modernidade e o controle do corpo é um meio fundamental através do qual se mantém uma biografia da auto-identidade e ao mesmo tempo o eu está quase sempre em exibição para os outros.

Do ponto de vista acadêmico, não poderia descartar a obra como fonte de conhecimento frente ao surgimento de novos mecanismos de auto-identidade que são constituídos por instituições da modernidade.

4Fonte: unknownbuddhist.com

Fica claro o sólido conhecimento que o autor possui acerca do tema proposto e por ser um dos sociólogos mais profícuos da atualidade, empenha-se em apresentar circunstâncias para nos levar a compreender melhor sua obra com exemplificações do convívio social atual e de tempos mais antigos. Sem dúvida é uma leitura que exige certo conhecimento prévio para ser entendida claramente, além de diversas releituras e pesquisas quanto a conceitos, autores e contextos apresentados.

Giddens aborda os temas, como exemplo a ansiedade, de uma maneira detalhada tanto para a psicologia como para a sociologia, pois é de fundamental importância o entendimento amplo não apenas do contexto social, a realidade, mas também o contexto psicológico, como os medos e barreiras emocionais, que enfrentamos diariamente.

 

REFERENCIAS

GIDDENS, ANTHONY. Modernidade e identidade. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,2002. 224 p. Cap. 1 e 2.

Biografia de Anthony Giddens. Disponível em < https://www.ebiografia.com/anthony_giddens/ > . Acesso em 01 de jul. 2016.

CARDOSO FREIRE, Letícia de Freitas. Modernidade e Identidade: Anthony Giddens. Disponível em < http://www.cienciassociais.unimontes.br/arquivos/ed_09/12_Leticia%20Freire.pdf > . Acesso em 01 de jul. 2016.

PERALVA DIAS, Rafaela Cyrino. Resenha: modernidade e identidade. Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822005000300013 > . Acesso em 01 de jul. 2016.